O Marceneiro e o Poeta

25/06/2010
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Antônio estava debruçado sobre um banco de madeira rústico, que ele, com a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor avaliar o estrago causado pelos cupins. Com um formão, ia seguindo e alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis pessoas sentadas lado a lado —, e tinha orifícios de cupim por toda sua extensão. O Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em nosso refúgio de escritores?

“¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é mais eficiente na destruição do banco?”

Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: “Pois é… Isso aqui é como combater um câncer… A gente precisa retirar o que tá podre antes de iniciar o tratamento.”

“Humm… Você então trabalha mesmo como marceneiro, né.”

“Bom, a marcenaria é meu salva-vidas…”

Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio, mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei, embaraçado com minha tarefa.

“¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?”

“Ele me disse que voltava em uma semana.”

“¿E você va–”

“¿Ela tá com medo de mim, não tá?”, me interrompeu, sem deixar de mirar o banco.

Eu sorri: “Na verdade… sim. Quer dizer, não é bem meeedo…”

“Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?”

“Exatamente”, respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e que não era dado a rodeios. “Mas você não precisa ficar chateado com ela.”

“Não, claro que não, eu entendo.”

“Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?”

Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa franqueza mútua, tivesse sido quebrado.

“Yuri — ¿seu nome é Yuri, né? — me passa por favor essa caixa de ferramentas aí do seu lado.”

Estendi-lhe a caixa, que parecia uma caixa de engraxate, e resolvi ser tão direto quanto ele.

“¿E então, Antônio?”, comecei em tom amistoso. “Além de ser um cupim gigante, ¿há sobre você algum outro dado ameaçador que poderia fazer a Hilda perder o sono?”

Ele parou com seu trabalho e me olhou direto nos olhos, sustentando uma expressão simultaneamente irônica e inocente. As ferramentas luziam dentro da caixa, que ele acabara de abrir.

“Humm. Depende… ¿Você acha que ela ia ficar assustada se soubesse que eu sou… um fugitivo da justiça?”

Meu interesse viu-se elevado ao cubo.

“¿E você é?”

Ele riu, retomando o serviço: “Sou sim. Faz dois anos que fugi da prisão.”

Uma eletricidade percorreu meu corpo só de imaginar a reação da Hilda ao receber uma notícia como aquela. Uma eletricidade extática. Muito difícil evitar pequenos prazeres sádicos, ainda mais diante de uma mulher com discretas necessidades masoquistas. A Hilda certamente ficaria aterrada com a informação, mas a receberia rindo nervosamente, curtindo mais essa ironia do destino. “Meu Deus, Yuri! Essa casa só atrai gente estranha!!”, diria, degustando seu mais novo motivo para entrar em pânico.

“Peraí, Antônio, ¿não me diga que você já matou alguém?”

“Quando a gente fala em prisão, todo mundo já pensa logo em homicídio. Mas não, nunca matei ninguém não.”

“¿E você foi preso por quê?”

“Drogas.”

“Ah, você traficava.”

“Não exatamente. Eu semprei fumei maconha. Maconheiro mesmo. E um dia eu saí com um sobrinho meu, de carro. Uma blitz parou a gente e ele tava com uma trouxinha no bolso. Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas achei que minha irmã fosse me culpar caso ele fosse preso. Então eu disse ao policial que eu é que tinha dado o bagulho pra ele. Foi uma burrice dupla: primeiro porque ele era menor de idade e não ia ter maiores problemas; segundo porque eu não sabia que, na lei, presentear alguém com drogas é considerado tráfico. Artigo 12.”

“Caramba. Onde foi isso?”

“Em Goiânia.”

“Ah, essa é boa! ¿Então você é de Goiânia? Morei alguns anos lá.”

“Eu cresci no Setor Macambira. Fiquei preso no CEPAIGO.”

Antônio agora retirava uma das pernas do banco, inutilizada pela ação dos cupins.

“Nossa! O Carandiru do cerrado… ¿Você já tinha passado por algo assim antes?”

“Não, nunca. Nunca fui do crime. Aprendi marcenaria primeiro com meu pai e depois numa escola técnica. Sempre trabalhei com isso, desde a adolescência. Meu pai achava ridídulo dizerem que criança não deve trabalhar. Ele tava certo: sem um ofício a pessoa tá é perdida… Também participei de um grupo de teatro na associação de moradores lá do bairro. Cheguei a dirigir duas peças… Amadoras, né.”

“Você obviamente deve ter ficado muito puto com esse negócio de ser preso.”

“¿Puto?! Eu fiquei foi apavorado, em pânico!!”

“¿E como você se virou lá no CEPAIGO?”

Antônio então se sentou ao meu lado e começou a medir, com uma trena, a perna defeituosa que havia extraído do banco.

“Olha, pra falar a verdade, até que eu tive sorte. Quando eu cheguei lá, tava morrendo de medo, super ansioso. Aqueles portões altos abrindo pra gente entrar… Que sensação horrível!… E eu ia ficar de três a quinze anos lá dentro. É uma sensação de que a vida acabou, de que você está sendo jogado numa lata de lixo de gente, de que a sociedade agora tá cagando e andando pra você. O que eu não sabia é que tava correndo um boato de que um tal Cartucheirinha tinha sido preso e ia chegar naquele dia também. Todo mundo tinha medo dele, tanto os carcereiros quanto os outros presos. Um cara perigoso de verdade. Aí, chega a viatura e… ¿quem sai de dentro dela? Eu. Todo mundo pensou que eu é que era o Cartucheirinha.” Antônio deu uma risada acanhada: “Juro! Me olhavam com um respeito… E eu calado, sem saber o que se passava, com medo deles. Achavam que era brabeza minha.”

“Meu Deus! Que sorte, ¿hem? ¿E quando perceberam o engano?”

“Ah, nem me lembro mais. Só sei que, quando descobriram, eu já tava fabricando bancos, mesas, estantes, prateleiras pra todo mundo. Achavam que eu era um Bíblia, ¿entende? Um crente. Todos me tratavam bem e me pagavam pra fazer coisas pra cela deles. A marcenaria é meu colete salva-vidas… Mas lá era um lugar cheio de caras estranhos. Por exemplo. Tinha um, o Divino Caveirinha, que cismou que ia pular o muro da penitenciária usando esses balões de festa com hélio. Vivia tentando contrabandear cilindros de hélio lá pra dentro, coitado. Como se alguém fosse fazer esse jumbo pra ele.”

“Jumbo?”

“É. Jumbo é uma encomenda que o presidiário faz. Ih, é tanta palavra diferente que a gente usa.”

“Por exemplo?”

“Lá na prisão, taba era maconha. Pino ou pedra era o crack… Hum… Tranca-dura era o xadrez. Ganso era o alcagüete, o dedo-duro… Ah, é coisa demais.”

“¿E como foi que você fugiu da prisão? Nunca pensei que pudesse ser fácil assim.”

“Ah, não foi não. E eu não pretendia fugir. E também nem foi de lá que fugi.”

“Ué, ¿como assim?”

“Eu e meu advogado conseguimos provar que eu era usuário, e não um traficante. Levou quase um ano pra conseguir isso. Eu mesmo já havia me internado em duas clínicas de reabilitação antes de ser preso: uma espírita e outra evangélica. Isso ajudou a convencer o juiz.”

“¿Clínica espírita? ¿Evangélica? Nossa.”

“Foi por causa da minha mulher. Ela tinha ameaçado se separar caso eu não parasse com a maconha. Aí eu me internei nessas clínicas.”

“¿Em Goiânia?”

“A evangélica era em Anápolis, lá perto, mas primeiro fiquei na espírita, em Goiânia. Era muito legal lá, um lugar bonito, calmo, com um jardim bem grande, muitas árvores. Era uma chácara, na verdade. Lá eu também ficava trabalhando com madeira, conversando com as pessoas, pensando na vida. Os psicólogos de lá eram gente muito boa. É claro que tinha muito nego maluco, sabe, né, usuários. E a verdade é que, depois de passar pelas três clínicas de reabilitação, percebi que elas são os lugares onde mais facilmente a gente encontra drogas.”

Eu ri: “Sério?!”

“Claro, aquele bando de nego na fissura, em abstinência, doido pra cair na tentação. Aí sempre tem um interno mais perverso que aproveita, né. O trem é feio mesmo, Yuri.”

“Puts. E o pessoal da clínica sabendo de tudo, fazendo vista grossa.”

“Não, não, são gente honesta, disposta a ajudar mesmo. Quer dizer, com exceção da clínica alopática, né, pra onde eu fui depois de preso. Lá, nem precisa ter traficante: eles mesmos se encarregam de deixar você dopado o dia inteiro. Acho que é pra você não ter condição de pensar em usar as outras drogas, as ilegais. E se reclamar, leva um sossega leão.”

“¿Sossega leão?”

“É, a gente chamava assim. É uma injeção de Amplictil misturada com mais alguma coisa. Você fica lesado o dia todo. Isso se você conseguir ficar acordado, claro.”

“Credo. Então as clínicas religiosas eram melhores.”

“A espírita era. A evangélica ainda não sei dizer.”

“¿Como assim?”

“Ah, na espírita era uma vida super tranqüila, ¿sabe? E era mista, mulheres e homens juntos. Não na hora de dormir, né. Mas era mais fácil de levar. E não era só pra drogadictos, tinha muita gente lá tratando de depressão, esquizofrenia, essas coisas. Muitas visitas. A única coisa agitada lá era o Vasco, que de vez em quando saía correndo aos berros, ‘O cigano! o cigano!’, e ia se esconder em algum lugar. O cara era bisonho. Ele tinha assassinado um cigano e estava sempre vendo o espírito dele em algum lugar…”, e sorriu, sem tirar o olho da trena. “Mas a clínica evangélica era beeem diferente, disciplina militar. Castigos militares também. Uma gente rígida. Casa de Recuperação Príncipe da Paz. Só homem lá dentro — se bem que a presidente era uma mulher, dona Ângela. Por um lado foi bom, não tinha remédio nenhum e nunca li tanto, principalmente a Bíblia. Quem decorasse alguns trechos ganhava repeteco na comida. ¿Conhece o ‘telefone de Deus’?”

Eu, sorrindo: “Não”.

“Jeremias trinta e três-três: ‘Chama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes’”, e Antônio retribuiu o sorriso. “Aprendi a falar direito, ¿entende?, a me fazer respeitar. Você não precisa de terno e gravata pra ser respeitado. Falar bem é muito mais eficaz. E ler a Bíblia ajuda muito nisso. Palavras difíceis, que impressionam. Nenhum jornal tem texto escrito do jeito que a Bíblia tem. Bonito mesmo. ¿Já leu?”

“Algumas coisas. Não tudo.”

“Vale a pena…”, disse, enquanto retirava restos do pé do banco ainda presos no assento. “Mas, rapaz, era tanta humilhação nessa clínica… Acordavam a gente pra cavar buraco no meio da noite. De madrugada, quando a gente levantava, só banho gelado. Se a gente fizesse algo errado, não almoçava. Se pegassem a gente batendo punheta, vixe, mais banho gelado e buraco pra cavar à noite, lavar a louça de todo mundo e por aí vai. Difícil, viu. Mas lá eu podia trabalhar com madeira. A gente também cultivava a horta e criava escargô.”

“¿Escargô?!”

“É, aquela lesma francesa.” E rimos. “Eu cheguei a me tornar obreiro, Yuri. Ajudei a celebrar vários cultos. Quando saí de lá, já estava a ponto de virar pastor.”

“¿E por que não virou pastor? ¿Não encontrou uma cabine telefônica?”

“Uma história estranha”, começou, ignorando a pilhéria. “Na igreja os caras queriam que eu tomasse anfetaminas, rebite, ¿sabe? ¿Aqueles pastores gritando lá na frente, no palco, as frases encavaladas umas nas outras, pulando aos berros? Tudo anfetamina, o mesmo remédio que caminhoneiro toma.”

“Tá brincando!!”

“Sério, Yuri, eles acham que não tão errados porque compraram droga legalizada na farmácia, porque é pro bem, acham que ajuda a ‘entrar no Espírito’. Um pastor até me disse que aquilo era muito melhor, porque na outra igreja de onde ele tinha vindo rolava um tráfico interno de cocaína só pros pastores. ¿Mas de quê ia me adiantar trocar a maconha por bola ou por cocaína? Muito pior.”

Fiquei em silêncio por um minuto observando-o cortar um pedaço de madeira que ele desembrulhara de um papel pardo. Iria agora preparar uma nova perna para o banco.

“Tá, Antônio, deixa ver se entendi: você se internou em duas clínicas de recuperação de drogados, foi preso, se transferiu para uma outra alopática. Ok. ¿E como você fugiu?”

“Ah, um dia lá, eu simplesmente fingi que estava tomando o Anatensol, que sempre davam pra gente — na verdade, escondi o comprimido debaixo da língua — e, à tarde, quando todos estavam bodados na cama, pulei o muro.” E indignado, me encarou: “Porra, eles estavam dando choques na gente! Cheguei a passar vários dias babando, uma coisa escrota, viu.”

“¿E como você conheceu o Bruno?”

“Foi na Praça da República, em São Paulo, pra onde fui depois de fugir. É uma história comprida, vou resumir pra você… Logo que cheguei na cidade, acabei morando um tempo na favela do viaduto Alcântara Machado. Não deu muito certo, fui me meter em encrenca por causa de mulher e acabei na rua. Você sabe, mulher é foda”, e deu um sorriso amarelo. “Aí eu ficava lá na praça da República, vendendo por um Real banquinhos feitos com caixotes de feira. Ia à feira, catava as sobras de madeira e ficava lá, trabalhando. Era perigoso dormir na rua — então fiz amizade com um negão de dois metros, que vendia bebida pros mendigos e vagabundos. Eu tinha feito umas divisórias de madeira pro carrinho de supermercado que ele tinha, ¿sabe?, pra colocar as garrafas de pinga, vodka, campari, evitando que tombassem quando ele empurrasse o carrinho por aí. E então a gente se protegia, os dois negão no centro de São Paulo, ele, o grandão e eu, o baixinho. Enquanto um dormia, o outro ficava vigiando, porque tem muita violência da polícia, dos playboys, dos carecas, dos outros mendigos. E todo mundo querendo dinheiro pra ficar doidão, que era a única distração que a gente tinha. Quando a gente conseguia bagulho, alguém tinha de ficar cuidando a loira pros outros fumarem em paz.”

“¿Cuidando da loira? ¿Que loira?”

“Cuidando a loira. Loira é a polícia. E alibã é o soldado da polícia.”

“Tá, saquei.”

“Às vezes a gente comprava Artani na farmácia, um remédio pra epilepsia que deixa a gente noiado e enxergando tudo cor de rosa… A rua é foda, Yuri. Muita traição, muita briga de faca. Naife, a gente dizia.”

“Cara, que loucura…”

“É, nunca imaginei que ia ficar numa situação dessas. Tudo acontece dum jeito muito esquisito: num dia, você vai parar num aperto que parece ser o fim da linha. E fica naquilo algum tempo, acreditando que é mesmo o fim da linha. De repente, do nada, tudo muda. Outro dia, eu tava na prisão, outro, na rua e hoje tô na casa da poeta Hilda Hilst, de quem eu nunca tinha ouvido falar e que o Bruno me explicou quem é.”

Eu ri, me identificando com o comentário.

Ele: “Então, te respondendo: um dia eu tô lá na Praça, fabricando e vendendo banquinhos, e aparece esse cara magro, grisalho, todo fino, de terno e gravata, e me pergunta se eu sabia fazer mesa, cadeiras. Eu disse que só precisava de material e de algumas ferramentas melhores. Ele perguntou onde eu morava e eu disse que na rua. Quis saber por quê e eu achei ele intrometido demais, disse pra ele que a vida tinha me largado ali. Aí ele sorriu, disse que era poeta, que tinha voltado pro Brasil fazia pouco tempo e que não sabia onde comprar móveis bons. ‘Poeta não tem dinheiro pra gastar’, falei pra ele. Ele disse que trabalhava na revista República, que poderia me pagar, sim, e perguntou se eu não queria ir olhar o apartamento, pra ver as medidas da sala. Perguntei o nome dele, pra saber se era alguém conhecido. ‘Bruno Tolentino’, respondeu. Bom, eu nunca tinha ouvido falar dele. Então disse pra ele que de poesia só conhecia bem a Cecília Meireles, que eu li muito com o pessoal do teatro lá do meu bairro em Goiânia. Ele arregalou os olhos: ‘Eu conheci pessoalmente a dona Cecília. ¿Você sabe declamar algum poema dela?’ Sei, e lembrei desse aqui: ‘E aqui estou, cantando./ Um poeta é sempre irmão do vento e da água:/ deixa seu ritmo por onde passa./ Venho de longe e vou para longe:/ mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho/ e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram./ Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, / mas houve sempre muitas nuvens./ E suicidaram-se os operários de Babel./ Pois aqui estou, cantando./ Se eu nem sei onde estou,/ como posso esperar que algum ouvido me escute?/ Ah! Se eu nem sei quem sou,/ como posso esperar que venha alguém gostar de mim?’ Eu declamei olhando pro chão, pra conseguir me lembrar do poema todo, que era o único que sabia. E também de vergonha. Quando olhei pra ele, vi que estava com os olhos marejados. Fiquei sem graça com aquilo, a gente perde a sensibilidade morando na rua. Mas percebi que era sincero mesmo, Yuri, que ele tinha alguma fraqueza grande — e algum tipo de grandeza também, ¿sabe? Ele era inocente. Porque só uma pessoa muito inocente inventa de levar um mendigo pra dentro de casa, né. Vi na hora que ele não era nenhum pervertido procurando um parceiro pras suas taradices ou coisa assim. Ficou um tempo calado, me olhando terminar o banquinho. Aí ele disse: ‘¿Você acredita em Deus, rapaz?’ Olha, falei pra ele, eu não confio em nada nem em ninguém: só em Deus. E o Bruno, depois de pensar um pouco: ‘Olha, tem um colchão sobrando no meu apartamento. Você pode dormir na sala. Quando terminar a mesa e as cadeiras, se quiser, pode ir embora.”

“Caramba.”

“Foi assim que conheci o poeta Bruno Tolentino, Yuri.” E percebi que Antônio, ao enxugar o suor do rosto, disfarçadamente secou uma lágrima. Ele finalmente compartilhava da emoção do poeta naquele dia — ou assim parecia. Ficou um breve minuto meio perdido com as ferramentas na mão, como se apenas fingisse trabalhar. “Depois que terminei a mesa e as cadeiras”, prosseguiu, com a emoção já sob controle, “ele me pediu pra fazer uma escrivaninha. E, claro, fui ficando. Um dia, ele chegou da revista com um bolo de dinheiro — uns dois mil reais, acho — colocou toda a grana na minha mão, disse que não se sentia bem, que precisava descansar, e me pediu pra depositar tudo na conta dele. Aí virou as costas e se trancou no quarto. Eu fiquei de cara: ¿como aquele sujeito podia ser tão crédulo, tão inocente?! ¿Por que ele confiava tanto em mim, Yuri? Ele tinha me encontrado na rua! ¿Só porque eu disse que acreditava em Deus? ¿E se fosse mentira? É claro que senti uma tentação enorme, fazia muito tempo que não botava a mão em tanto dinheiro. ¡Era o salário dele inteiro! Acho que ele estava me testando, mas nunca falamos sobre isso. Só sei que fui no banco rapidinho e depositei tudo, antes que me desse vontade de sumir, comprar alguma droga ou de tentar ajudar algum amigo que vivia na rua. A partir desse dia, comecei a trabalhar como secretário dele. Cuidava de tudo: do salário, das contas, dos remédios pra AIDS, da agenda…”

“E ele voltou a dar aulas aqui no Brasil, ¿né?”

“Voltou. E você precisava ver a cara de alguns alunos dele quando davam de cara comigo lá onde a gente morava.”

“¿Não iam com a sua cara?”

“Sei lá, eles ficavam super desconfiados de mim, né. Eu ainda me vestia com as roupas que usava na rua. Eles não entendiam quem era aquele mendigo preto que morava com o professor deles”, e riu.

“Bom, talvez rolasse uma inveja, né, Antônio. Muita gente, por exemplo, fica puta da vida quando descobre que estou morando com a Hilda Hilst.”

“Isso é verdade. Um cara que apareceu lá com o Bruno me perguntou uma vez: ‘¿Você é formado em Letras?’ E eu: não, sou formado na vida mesmo. Ele fez uma careta e passou a fingir que eu não estava mais lá. Conversou um tempão com o Bruno e, mesmo quando o Bruno pedia minha opinião sobre alguma coisa, o cara não me olhava enquanto eu respondia.”

“¿Você acha que era racismo?”

“Racismo nada, ele era negro também, mais preto do que eu!”, e sorriu. “Depois o Bruno me disse que esse fulano chegou a perguntar se ele não tava precisando de um secretário de verdade. E o Bruno: ‘¿Mais verdadeiro que o meu secretário? Impossível’.”

Ficamos em silêncio, pensativos, e Antônio retomou seu trabalho. O banco já estava quase pronto. Ele teria de emassá-lo, lixá-lo e envernizá-lo mais tarde. A cor da nova perna ainda destoava da madeira restante. Antônio procurava algo na caixa de ferramentas.

Bruno Tolentino… Naquela ocasião, eu ainda não o conhecia muito bem, mas chegaria a conhecê-lo melhor nos nove meses seguintes, tempo que ele moraria ali conosco: uma figura simplesmente extraordinária, com uma trajetória de vida de arrepiar os cabelos. Claro, sua “biografia oficial” pode ser lida na Wikipédia ou em qualquer site literário: oriundo duma família carioca influente, alfabetizado em português, inglês e francês, Bruno se mandou do país em 1964, após o Golpe Militar. Foi secretário de Ungaretti, conhecido poeta italiano, lançou livros de poesia em francês e inglês, foi professor de literatura em Essex, Oxford e Bristol. Acusado de tráfico de drogas, foi preso e passou pouco mais de um ano na tal, segundo o próprio Bruno, “Ilha do Diabo inglesa”. Provada sua inocência (no caso em questão), foi solto. Voltou ao Brasil, polemizou com os irmãos Campos, publicou sua obra maestra, “O Mundo como Idéia” (que ele concluiu no quarto ao lado do meu, na Casa do Sol) e faleceu em 2007, em decorrência de AIDS, adquirida na cadeia. Eis um resumo da sua “biografia oficial”. Mas aqueles meses de convívio comum fizeram com que Bruno me apresentasse mais detalhes da sua vida. Eu o conheci no dia 24 de Outubro de 1998, na Casa do Sol. Lembro-me bem porque ele apareceu justamente no dia em que eu recebia alguns amigos para comemorar meu aniversário. Na ocasião, Antônio não o acompanhava. Certamente havia permanecido no apartamento que compartilhavam em São Paulo, cuidando dos assuntos do Bruno ou fabricando móveis. Tal como Antônio, até então, eu tampouco sabia quem era Bruno Tolentino. Havia lido alguns de seus artigos na revista Bravo, mas não ligara o nome à pessoa. Bruno participou da minha reunião de aniversário por cortesia, depois se isolou por algum tempo com a Hilda no escritório dela. Foi o momento, conforme ela me contou mais tarde, em que ele solicitou sua ajuda, já que estava sem emprego, sem dinheiro e precisando entregar o apartamento. Havia também alguma encrenca pessoal envolvendo a dona da editora para a qual ele trabalhara, mas isso não vem ao caso. O fato é que ali acertaram sua vinda à Casa do Sol, onde, juntamente com seu secretário, permaneceria alguns meses. Depois da visita, ele partiu de carona com meu amigo Rodrigo Fiume, à época, jornalista do jornal O Estado de São Paulo e, hoje, da Folha. Isso, claro, após ter sido fotografado comigo e com a Hilda Hilst — eu, no meu aniversário, entre dois dos maiores poetas deste país — foto que nunca vi, já que o Dante, o fotógrafo, um cara totalmente avesso a essas frescuras de literatos, sumiu com o filme. Sim, um detalhe fútil…

Assim, no início de 1999, Bruno e Antônio chegaram de mala e cuia e geladeira, fogão, livros, roupas, mesas e um computador 386 com vírus Melissa. Ocuparam um quarto com janela que — para suplício do Bruno — dava para o canil e seus oitenta cães. E na rotina dos dias, no marasmo ou na agitação das horas, Bruno Tolentino foi desfiando suas histórias para mim e para Hilda Hilst, algumas tão loucas que teria pudores de narrá-las por escrito sem antes checar sua veracidade. Claro, ele também viajava com freqüência, já que vinha organizando grupos de estudo independentes, em diversas cidades e estados, voltados a quem estivesse interessado em seus conhecimentos literários, tão assombrosos, vale lembrar, que a própria Hilda vivia me dizendo à parte: “Yuri, !meu Deus!  Esse homem devia ter aparecido aqui antes, quando eu ainda estava começando e me interessava mais profundamente por literatura. Nossa, ele sabe coisa demais, leu todo mundo — ¡até os chatos! — e ensina o tempo todo… ¡Credo! Que pena eu não ter mais nada a ver com isso…” E então ela sorria, cansada. Sim, outra condição enfrentada por ele: depois de lecionar em Oxford e de assombrar a própria Hilda com a extensão de seus estudos, Bruno não podia lecionar nas universidades brasileiras, já que não era formado em nada. Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, que após aceitar um convite de Darcy Ribeiro para lecionar na Universidade de Brasília fora impedido por não ter um diploma, Bruno era um mestre com a boca tapada por razões puramente burocráticas. No Brasil é assim: mais vale um papel registrado em cartório do que a evidência do mérito pessoal; mais vale um imbecil diplomado que um gênio autodidata.

Enquanto Antônio preparava os últimos retoques ao banco do pátio, fui ter com a Hilda, que certamente estaria ansiosa para saber o que eu havia descoberto sobre nosso hóspede. Pedi licença ao secretário-marceneiro, que apenas me dirigiu um sorriso tranqüilo de alívio, e entrei na casa. Na sala de jantar, antes de adentrar o escritório, retirei o CD que o compositor José Antônio de Almeida Prado havia trazido em sua última visita, e que havia acabado de tocar, e o troquei pelo Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler. Além de ser uma das músicas prediletas da Hilda, serviria para acalmá-la de antemão. Entrei. Ela estava com os óculos na ponta do nariz, o cigarro na mão direita, concentrada em sua milésima releitura da biografia de James Joyce. Quando me viu, abandonou o livro e sorriu: “¿E então? ¿Falou com ele?”

“Falei, Hilda.”

“Então pegue o Porto e sirva duas taças pra gente. Tá quase na hora do almoço. Você me conta enquanto a gente bebe.”

Fui até a sala contígua de onde trouxe a garrafa de vinho. Servi as duas pequenas taças e me sentei diante de sua mesa. O silêncio, o Sol brilhante, a casa rústica, as árvores lá fora… eu adorava aquele clima de convento laico.

“Eu amo essa música”, disse ela, dando o primeiro gole. “É a mesma daquele filme do Visconti, ¿lembra?”

“Lembro. Morte em Veneza. Adaptação do Thomas Mann.”

“Esse mesmo”, e tornou a sorrir. Então apagou o cigarro e me encarou, curiosa. O Sol, entrado pela janela de trás de sua cadeira, dourava-lhe os cabelos. “Diga logo, ¿quem é esse Antônio, Yuri? ¿Devo ficar com medo dele?” E riu.

“Acho que não, Hilda. Ele me parece uma boa pessoa.”

“¿É mesmo? ¿E quem é ele afinal? ¿Onde o Bruno o encontrou?”

“Ah, Hilda, o Bruno o encontrou morando na rua. Ele é apenas um fugitivo da polícia…”, e sorri, encarando-a com ironia.

Ela arregalou os olhos, num misto de excitação e temor: “Meu Deus, Yuri! Meu Deus!! Que incrível!! Vá, coloque mais vinho pra você e me conte tudo… Conte tudo…”

Rimos. Tornei a encher minha taça. E lhe contei tudo.

_____

Este texto é parte do livro “O Exorcista na Casa do Sol — e Outros Escritos da Virada do Milênio”, a ser lançado em breve. Para mais informações, veja aqui.

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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