Megalômano não: Mestre de um Universo

23/09/2003
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Havona

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Há um ano, estive no Guarujá, onde visitei um amigo de infância que, de uns anos para cá, foi diagnosticado como psicótico e esquizofrênico. Claro, alguns de seus supostos sintomas de esquizofrenia — tais como a audição de vozes e certas visões de fundo místico — poderiam ser encarados como lampejos de mediunidade, os quais se mostram confusos principalmente devido à incompatibilidade de tais experiências com sua “visão de mundo”, uma vez que, na prática, sua forma de encarar a realidade rejeita uma transcendência maior, estando mais para um tipo de animismo. Mas obviamente afirmar tal coisa costuma irritar os psicólogos ortodoxos…

Bom, o caso é que Marcelo, vamos chamá-lo assim, há cerca de três anos tentou o suicídio, tendo até recentemente, no pescoço, as marcas da improvisada forca. Aliás, afirma não lembrar-se de haver cometido o ato, chegando a colocar a culpa em espíritos obsessores e, o que é mais dramático, em um dos membros da sua própria família, o qual, agindo assim, teria tentado lhe pregar uma peça que o advertisse dos perigos do uso prolongado de maconha. Sua psicose, pois, costumava manifestar-se através de idéias fixas, muita agressividade e comportamento paranóico, seguindo a tudo isso largas fases de depressão. (Ou seja, como qualquer um de nós, só que elevado ao cubo…) Enfim, ano passado, Marcelo convidou a mim e a um casal de amigos (D. e J.) para passar com ele alguns dias, convite esse carregado de emoção, assim como quem emite, do fundo de sua solidão, gritos de socorro.

Eu costumava provocar uma ex-namorada, psicóloga, dizendo que psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e diversos tipos de terapeutas não passam de padres e freiras sem Deus, o que evidentemente seria uma grande desvantagem. Mas o caso é que um padre ou uma freira, sem psicologia, rapidamente teria mandado esse meu amigo ao diabo. Ô coisa complicada é lidar com alguém que, tendo permanecido anos fechado em si mesmo, resolve, sem parar para respirar um minuto sequer, despejar em nossos ouvidos tudo o que vinha mocozeando em sua extenuada mente. Para ser mais exato, nem era esse o problema. O pior mesmo era sua mania de fazer mil e uma perguntas, exigir opiniões e explicações, e não dar a mais mínima atenção a nenhuma de nossas tentativas de atendê-lo, uma vez que, mal indagava algo, já passava para outro assunto, deixando-nos com uma palavra dependurada entre os dentes. E para completar: se ficássemos em silêncio, se inquietava! Sei que o psicanalista costuma ouvir, costuma deixar o paciente elaborar à vontade, para que este, com um mínimo de observações, encontre por si só a saída de seu labirinto interior. Mas Marcelo não conseguia elaborar um todo com sentido, parecia apenas querer nos transmitir um vírus mental, atordoar-nos. No fundo no fundo, necessitava principalmente de atenção, que é afeto, da atenção de pessoas que não o vissem, tal qual sua família, como um louco incurável. E eu, diplomata que sou, além de amigo de infância, fiz o possível para lhe conceder toda a atenção exigida. Chegou a nos confessar: “É a primeira vez em muitos anos que conversam comigo como se eu fosse gente…” Mas, meu Pai!, ninguém é de ferro, e eu, há muito deixara de ser zen-budista. Em certo momento, aquele monólogo ultrapassou a pesquisa de personagem — vampirismo inevitável num escritor — ferindo profundamente minha auto-imagem de razoável psicanalista amador. Era impossível deixar de lembrar do conselho de Herman Hesse n’O Lobo da Estepe: “Só o humor salva”. E salvou a mim, é claro, não a ele, pois diversas vezes respondi absurdos e surrealismos a suas perguntas — a testar sua atenção — e ele nem reparou! O D., em coro comigo, fazia o mesmo.

“Você acha que o Sistema é manipulado por alguém que quer tirar a liberdade de todo mundo? Ou será que ele é uma coisa com vida própria?”

“Depende. Sistema Linux ou Windows? O Linux, por exemplo, é manipulado por um pingüim do mal…” e, sem nos ouvir, continuava falando de uma conspiração universal contra ele.

E, no entanto, era difícil não me ver espelhado em seus questionamentos existenciais, em suas paranóias, já que eu, tão escorpiano quanto ele ou Raskolnikov, via ali meu alter ego super amplificado, como diria o Arnaldo Baptista, por um amplificador à válvula. Eu tinha certeza de que, se eu já não tivesse aceitado Deus, estaria muito mais desequilibrado do que ele. Sim, pois eu também tive meus problemas com drogas e também sei como é possuir uma serpente venenosa introjetada no próprio cérebro, mordendo, em giros mil, a própria cauda. A tautologia, o eterno retorno de conclusões e princípios, o pensamento ruminante é uma coisa dolorosa. (Vide, por exemplo, o primeiro conto do L.S.D.eus.) A pergunta “por que”, para quem vai fundo, para quem não tem preguiça mental, não tem fim, e, por isso, urge aceitar uma finalidade maior. Não adianta acrescentar idéias a uma cabeça já tão cheia delas e, ao mesmo tempo, tão vazia de um sentido que lhes dê unidade.

Sentados na Praia do Tombo, aquele sol maravilhoso, várias gatas, Marcelo prosseguia alugando nossos ouvidos. Eu dava umas fugidas, entrava no mar. Na volta, lhe dizia: “Marcelo, descansa, cara, o que você quer descobrir não se encontra com punheta mental, pensar é infinito”. Dois segundos depois ele recomeçava outra ladainha, uma mais sacal, sua certeza de que era um músico fabuloso, de que era genial, de que um dia faria muito sucesso, de que só necessitava encontrar a banda certa, de que ainda teria muito dinheiro, de que chegara a ter idéias que nenhum outro ser humano compreenderia e assim por diante. E, em seguida, as reclamações: sua incapacidade de conseguir um trabalho, a sinistra doença de pele na palma das mãos, que o impedia de tocar bateria, a falta de coragem para voltar a surfar, sua crença de que agora era um cara feio, gordo, de que as mulheres já não se interessavam por ele, enfim, um monte de disparates emitidos por um cara que minha irmã já achou parecido com o Keanu Reaves. E aí ele voltava a descrever como ouvia o pensamento das pessoas, sempre criticando-o, as vozes que vinham do nada, risadas sarcásticas na solidão de seu quarto, o anúncio, numa transmissão da MTV, de que ele — que nem sequer tem banda — havia ganhado um prêmio, etc., etc. Uma noite, acordara e vira diversos meninos de rua deitados ao redor da sua cama. Sem sentir medo, e percebendo que estavam com frio, chamou-os para se deitarem com ele, o que ocorreu. Noutra ocasião, sentiu que flutuava para fora do quarto e, no escuro, viu surgir um ser iluminado: era Jesus! E este, de quem ele duvida, lhe disse simplesmente que relaxasse, pois não tinha nenhuma missão especial a cumprir.

Esse é um amigo por quem tenho a maior afeição — crescemos juntos — e que espero ver cada vez melhor. (Está se esforçando.) Mas não acredito que a mera psicologia ou psiquiatria dê jeito nisso. É preciso ampliar e clarear a visão de mundo. Não se pode simplesmente rejeitar tantos fenômenos psíquicos como meros delírios e alucinações. Existem gradações. Na casa dele, entre o mar e a montanha, num outro dia, ele começou a se exaltar, falando quase aos berros, deixando inclusive J., a namorada do D., bem assustada. (E, para piorar, Marcelo ainda havia fumado um beque.) Ele começou a falar que era muito louco mesmo, fodão, macho pra caralho, capaz até mesmo de me matar. Provocador, os olhos arregalados, perguntou se eu acreditava nele, o que eu faria se ele me matasse. Eu, fleumático, inglês que só, respondi: “Claro que eu acredito, bróder, confio no seu potencial. E se você me matasse eu morreria, uê! Que mais poderia acontecer?” Ele riu, desarmado. (O humor também salva, viu.) Mas lá veio de novo o papo de ser famoso, acrescido de mil outras paranóias. Eu, que já estava com o saco desse tamanho, e vendo que ele não nos ouvia de jeito nenhum, comecei um teatro. (D. e J. dizem que às vezes sou muito dramático, teatral.) Na verdade, eu percebera que os vizinhos — estávamos na sacada da casa da mãe dele — se impressionaram com a ameaça de assassinato, e cochichavam olhando em nossa direção. Quis então fazer uma piada, sugerindo que meu amigo não era um doido perigoso. Aos pulos, como recurso extremo, fui pra cima dele e, enquanto ele falava disparado, agressivo, pus uma mão em sua testa e, meio cômico, meio sério, comecei, enérgico: “Sai, cambada de vampiro! Sai, capetada! Deixa o Marcelo em paz! Sangue de Jesus tem poder!! Vocês não podem com Ele!” e tal. J. e D caíram na gargalhada, acabando com o clima tenso. Marcelo me encarou, puto: “Você tá tirando uma com a minha cara, é?” E eu: “Não, seu idiota, eu estou falando de Deus pra você”. Ele, meio sem jeito, se sentou, ficou matutando. Depois, virou-se para mim: “Você, Yuri, inteligente como é, acredita mesmo em Deus?” “Claro que acredito, meu, por que você acha que sua ameaça não me afetou nem um pouquinho? Você não tá dizendo que tá maluco? Então, maluco pode matar mesmo, não é? Mas e daí? Quando for minha hora, será minha hora, estou nas mãos Dele.” Ele então me disse que, para se acreditar em Deus, é preciso muita humildade, que ele não era como eu, tranqüilo, equilibrado (mal sabe ele), que na verdade tinha um sonho enorme, ser famoso como músico no mundo inteiro, tipo Beatles. Me disse: “Aposto que você não tem um objetivo tão grande, não existe escritor mais famoso que os Beatles… Qual é o seu sonho?” Respondi: “Ah, um dia eu só quero ser o Mestre de um Universo…” Ele ficou de cara, espantadíssimo, os olhos esbugalhados: “Como é que é?!” Repeti: “Vai ser divertido ser, um dia, o Mestre de um Universo”. Pela primeira vez naquele dia, ele deu uma gargalhada solta: “Ó o cara, mil vezes mais pirado que eu! Você é um Hitler por acaso? O Anticristo?” “Epa”, tornei, “pera lá, não vai confundir as coisas. Hitler queria conquistar o mundo. Eu não quero conquistar ou mudar nenhum mundo, nenhum Universo, esse aqui já é do Lord ‘Djísus’, e eu respeito profundamente nosso Pai-Irmão. Também não vou me meter com os outros cerca de setecentos mil Filhos Criadores, irmãos diretos de Jesus, cada qual com seu Universo. Mas a vida humana é um loooongo caminhar em direção ao Pai Celestial e, segundo especulam lá no Universo Central, num dia universal futuro, os Finalistas — ou seja, os humanos planetários que, além de fundir seu ego na centelha divina, ainda encontraram a personalidade do Pai — os finalistas poderão se dirigir aos confins do espaço exterior, onde iniciarão a criação e administração espiritual de seus próprios Universos.”

“Caralho, que megalomania! Meu, de onde você tirou isso?”

“Megalomania não porque eu tô cansado de saber que só o ego pode ser megalômano. E essas coisas que estou te contando só podem ocorrer com o ego que se rendeu, que não quer existir mais por si só, que só quer servir ao Pai e a seus semelhantes. Quando a personalidade, o ego, se exalta, cai. É verdade, há esse risco e a gente o está correndo. Mas participar da Criação é como trabalhar na empresa de um pai exigente, um pai que espera que o filho seja antes o faxineiro, o segurança, o cozinheiro, o auxiliar de escritório, o chefe de seção, etc., etc., antes de chegar a ser digno o suficiente para tornar-se o diretor-presidente da empresa que herdará. Isto porque liderar é servir. Se você lesse algum depoimento de alguém próximo a Hitler, veria que ele só queria ser servido. A Criação é um sistema de sistemas, todos interligados, e cada qual é como uma rede de computadores: o elemento dominante é o ‘servidor’ e, exatamente por prestar o serviço de unificar os demais, tem consciência e compreensão plena do que se passa com cada um. Para isso, não condena o conteúdo de nenhum dos elementos, senão que segue um conjunto de regras, um protocolo estabelecido pelo Programador, que é o que permite a conexão e existência de todos. Esse protocolo, essa Lei se chama Amor.”

Marcelo estava boquiaberto e, graças a Deus, finalmente ouviu alguma coisa. Continuei: “Não é que quem não siga esse protocolo seja condenado a ficar de fora. Não há punição. Na verdade, há liberdade: se você quiser ficar de fora que fique.”

“De onde você tirou esse papo brabo, meu?”

“Não tenho culpa se você, por estar com medo de uma conspiração de sei lá qual ‘sistema’, se desligou do Sistema Principal. De onde tirei essa história? Conecte-se e se informe.”

Pois é, depois que ele encontrou um cara mais louco do que ele, ficou mais manso. Se eu soubesse disso, teria agido como tal bem antes. O restante do final de semana foi bem calmo, divertido, normal até. Isso até me fez pensar que, quando um psicólogo tem uma visão de mundo limitada demais frente aos delírios de um paciente, torna-se impotente. Ele poderia até orientar alguém que viesse a se perder em sua cidade. Mas como irá tratar de alguém que fala do que viu do outro lado do país, de uma região da qual ele, psicólogo, nunca ouviu nem quer ouvir falar? Loucura por loucura, sou mais a minha.

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  • Luiz André

    Antes de mais nada, só quero expor meu agradecimento por ter lido este texto e perceber que para a Psicologia ainda há um longo caminho de maturação no tocante a proporcionar a melhor forma de tratamento e reabilitação do indivíduo humano. Identifiquei-me com seu texto a partir do ponto em que você coloca que, diante de uma mente que pensa a milhas de distância, certos psicólogos – e convenhamos, demais profissionais de saúde mental – tenham a tendência de se resguardar em uma simplória e tênue divisão entre nós (os sãos) e eles (oa loucos). Confesso que a primeira vez em que fui testemunha desta falsa ideologia, fiquei indignado, enraivecido e envergonhado destas pessoas, quanto mais das pessoas que eles atendem. Contudo, tive de por a mão na cabeça e perceber que nem todos chegam a tal iluminação de maneira fácil ou pronta; muitos deles vêm de uma criação um tanto quanto maniqueísta, o que, de certo modo, não está errado, porém, diante de uma situação em que os conceitos de bem e mal caem por terra, sobrando apenas o sujeito e sua (psico)patologia, é necessário utilizar-se de outras ferramentas para manejar a condição que lhe for apresentada. Por outro lado – e aqui devo dizer que sou um neófito neste site – vejo que Deus e suicídio são constantes em seus textos. Sua ideia de um Poder Superior passa longe de uma proselitismo e adoraria ter esta percepção, embora minha realidade se restrinja ao que é verossímil ou que permeia os recantos da fantasia (mantendo pelo menos um dos pés no chão).

  • A propósito: no relato acima atenuo de forma exagerada os fatores hereditários, biofísicos e fisiológicos. Mea culpa. :^/

  • Regina Helena

    é querido amigo, pelo jeito estamos conectados no mesmo Sistema.

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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