O machista feminista

28/08/2015
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Tempos atrás participei de um encontro literário na Casa Mário de Andrade, em São Paulo, onde, ao longo de uma semana, debati com outros autores as perspectivas da literatura brasileira neste novo milênio. Foi lá que, entre outros, conheci pessoalmente Elisa Andrade Buzzo, Luis Eduardo Matta, Miguel Sanches Neto, André de Leones, Fabrício Carpinejar e Antonio Prata, com quem, na última noite, dividi uma carona oferecida pela esposa de Julio Daio Borges, organizador do evento. Embora o encontro tenha sido muito interessante — principalmente porque pela primeira vez eu participava de algo do gênero enquanto escritor convidado, e não como leitor —, este relato nada tem a ver com o evento em si, com os demais colegas ali presentes ou sequer com literatura — ao menos não diretamente. O fato é que, justamente no dia em que Daniela Rede, minha bela e auto-proclamada assessora de imprensa, não pôde comparecer, fui abordado ao final do debate daquela noite por um sujeito de ar simultaneamente astuto e simpático.

— Li seu livro — revelou ele, após apertar-me a mão e me cumprimentar pelas intervenções daquela noite.

— ¿Foste tu? — repliquei, sorrindo.

Ele riu: — Escritores brasileiros estão sempre achando que não são lidos.

— Deve ser por causa do xerox das faculdades e dos ebooks piratas — retruquei. — O que o bolso não vê, o coração não sente.

Alto, metido num elegante paletó escuro feito sob medida, em lustrosos sapatos Oxford, exibindo um reluzente Cartier dourado no pulso, óculos de Clark Kent, o cachecol posto à la “forca”, tal como agora se usa — em vez de à la “estrangulamento”, se é que me entendem —, esse cara bem vestido parecia um desses freqüentadores de vernissages que vemos em filmes alemães ou franceses. Com isso, quero dizer que se tratava de alguém que, a despeito de sua aparência de intelectual, também tinha um quê de empresário de sucesso, e nitidamente atraía a atenção feminina circundante. No fundo, ele parecia alguém montado para a ocasião — ou seja, se aquela fosse uma reunião de navegadores, ele teria aparecido em trajes de marinheiro de revista de moda.

— Também acompanho seu blog — tornou ele.

— ¿Você? Pensei que apenas um punhado de universitários lia meu blog.

— Bom, fiquei sabendo desses debates por causa dele.

O sujeito, que se apresentou como Nathan, após tratar por alto de alguns temas sobre os quais eu havia escrito naquela semana, talvez para me provar que realmente era meu leitor, ofereceu-me uma carona até a Vila Madalena, onde residia o amigo com quem eu estava hospedado, e também me perguntou se eu não queria aproveitar os bares da região para beber alguma coisa. ¿Carona e drinques ofertados por alguém que comprou meu livro? Claro que aceitei.

— ¿Sua mulher não veio com você hoje? — perguntou quando nos dirigimos à porta da frente.

— Não, não veio. E ela, infelizmente, não é minha mulher.

— Uma linda garota. Eu a vi aqui ontem à noite.

Saímos da Casa. Ele tinha um desses Jeeps Cherokee blindados, uma mania entre os endinheirados paranóicos de São Paulo, pois, apesar de pesados e de beberem feito loucos, em nosso restrito mercado eram os mais indicados para sobreviver à guerrilha urbana de todos os dias. Lá dentro, no banco de trás, muitos livros empilhados.

— Você por acaso não é um editor… ¿ou é?

— Não, não. — E vendo meu desapontamento involuntário: — Não precisa fazer essa cara. Você logo logo terá um bom editor. Basta esquecer um pouco os contos e escrever um romance.

— Ou arranjar um agente literário — acrescentei.

— Um agente, não! Uma agente — e Nathan sorriu.

Quando ainda percorríamos a avenida Pacaembu, ele começou a entrar no assunto que realmente lhe interessava:
— ¿Yuri, você já trabalhou como ghost-writer?

— Não e, sinceramente, nunca tive interesse. Gosto de assumir o que escrevo. Prefiro publicar algo ruim com meu nome do que publicar uma obra prima anonimamente. Coisas do ego.

— Entendo. Mas você não se importaria de aconselhar quem nunca escreveu um livro, ¿não é?

— Claro que não. Mas já o aviso que não tenho essa experiência toda. No primeiro dia do Encontro, eu até me senti bastante inseguro a certa altura da minha palestra: quando me perguntaram qual era o meu “método” de trabalho, percebi que nunca havia pensado nisso. Fiquei um tempo mudo, gaguejei e então respondi que fazia tudo de forma completamente espontânea. Só no dia seguinte, ao relembrar o processo de escrita desse primeiro livro, de como planejara e executara cada conto, é que percebi que tenho, sim, um método.

Ele estava pensativo, concentrado na direção. Havia um forte nevoeiro sobre a cidade. Momentos depois, tornou a falar e o assunto voltou-se para o trânsito, que não estava causando problemas àquela hora da noite, mas que infernizava o dia a dia paulistano. “A coisa mais inteligente a se fazer é morar perto do trabalho”, repetia ele. E assim, quinze ou vinte minutos depois de sair da Casa Mário de Andrade, chegamos à Vila Madalena. Pensei que iríamos a um pub — Nathan tinha cara de freqüentador de pubs — mas ele escolheu um boteco bastante comum da rua Aspicuelta cujo nome não estava visível em parte alguma. Escolhemos uma mesa à calçada e nos sentamos. Além de nós, havia apenas uma mesa próxima com outros três sujeitos engravatados e, numa outra mais ao fundo, dentro do bar, umas três jovens acompanhando um casal. Ele sugeriu que, de início, pedíssemos cachaça — enquanto eu ainda supunha o pub, imaginara-nos a bebericar uísques — e eu aceitei.

— Pois é… — começou ele, após virar o primeiro copinho. — Na verdade, não estou planejando uma ficção. Eu quero é escrever um ensaio.

— Então é ainda mais fácil — respondi. — Escolha um assunto do qual não consiga se livrar, estude-o bem e fale sinceramente sobre ele.

— Sim, eu já imaginei que seria assim. E por isso trouxe comigo todos aqueles livros que estavam no meu escritório. Vou viajar amanhã e quero continuar estudando.

— ¿E o que quer saber de mim?

Ele sorriu, um tanto embaraçado: — Para ser bem sincero com você, meu caro, apesar de gostar da maneira como escreve, do seu humor, do seu estilo, eu dificilmente concordo com pontos importantes do seu pensamento. Eu queria justamente conhecê-lo para expor minhas idéias e descobrir qual seria a melhor forma de abordá-las. Você sabe: pretendo ser convincente! Quero saber se há ou não algum furo nos meus argumentos. Para tanto, nada melhor do que uma pessoa que, além de inteligente, tenha também uma visão de mundo completamente oposta à minha. Ninguém tem olhos na nuca, ¿não é verdade?

Em vez de fazer uma piada com semelhante observação — pensei em lhe perguntar que tipo de furo os olhos da nuca poderiam ver, mas não o fiz — segui adiante: — ¿E em quais pontos pensamos diferentemente?

— Em vários, mas esses pontos podem ser resumidos num só: enquanto você possui uma âncora moral, eu não tenho nenhuma. Na verdade, eu já fui um amoral, mas, hoje, não tenho dúvidas de que sou um imoral.

— Entendo. Para ser honesto, também já fui um amoral. Mas um imoral… bem, talvez tenha sido num momento ou noutro… Mas não mais. Odeio aquelas dores de consciência.

— Sim, sim. Li várias coisas em que você deixa isso bastante claro. Por isso sei que poderá me entender sem preconceitos.

— Certo. ¿Mas seu livro vai tratar de quê? ¿De ética?

— Não exatamente. É o seguinte: quero provar o quão vantajoso o feminismo é para machistas como eu.

…….

ATENÇÃO: Devido a contrato assinado com a Editora Record, você leu apenas o trecho inicial deste conto, que poderá ser lido integralmente no livro “A sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande“. Obrigado! (07/05/2017)  

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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