Vinho com Lygia Fagundes Telles

Lygia FagundesEm fevereiro de 2003, finalmente me encontrei pessoalmente com a excelente Lygia Fagundes Telles. Mantínhamos contato desde 1998, já que, naquele ano, eu me mudara para a casa da escritora Hilda Hilst, sua amiga das antigas. Sempre que Lygia fazia uma de suas esporádicas visitas à Casa do Sol, eu estava viajando a trabalho ou então metido em alguma balada de São Paulo, de Brasília ou do litoral norte. Malgrado eu ter morado ali por mais de dois anos, nunca nos víamos. Era uma situação estranha, à la Nunca te vi, sempre te amei , entende? Bom, ao menos da minha parte, pois creio que ela mesma só pensava em mim como um amigo imaginário da Hilda… um que tinha voz ao telefone… (Coisa mais esquisita!) Quer dizer, o mais provável é que só atentasse na minha existência durante essas conversas, pois ela, decerto, tinha coisas infinitamente melhores para fazer, como, por exemplo, escrever livros, ler, dar palestras ou comer uns bolinhos na Academia Brasileira de Letras. “Yuri? Quem é o Yuri mesmo?”, devia pensar.

— Ser escritor neste país é um cu mesmo! — palavras não dela, mas da Hilda, ou minhas, sei lá, palavras talvez de alguns milhares de escritores brasileiros, iniciantes ou consagrados, jovens ou idosos. Sim, em meio a tão escassos leitores, não basta escrever, é preciso sobreviver, é preciso ser microempresário, professor, acadêmico, agüentar alunos politizados, colegas politiqueiros (argh!), ou então ser funcionário público, burocrata. (Será que Henry Miller foi mesmo coveiro?) Claro, fora isso só nos restaria ser um Paulo Coelho ou um roteirista da Globo, escrevendo umas coisas que… que ao menos dão lucro. Enfim, nada mais irônico — ou assustador — do que passar uma tarde com uma escritora de renome, em seu apê dos Jardins, ouvindo de sua boca os mesmos lamentos financeiros, editoriais e disciplinares que eu próprio havia feito, naquela manhã, à minha então namorada.

“Hei de ser o mesmo insatisfeito de sempre?”, indagava a meus zíperes, enquanto ia virando taças e mais taças de um saboroso vinho californiano.

Dali a instantes, chegou uma amiga comum de Lygia e de Hilda, uma dessas senhoras dos Jardins, chique, simpática e doce, mas com um ar de “Ai, São Paulo já era”. Sempre que converso com uma dessas senhoras, a bela e radiante São Paulo dos anos cinqüenta, a famigerada cidade da garoa, desenha-se em minha imaginação — e então saio convencido: São Paulo já era mesmo .

— Imagine você — dizia ela. — Desprovido de mendigos, assaltantes, camelôs e crianças de rua, o centrão de São Paulo já foi um belo e seguro shopping ao ar livre. As mulheres, elegantíssimas, de saltos e estolas de pele, desfilavam pelos cafés da cidade…

Descia o vinho, desciam os tais biscoitos amanteigados, e eu lá, ouvindo agora as últimas novidades — para não dizer “fofocas”, termo pouco elegante e nada condizente com aquelas duas almas verdadeiramente aristocráticas —, enfim, ouvindo as últimas novidades da tchurma . Aliás, você verá, e eu também verei: quando tivermos mais de setenta e cinco anos, as novidades da tchurma serão mais ou menos assim:

— Sabe o sicrano?

— Sei.

— Pois é, morreu.

No caso delas, logo em seguida vinha a lista com os amigos do falecido, com suas viúvas, seus admiradores, suas amantes, isto é, com as filhas de mil e um empresários tradicionais, tais como os donos do Biotônico Fontoura, do Estadão , da Emulsão de Scott, das Pastilhas Valda, do Chiclete Adams, do sabonete Eucalol, enfim, desses ícones dos anos dourados. Aí me vinha à mente o fato de que uma mulher, escritora ou não, colar de pérola ou piercing, é sobretudo uma mulher — graças a Deus —, e, então, me intrometia na conversa, fazendo comentários cáusticos, tirando um sarrinho aqui, outro ali. E as duas lá, às vezes reagindo com risos, outras, com novos chistes, às vezes me encarando com uma expressão de “Ih, o vinho está batendo”.

E a Lygia, por sinal, como já me dizia o Bruno Tolentino, é toda simpática, papo envolvente, cheia de sorrisos, ainda bonita, vaidosa, com lenços no pescoço e penteados. Conversamos sobre a vida, sobre literatura, sobre cinema, sobre seu falecido marido, Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, com quem escrevera a quatro mãos Capitu , um roteiro adaptado de Dom Casmurro e publicado como livro, do qual retirou da estante um exemplar, autografou-o, e mo regalou. Para não ficar atrás, eu, aproveitando a ocasião, saquei da mochila meu primeiro livro — que também traz um conto citando Capitu —, rabisquei-lhe cerimoniosamente uma dedicatória, e lho entreguei, fazendo, é claro, um esforcinho para em seguida esquecer o fato, afinal, sabia lá se ela o iria ler, pois eu já estava cansado de saber que a Hilda raramente — muuuuito raramente — folheava os ene livros que ganhava. (Dias depois, ao telefone, a Lygia me disse que tenho talento. Pensei: “Ponto! Deve ter lido ao menos um conto!”)

Momentos depois, ela me informou que um amigo seria empossado na ABL, o que me lembrou minha fabulosa e inconveniente idéia de converter as reuniões da academia num Saia Justa , “Fardão Justo” ou “Big Intelectual Brother”, botando a velharada cabeça para conversar diante de câmeras e microfones, ainda que as imagens fossem divulgadas apenas pela internet — idéia essa de que me esqueci logo em seguida, antes mesmo de mencioná-la, e da qual só me lembraria na manhã seguinte, em meio a uma baita ressaca. E voltamos a falar de cinema, com ela a reclamar do diretor que rodou seu roteiro, pois o sujeito ignorara todas as importantíssimas referências que, em Capitu , a dos “olhos de ressaca”, ela e Paulo Emílio haviam feito ao mar:

— Não há uma cena sequer de praia!

E eu, identificando-me de novo, fiquei a pensar no meu próprio roteiro de curta-metragem, Eye am the I , escrito na Casa do Sol, e no irritante diretor que ameaçava mudar sua estrutura, seu clímax, pensamento esse que me fez encher, dessa vez, uma taça com vinho do Porto. (Todos passam novamente por tudo… sempre o mesmo…)

Tocou o telefone e, então, acompanhado pela amiga, aproveitei esse entreato para conhecer o apartamento, admirando os desenhos do “Goffredinho”, filho dela, as quinquilharias trazidas de mil e um cantos da Terra, e as cartas sobre a mesa, segundo a escritora, por responder. Lygia desligou o aparelho, e passamos a falar dos políticos, de como são todos iguais — claro, assunto inevitável, são mesmo, este país não muda nunca —, e eu cada vez mais fui me dando conta de que, do jeito que o álcool ia descendo, teria de esperar ao menos umas três horas para me livrar da borracheira. Será que ela teria um quarto de hóspedes? Engraçado, elas estavam tão bem, tão lúcidas… Por que parecia que somente eu echaba unos tragos? O pior é que, não sendo muito de beber — ao menos naquela fase da minha vida —, eu bebia também por cortesia, corroborando assim o que Lygia não parava de repetir:

— Ah, este vinho da Califórnia é uma delícia!

E era mesmo.

Depois, telefonamos à Hilda, marcamos uma visita da Lygia — que desta vez iria a Campinas comigo, mas não foi, sabe como é, muitos cachorros, os compromissos, a saúde, eu entendo, eu entendo —, e, de repente não mais que de repente, no auge do meu estado dionisíaco, a empregada dela assomou à porta da sala e anunciou que ambas precisavam sair para fazer as compras do mês — ou não teriam mais mantimentos! Meu sistema límbico ficou à beira do pânico, não conseguia me imaginar na rua naquele estado: ora, uma vez em plena rua, seria necessário pensar no itinerário, no dinheiro do metrô, nos perigos noturnos das esquinas paulistanas, nas quais já fora assaltado umas três vezes etc. etc. E eu não queria pensar! Não conseguia! Ora, de nada adiantou pensar nisso, pois Lygia, após pedir-me desculpas, me deixou, acompanhado por sua amiga, numa das travessas da avenida Paulista. Eu, claro, trocava as pernas, sempre a tropeçar discretamente em mim mesmo, e, contudo, ainda tentava com todas as forças manter de pé meu lado “My fairleido”, ser um cavalheiro, porque afinal foi preciso acompanhar a tal amiga, que não se agüentava com o peso da garrafa de vinho californiano, presente da Lygia, até seu próprio apartamento. E como de fato sou um gentil-homem , ascendente em libra e tal, esforcei-me ao máximo para a figura não perceber que o mais correto teria sido ELA carregar a garrafa e me acompanhar até o metrô, já que EU, Dioniso , vesgo de vinho e de histórias lygeiras , poderia a qualquer momento ser atropelado, assaltado ou o pior: tomado por insanidade temporária, poderia até mesmo agarrar por trás uma dona à força, uma dessas que se abaixam pelos Jardins, saquinho de plástico numa mão, pazinha na outra, recolhendo o cocô do seu digno cãozinho. Mas — cáspite! — que outro destino poderia me aguardar? Ora, após me despedir da honrada e finíssima senhora, notei que estava ocorrendo, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o lançamento do livro de um escritor do qual jamais recordarei o nome! E, por supuesto , fui até lá e mandei mais vinho goela abaixo — “de grátis”. Hum. Nem sei como consegui chegar, horas mais tarde, à estação Consolação do metrô…

Já em casa, reli o que escreveu Lygia em A disciplina do amor :

Na Pérsia, todos os gatos são persas, os gatos e os tapetes. Eu pisava nos grandes tapetes do grande hotel, bebia o vinho dourado e ficava olhando a miniatura tão rica em minúcias do rótulo vermelho-ouro da garrafa, queria uma lupa para ver melhor o príncipe de turbante, tocando um bandolim — era um príncipe ou o poeta Omar Khayyam, bebendo e sonhando no seu jardim? O persa hedonista que fez vibrar minha juventude puritana quando ensinava que é preciso beber e não pensar, beber e esquecer porque amanhã a lua talvez venha nos procurar em vão.

E depois do transe, como a própria Lygia narra a respeito de sua viagem ao Irã, sempre vem o mundo com suas praças e patíbulos, enforcados e dura realidade. É preciso aterrissar, deixar a Lua e voltar à luta, porque, como ela também afirma, no mesmo livro:

Testemunhar seu tempo — respondi a um jovem que me perguntou qual é a função do escritor. Volto para a minha máquina de escrever e peço a Deus que me ajude.

E também eu, apesar de não possuir o mesmo talento e o mesmo fígado, voltei ao teclado para dar testemunho desse privilegiado encontro. (Ajudai-me, Senhor!)

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