A menina branca

A menina branca

Edgar andava muito irritado com uma coisa: num país onde ocorriam cerca de cinqüenta mil homicídios ao ano, o que realmente atraía a atenção da famigerada “opinião pública” era essa espalhafatosa campanha, não apenas em defesa dos animais domésticos — mormente cães e gatos —, mas também em defesa dos animais silvestres, sobretudo desses seres que, a não ser talvez pelo YouTube, ele jamais veria ao vivo — tais como o Diabo da Tasmânia ou aquele bizarro Anjo da Tanzânia.

“Existe isso? Anjo da Tanzânia?!…”, indagava Edgar a seus botões, franzindo o cenho e tentando encontrar indícios de Photoshop naquela estranha imagem que parecia misturar uma girafa a um avestruz. “Contribua para a salvação do Anjo da Tanzânia!”, rogava a legenda da fotografia, que também trazia o número de uma conta num banco das Ilhas Cayman. E, na mesma cena, viam-se cinco cabeludos ajoelhados defronte do animal, como se adorassem um anjo de verdade. Muito suspeito.

Edgar, que sempre criara cães, hamsters, papagaios, tartarugas; ele, que na infância tivera até um mico-de-cheiro e um tatu (sim, até mesmo um tatu); enfim, ele, que com toda a sinceridade do coração sempre gostara de animais, achava um absurdo essa noção de que bichos são inocentes, de que são melhores e mais confiáveis que gente, e por aí vai. Não compreendia por que as mesmas pessoas que arrancavam os cabelos cada vez que um vira-lata era chutado na rua, por outro lado, pareciam não se incomodar com os vários genocídios ao redor do mundo, com a matança de comunidades cristãs inteiras na África, com o número enorme de homicídios anuais no país, com os milhões de abortos, e demais notícias terríveis a esse modo. Quando ele postava uma informação desse tipo no Facebook ou no Twitter, ninguém se interessava, o silêncio era implacável. Já as postagens sobre bichos — ah! — essas causavam grande impacto e comoção. Edgar chegava a se perguntar se seus amigos viam o sofrimento humano como algo merecido — como uma espécie de castigo inexorável por comermos salaminhos inofensivos e mortadelas indefesas — ou se, pelo contrário, esses mesmos amigos — pressupondo que todos os humanos são animais — já incluíam automaticamente nesses protestos a indignação pelo assassinato de tantos de nossos semelhantes.

“Será que o Green Peace também está preocupado com pessoas gordas quando fala em baleias?”, perguntava-se cheio de sarcasmo. E respondia: “Pois deveria! Eu fui gordo durante toda a minha infância e sofri mais bullying que a Orca, a baleia assassina!”

Naquela manhã, porém, percebeu que a primeira alternativa às possíveis causas do sofrimento humano, a do castigo, é que era a correta: num intervalo para o café, leu uma amiga comentar que devia existir pena de morte para quem pratica a caça desportiva, já que, ao praticá-la, os humanos estariam confirmando o fato de serem inferiores a qualquer outro animal. “Inferiores?! Ora”, pensou ele, “animais também não sentem prazer ao caçar? Ou será que apenas estudam medicina? Algum grupo de bichos já se juntou para abrir um hospital que apenas atendesse pessoas? Nós, humanos, compensamos todo esse suposto mal com clínicas veterinárias, com associações, fundações e institutos protetores. E eles? E os animais? Têm o quê? O que essas criaturas superiores fazem por nós além de nos morder, de nos picar e de nos comer pelas selvas, ou — na melhor das hipóteses — além de se deixarem comer, cativar e encher nossa roupa de pelos? Alguém ao menos já viu uma ONG fundada por bichos para proteger gente? Claro que não!”, discursava dentro de si mesmo. “Eles, os animais”, prosseguia numa crescente e silenciosa empolgação, “não podem fazer nada disso pela mesma razão que lhes obsta o estado de inocência: eles não têm consciência moral! Ou ainda: não são autoconscientes! Humanos erram, mas sempre podem se aprimorar. E é por isso que nós é que precisamos cuidar deles, decidir por eles, respeitá-los, até amá-los (se for o caso), mas não adorá-los! Seu cachorro gosta de você? Certo, todo cachorrinho petitico é um docinho para seu dono. Mas coloque-o a viver num canil com outros trinta cachorrinhos petiticos: iniciam-se imediatamente as antipatias e as agressões recíprocas! Isso é um fato, caramba! Para os cães, o inferno são os outros cães e, ao contrário de nós, eles não têm qualquer perspectiva ou mesmo necessidade de redenção, já que não possuem livre-arbítrio, já que não podem decidir pelo arrependimento. Meu avô teve um canil, observei essas coisas de perto. Mas isso tudo não significa que os bichos sejam maus — claro que não! Mas tampouco são moralmente bons e inocentes como querem esses spammers militantes! Bichos são pré-morais e ponto final, caramba… É tão óbvio: apenas alguém que pode ser culpado pode também — não em relação à mesma ação, claro — pode também ser inocente! Porque inocência e culpa implicam responsabilidade. E animais são animais! Não são responsáveis por seus atos! Não são livres, pois não podem frustrar voluntariamente seus próprios instintos! São escravos dos instintos! Quer defender os bichos? Defenda, mas jamais diga que eles são melhores do que a gente. Jamais! Uma época em que as pessoas já não conseguem entender essas coisas só podia mesmo se chamar Kali Yuga…”

— Olha a cara do Edgar — disse um colega, cutucando alguém. — Tá quase mordendo o monitor.

— Deve estar fuçando no perfil da Virgínia — e ambos riram. Mas Edgar continuava alheio, trepado num parlatório dentro de si mesmo, discursando para uma multidão de Edgares.

Sim, era verdade que boa parte dessas postagens em prol dos animais bonzinhos, e contra os humanos carnívoros malvados, vinha da sua própria noiva, Virgínia, uma vegetariana com fortes tendências veganistas, que não podia nem em sonhos descobrir que, longe dela, ele comia carne. Não, nem pensar! Ela ficaria menos abalada se ele se declarasse canibal! Como a maioria dos amigos dela, ela preferia Beagles a pessoas. Sim, ler postagens sobre o sofrimento humano mundo afora era algo que não apenas os amigos dela, mas também os dele, não toleravam, pois tais informações poderiam estragar a vibe do final de semana. Ademais, era demasiado angustiante notar que os poucos a se indignar com esse sofrimento sempre propunham falsas soluções, tais como as diversas formas de intervenção estatal — “Faça alguma coisa, governo! Faça alguma coisa!” —, como se tal sofrimento, em inúmeras circunstâncias, não tivesse sua origem exatamente naqueles revolucionários, burocratas ou endinheirados que, pretendendo “mudar o mundo”, apenas se intrometiam na vida alheia, impondo mais controle, mais leis, mais restrições, mais impostos, mais exigências e reduzindo as liberdades e iniciativas individuais. Isso quando não impunham mais mortes. Edgar estava cansado desses pregadores do Mundo Ideal burocraticamente controlado, esses fanáticos que se ajoelham cinco vezes ao dia para orar ao Estado. Já ele, ao contrário dessa gente, acreditava que a única revolução fundamental era revolucionar-se e ver o mundo tal qual é, sem o filtro de ideologias e politicagens. E como naquele dia não lhe passaram nenhum projeto cujos cálculos devesse conferir, permaneceu imerso nesse discurso eloqüente e introspectivo toda a manhã.

Depois do almoço, já a caminho de casa, continuava resmungando: — Até você, né, Virgínia…

Sim, não tirava da cabeça tudo o que havia lido no Facebook. A verdade é que ele estava cansado da má consciência daqueles que preferem bichos à gente — afinal, Edgar não tinha nada contra os pobres animais! Não tinha. Mas, ao mesmo tempo, já não possuía a mesma disposição de outrora para discutir, para participar dos mesmos debates desgastantes internet afora. E, por isso, não fez comentário algum às postagens desses amigos militantes. Ultimamente vinha optando por evitar conflitos inúteis, principalmente se esses conflitos o colocavam em oposição à namorada. Até mesmo quando juntos, Edgar se esquivava a discutir com ela tais assuntos. Atualmente, sempre que Virgínia iniciava essa velha conversa de que a humanidade não seria senão o câncer do planeta, Edgar simplesmente retirava o celular do bolso, acionava a câmera de vídeo e lhe apontava a lente: “Conversa com meu telefone”, dizia ele, provocando-a. “Depois eu vejo o que você disse.” Enfim, o fato é que ele, na falta de serviço, ao menos se distraíra com a rede social, chegando rapidamente ao fim de mais um tedioso meio expediente de sábado. Dali em diante, ficaria sossegado, longe do escritório e das chatices da internet.

* * *

Ao chegar em casa, Sol a pino, desceu do carro, abriu a estreita garagem, voltou ao carro, estacionou. Edgar morava num loteamento recente, desses que possuem mais terrenos baldios que residências. Um bairro novo, numa região acidentada, cheia de morros, ladeiras, mato. Tinha poucos vizinhos e vivia numa casa praticamente isolada numa das esquinas. Ele a comprara ainda por terminar — paredes sem reboco, muros sem caiar — e a estava completando aos poucos, tencionando dar os últimos retoques no correr dos próximos dois ou três anos, quando então a região certamente já estaria valorizada, e ele, perto de se casar. Virgínia, que ao menos em teoria gostava de animais, talvez se sentisse à vontade naquela pequena casa de quintal espaçoso e então, quem sabe, num futuro próximo, até mesmo viesse a abandonar as estapafúrdias idéias de superioridade dos bichos e finalmente decidisse criar cães, gatos, coelhos, pacas, tatus, cutias, enfim, o que bem entendesse. Tratava-se de um sobrado que acompanhava o declive do terreno, sobrado este que, quando visto por trás, dava ao observador a impressão de ser bem mais alto, pois abrigava, sob a cozinha, um vão, isto é, um terceiro nível, uma pequena área coberta, mas adjacente ao quintal, que o rapaz planejava fechar e transformar num novo aposento. Sentia mais urgência em ter esse quarto de despejo — talvez uma futura marcenaria, para ele, ou um ateliê, para Virgínia — do que em construir o muro dos fundos. Ora, os fundos da casa davam para um riacho ainda ao natural, ao contrário da insipidez dos córregos canalizados dos bairros mais desenvolvidos. O único problema, claro, eram os ladrões. Muros poderiam afastá-los, mas a verdade é que não havia nada a ser roubado fora da casa, pois o quintal era apenas um longo terreno vazio com algumas mudas plantadas nas laterais. Por outro lado, junto ao córrego, havia, sim, muitas árvores, uma pequena e dispersa mata ciliar, um gramado aqui outro ali, enfim, praticamente um parque natural onde as crianças costumavam brincar à vontade. Edgar não queria isolar a casa dessa paisagem. Por isso, nos fundos do lote, mantinha apenas a cerca de arame liso levantada pelo primeiro dono.

Nesse dia, porém, ao abrir a porta da frente, sentiu algo incomum no ar, um estranho e inquietante silêncio — sim, algo terrível acontecera!

— Que droga! — remoeu-se. — O filho-da-mãe do Valdemar entrou aqui!

Valdemar era… [continua]

……..

ATENÇÃO: Devido ao contrato que assinei com a editora Record, você leu apenas o trecho inicial deste conto, que poderá ser lido integralmente no livro A sábia ingenuidade do Dr. João Pinto Grande. Clique aqui para vê-lo na Amazon. Obrigado! (07/05/2017)

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