Soneto Psicose

06/04/2005
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Para encerrar este ciclo de “micos poéticos” gostaria de chamar mais uma vez sua atenção sobre minha falta de talento para a poesia e, claro, exemplificá-la com meu Soneto Psicose (abaixo). Faço isto simplesmente por saber que, mais cedo ou mais tarde, meus amigos irão me perguntar onde afinal eu estava com a cabeça quando decidi divulgar esses micos. (Vide as duas entradas anteriores.) Quero, então, apenas poupá-los desse trabalho crítico já que, infelizmente, algo em mim exige tal divulgação. E se alguém tem que meter o pau, que seja eu mesmo.

Bom, para falar a verdade eu tampouco entendo de crítica literária, não sendo senão um “sentidor” da poesia, e é por não sentir qualquer coisa de elevada em meus poemas que não penso em publicá-los. Não farei, portanto, comentários sobre rimas pobres, ricas e engenharias do gênero. Não tenho saco para essas coisas. Basta alertá-lo(a) — apenas alguns amigos sabem disso — que meu primeiro livro não foi realmente A Tragicomédia…, mas o Poemas Furiosos, de 1996, escrito às margens do Paranoá. Bonito, né: “…às margens do Paranoá”… (Eu sentei e chorei!) Enfim, salvo engano, uma única pessoa leu os tais Furiosos: Hilda Hilst. Seu comentário foi o esperado: embora os poemas tenham despertado seu interesse, no sentido de conhecer melhor este hóspede de sua casa, os versos ali encontrados não se encaixavam em seu conceito de poesia, eram apenas “confissões”. De um adolescente, devo ter acrescentado. (Bom, com a pérfida intenção de demonstrar sofisticamente a relatividade do valor literário — relatividade esta que não existe — passou pela cabeça deste escorpiano falar sobre as divergentes opiniões mútuas de Clarice Lispector, Hilda Hilst e Bruno Tolentino por suas respectivas obras. Claro, seria pura fofoca da minha parte, já que — tendo convivido com estes dois últimos, que, por sua vez, conheceram a primeira — eu estaria apenas fugindo do fato de que sou mesmo um mau poeta, não importando esse papo de prosa poética, que uma amiga tenta impingir à parte final do primeiro conto do meu LSDeus.)

Nossa! Como eu estou chato, credo! Quanta justificativa por uma bobagem! Se ainda tiver saco, esqueça tudo e leia o soneto abaixo, vai, afinal, graças a ele deixei minha musa inspiradora da época — uma pessoa de excelente gosto — bem apaixonadinha… Pode haver melhor crítica literária? :))

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SONETO PSICOSE

Tranqüilo estava a tomar um bom banho
Quando por trás da cortina do boxe
Surgiu um vulto brandindo faca inox
Que me deu um susto sem ter mais tamanho.

Rasgando a cortina às estocadas
Assomou-se a minhas pobres retinas
Uma mulher com o ar dessas meninas
Que anelamos sob luas danadas.

Nua, abandonou a faca e fitou-me:
“Cá estarei até abrir-te o coração…”
E achegando-se, sorriu e beijou-me.

Mas após amá-la com toda a arte
Ela se foi, ao não ouvir, em confissão,
Meu amor qu’estava em toda parte.

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(Este meu soneto está na terceira posição entre os “Sonetos Interessantes Preferidos” do site Sonetos.com.br. Perceba que fiz algumas alterações.)

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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