O Exorcista na Casa do Sol

04/05/2005
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Por estranho que pareça, tenho boas lembranças ligadas ao filme O Exorcista. Por agora, ficarei com a mais recente. Estávamos eu, o poeta Bruno Tolentino e a escritora Hilda Hilst, apenas os três, na residência desta última, assistindo ao tal filminho diabólico pela Direct TV. Isto foi em 2000, talvez em 1999. Quem já ouviu falar da Hilda sabe que, nessa época, ela tinha oitenta cães em sua chácara: sessenta e cinco no canil, quinze dentro de casa. O Bruno, de maneiras altamente civilizadas, ex-professor de Oxford e tal, inglês que só, não era muito fã daquela situação. Os sofás da sala, apinhados de cães de todos os tamanhos e graus de vira-latice, não deixavam espaço para os não-resignados. Já eu, que morava ali desde fins de 1998, estava com o “foda-se” ligado havia muito tempo. Na verdade, eu era o único com cães no colo, mantendo outro, o Zidane, sobre meus pés, pois era inverno e fazia muito frio. (A lareira, aliás, não tinha muita serventia, uma vez que a porta permanecia perenemente aberta para que os digníssimos animalitos pudessem sair e satisfazer suas necessidades fisiológicas.) Pois então. Eu no sofá, a Hilda um pouco à frente, em sua poltrona – dizíamos trono – e o Bruno mais adiante, em seu banquinho, os joelhos mais altos que o assento. A Hilda, a fumar Chanceller, “o fino que satisfaz”, mantinha um sorriso extático, pós-vinho do Porto, aparentemente desfrutando o desconforto do Bruno. Não era das mais tolerantes com quem não curtia cachorros… Bom, a cena está montada, sigamos.

Lá pelas tantas, eu dizia aos dois que o filme fora cortado, que estava faltando aquela cena onde um padre encontra, na igreja, a imagem da Virgem totalmente profanada, com seios postiços enormes e um big caralho entre as pernas. O Bruno me contestou, disse que isso deveria ser mais adiante e tal. Ao contrário dele, porém, eu assistira ao filme havia pouco tempo e, por isso, tinha certeza: estava realmente censurado, um absurdo. O tempo passou, o diabo tomou o corpo da menina e, justamente na cena em que ela vira a cabeça para trás, a Grampola, que estava no cio, entrou na sala e se deitou às onze horas do Bruno. O Zidane, então, levantou-se de sobre meus pés e, sendo o maior e mais forte dentre os demais, foi o único macho a se aproximar da cadela, deixando atrás de si uma nanica e invejosa platéia canina. Grampola, seguindo um instinto mais afim a seu sexo que à sua espécie, levantou-se, deu uma rosnadinha, fingiu que estava magoada e deu as costas para o Zidane – sim, justamente o que ele queria. E, claro, tudo isso a dois passos do coitado do Tolentino que, resmungando algo incompreensível, afastou seu banquinho um pouco para trás. A Hilda, totalmente na dela, fazia de conta que não se passava nada de anormal. Bem, talvez ela não visse nada de anormal mesmo, ao contrário de myself que, sentado no ponto mais distante da TV, tinha, no meu campo de visão, a própria Hilda Hilst, o Bruno Tolentino, dois cães já atrelados um ao outro e, como cereja desse repasto visual, uma menina tomada pelo diabo vomitando verde a dois metros de distância. Logo, eu, que também estava numa situação pós-vinho do Porto, comecei a sentir cócegas insuportáveis no cérebro. Quando finalmente Zidane se satisfez, colocando-se então de costas para Grampola, ambos ainda ligados pelo, digamos assim, “fio do amor”, eu me senti mergulhado num filme grotesco, numa história completamente surreal. E o pior: Zidane quis voltar para o fundo da sala, o que fez com que guinchasse sua companheira na direção do Bruno, quem, mergulhado em desesperado constrangimento, ainda tentou empurrá-los com os pés. A Hilda, completamente impassível, a mirar a TV, emitia longos círculos de fumaça, toda charmosa, mantendo o cigarro na mão caída para trás. Neste momento, interrompi o silêncio: “Olha, espero que vocês dois não se incomodem, mas é que eu não agüento mais…”, e só então comecei a gargalhar loucamente. A Hilda me observou com atenção, um sorriso inefável nos lábios, sem dizer qualquer coisa. Já o Bruno levantou-se, riu um tanto nervoso e, como se tivesse sido salvo pelo gongo, acrescentou: “vou fazer um chá”, e saiu pela porta da cozinha. E finalmente a Hilda, encarando-me com aquele ar maroto de menininha: “Ué, será que ele não estava gostando do filme?” E eu ri de novo: “Pois é, Hilda, parece que não, né.” “Vai lá, Yuri, vai ver se nosso hóspede está bem.” Eu fui. Entrei na cozinha e o Bruno já estava com a lata de Jacksons of Piccadilly nas mãos. Ele me encarou com aquele olhar faiscante, e ao mesmo tempo irônico, que só escorpianos como eu e ele conseguimos ter. Eu: “E aí, Bruno, o que você achou da experiência?” Ele: “Experiência?!… Bom, a Hilda não diz sempre que essa casa aqui pertence aos cachorros? Pois então, essa é a casa do cão. Foi muito interessante assistir ao Exorcista na casa do Cão…” E rimos juntos.

Quando voltei à sala, a Hilda já havia desistido do filme e queria se deitar. “Que filme medonho, Yuri! Que filme medonho!” Acompanhei-a até seu quarto. “Boa noite, querido”, se despediu. E eu: “Você não quer que eu tire os cachorros hoje, Hilda. Você disse que ontem eles não te deixaram dormir direito.” “Tira só o Mister Tôuto, Yuri, as duas pequenas podem ficar.” E, enquanto eu recolhia o tal cãozinho idoso, dei com o quadro de Francisco de Assis na parede. “Ele também gostava muito de bichinhos”, me disse ela. “Eu sei, Hilda.” “Boa noite, querido, durma com Deus.” “Boa noite, Hilda, você também.” Enquanto isso, o pobre padre Karras rolava escada abaixo…

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2 Respostas para “ O Exorcista na Casa do Sol”

  1. Joao kannebley em 05/11/2010 à(s) 3:36 pm

    O Exorcista na Casa do Sol – Textos de Yuri Vieira http://j.mp/9GdrNx
    para morrer de rir!!! Demais!

  2. Eliane Fonceca em 05/11/2010 à(s) 5:16 pm

    RT @jambakan: O Exorcista na Casa do Sol – Textos de Yuri Vieira http://j.mp/9GdrNx
    para morrer de rir!!! Demais!

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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