Matando um mosquito com um tiro de canhão

11/03/1997
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No dia 25 de Dezembro de 2000, o professor de história e sócio do cursinho pré-universitário Purgatório, Sebastião Epimeteu da Boa Morte, recebeu pelo correio uma caixa de bombons acompanhada da seguinte carta:

Mui estimado prof. Epimeteu da Boa Morte

Espero que esta o encontre bem de saúde e, acima de tudo, nos seus mais prósperos dias de vida, coisa de que não duvido, pois tenho ouvido com grande contentamento as notícias do seu recente casamento e da sua expansão no campo pedagógico. Sei que agora, além de dono de uma rede de cursinhos, também possui outros três colégios de segundo grau fora da nossa cidade. Ficam registrados aqui meus votos de sucesso não apenas nesse seu novo empreendimento mas principalmente na sua vida familiar.

Não sei se o senhor se recorda de mim –e, aliás, por que deveria? Quem sou eu senão apenas um de seus numerosos e felizardos ex-alunos? Sim, estudei no seu cursinho há exatos dez anos e, se o senhor fizer um pequeno esforço mnemônico – coisa simples para um professor de história da sua estirpe – estou seguro de que se lembrará de mim. Meu nome é Adão Mark de Barros e, se o senhor já tiver fresca a memória da minha pessoa, sei que estará deveras surpreso por receber não apenas correspondência mas também um presente da minha parte. Não tivemos, é verdade, uma relação fácil e muito menos agradável. Não podemos nos iludir quanto a isso. Havia, achava eu à época, uma incompreensão mútua. Hoje, após concluir meu mestrado em história – veja só como o senhor me influenciou! – sinto o quão importante foi, para mim, tê-lo encontrado naquele ponto crucial do meu caminho. Graças ao senhor – já não me atrevo a chamá-lo simplesmente de Tião ou de senhor Morte, como costumava – eu encontrei minha realização pessoal e profissional, além da decisiva capacidade para concentrar-me e dedicar-me aos estudos com afinco e disciplina. Hoje, sei que a incompreensão estava apenas a meu lado e que o senhor sabia exatamente o que estava fazendo. Quando jovens, precisamos realmente tomar algumas porradas ou nos metemos por caminhos vãos. Por isto, devo agradecer também a todo o corpo docente que trabalha consigo e que tão bem lhe seguem os passos. Se não fosse por esses professores, hoje eu seria um completo imbecil.

Lembro-me das muitas vezes em que o senhor nos interpelava, buscando saber o quanto havíamos estudado nos livros e apostilas. Se não respondêssemos, tínhamos que nos ajoelhar sobre cacos de vidro. Se nos equivocássemos com datas, lugares ou nomes – além de pagar uma multa de alguns milhares de dólares – tínhamos que beijar os pés dos alunos que respondiam corretamente. Na época, eu achava aquilo o cúmulo do absurdo, mesmo após ter sido reprovado em dois exames vestibulares. Somente hoje percebo o quão correto era o seu procedimento. Realmente, era mais do que necessário ter tudo na ponta da língua. Logo que entrei no cursinho, o professor de química Carlos Ruggieri, o famigerado Rugão, inverteu meus dois prenomes e passou a tratar-me por Mark Adão ou, simplesmente, Markadão. Não sei se o senhor se recorda. Ele queria todas as fórmulas e reações químicas de cor e sempre me pegava em flagrante delito de esquecimento. Não saia do meu pé. Uma vez tentei lhe dizer que achava todo esse método de ensino vazio e estúpido, e que de nada nos servia pois esqueceríamos de tudo após o vestibular. Disse ainda que mesmo quando decorávamos fórmulas e conceitos não tínhamos a menor idéia do significado daquilo tudo.

“O vestibular é um saquinho plástico onde vamos vomitar todo esse material inerte engolido às pressas”, continuei eu. “Quem tragar mais, sentindo menos sabor, vai se dar melhor. Depois, eles pesam o saquinho e examinam quem descomeu mais, quem teve menos alimento absorvido pelo sangue…”

Ele limitou-se a dar uma gargalhada e perguntar quem era eu pra contestar aquilo tudo. Afinal, segundo ele, mesmo que por minha própria conta eu viesse a compreender de onde tudo aquilo tinha surgido, não era isto que me exigiriam nos exames. Falou-me isto ao ouvido, tentando realçar a importância do que dizia, e, depois, deu-me bolos na mão com uma velha palmatória. É claro que eu tinha a alternativa de mudar de cursinho preparatório, mas o Purgatório era o melhor, eu não poderia abandoná-lo. Talvez o senhor se lembre de que eu quase o fiz. Vocês não se importaram com minha ausência, pois não tinham nada a perder. Sempre houve quem quisesse pagar para estudar ali. Mas quando voltei atrás na minha decisão e regressei, fui obrigado a ficar uma semana vestido de palhaço durante as aulas. Meus colegas, aliás, meus concorrentes não paravam de rir:

“Dançou, Markadão!”

Agora, pior mesmo, foi no caminho de casa, após aquelas doze primeiras horas diárias de aula. O senhor, claro, sabe o que aconteceu. Dois homens muito fortes e altos, duas verdadeiras geladeiras, me encurralaram num beco escuro e me espancaram. Pensei que fosse um assalto, mas não me levaram nada.

“Isto é pra tu aprender a não largar o Purgatório, seu escroto…”, disse um deles.

Naquele momento, eu percebi que todos nós temos a liberdade de eleger nosso caminho, mas que, uma vez feita tal eleição, nosso livre arbítrio fica encerrado nos limites da alternativa escolhida. E já que eu pretendia possuir um dia um diploma de nível superior, eu deveria resignar-me aos fatos. Afinal, quem realmente era eu pra contestar esse estado de coisas? Que o ensino de segundo grau não nos ensina nada parecia-me bastante óbvio. Mas e daí? Ele não dá a todos a impressão de que estão aprendendo algo de útil? Que tudo fosse uma mera transmissão de informações e elucidações superficiais pouco importava. Posteriormente não nos tornaríamos sábios na universidade? Por que então reclamar? Lembro-me inclusive que fiquei chocado quando – ao assistir a um filmeco do agente 007, O Satânico Dr. No – a personagem de Ursula Andrews diz ao famoso espião que não precisara estudar em colégios, enquanto acompanhava as várias viagens do pai pelo mundo, pois eles possuíam uma enciclopédia e ela já estava na letra T. Que horror!, julguei eu. Mas ela concluiu: “Aposto que sei mais coisas do que você…”; e aí pensei: acho que ela tem razão. Com a educação que se recebe hoje em dia, presumia eu, muito melhor seria ficar em casa e ler a Barsa de cabo a rabo. Pra que um intermediário humano que apenas cumpre uma função de máquina? Mas não – prosseguia – alguém tem que selecionar nossas informações, pois se não sabemos nada, como podemos saber o que devemos saber? O problema real é: e quem é que sabe? Somos condicionados a apreender coisas e não a aprender com as coisas. Nossa postura numa sala de aula é passiva – não no sentido limitado que muitos idiotas acusam de que apenas ouvimos e não contribuímos em nada, pois todos supostamente sabem alguma coisa. Mas no sentido de que recebemos muita informação não trabalhada, não pensada, não criticada, não interligada criativamente. Os professores, concluía eu, não nos ensinam a capacidade de trabalhar as informações e o conhecimento, mas apenas no-los repassam. Tudo isto cruzava minha mente, professor. É verdade, eu me resignara, mas por dentro eu ainda era pura dinamite. Incrível a capacidade de rebelar-se que os jovens possuem, não acha? A vontade de mudar o mundo. Que bobagem! Quem é que pode ensinar a inteligência?

Há pouco tempo li, num livro que peguei ao acaso, o seguinte: “O ensino da história universal nas chamadas escolas médias ainda hoje muito deixa a desejar. Poucos professores compreendem que a finalidade do ensino da história não deve consistir em aprender de cor datas e acontecimentos ou obrigar o aluno a saber quando esta ou aquela batalha se realizou, quando nasceu um general ou quando um monarca, quase sempre sem significação, pôs sobre a cabeça a coroa dos seus avós. Não, graças a Deus não é disso que se deve tratar. Aprender história quer dizer procurar e encontrar as forças que conduzem às causas das ações que vemos como acontecimentos históricos.” Fiquei espantado ao perceber que isto era mais ou menos o mesmo que eu me atrevi a lhe dizer certa vez. O senhor ficou estupefato com minha impertinência:

“Quem por acaso é o professor aqui?! Vamos, venha cá!”; e, tirando-me a camisa, açoitou-me com um vergalho tirado não sei de onde. Minhas costas ficaram em carne viva. O quanto lhe odiei naquele momento é difícil de dizer. Mas esteja o senhor seguro do quanto hoje o admiro por aquilo. Imagine!, acreditar que a história sendo esta o próprio transcorrer da vida de uma civilização poderia ser um encadeamento de causas e efeitos tal como uma máquina à combustão. Delírio, puro delírio…

Li ainda do mesmo autor: “A arte da leitura como da instrução consiste nisto: conservar o essencial, esquecer o dispensável.” E ele também cita o quão imbecis são certos indivíduos “lidos”, pois acreditam ser a sabedoria um mero acúmulo de conhecimentos, não sabendo, no entanto, como utilizar toda a informação acumulada em suas memórias mecânicas, utilizando sempre os dados errados no contexto errado. Diz ainda que deveríamos acreditar no nosso instinto e tão somente guardar o que nos parece essencial para o pensamento, construindo, assim, uma espécie de mosaico interior, o qual seria um reflexo do nosso próprio gênio. E pensar que eu também acreditei cegamente em tudo isto! Usar as palavras e o conhecimento em benefício de emoções e crenças particulares! O senhor, professor Boa Morte, com sua excelente memória, certamente sabe que quem escreveu tais palavras foi Adolf Hitler. Eu quase não acreditei quando me dei conta: eu pensava de forma equivalente ao terrível nazista…

Certa manh㠖 o senhor com certeza há-de lembrar-se disto – eu me dirigi ao cursinho sem ter feito nenhum dos exercícios que haviam sido propostos no dia anterior. Logo no primeiro horário – uma aula de física – fui descoberto. O professor me mandara ao quadro resolver uma questão de movimento balístico e eu, dizendo-lhe que metesse o giz naquele local, me recusei. Ele ficou estarrecido. Depois furibundo. E, então, quando, na sala de torturas, descobriram que eu não fizera exercícios de matéria alguma, colocaram-me uma camisa de força e me mantiveram ali por uma semana. Sem me deixarem dormir jogavam-me água gelada a cada meia hora – fui forçado a ouvir gravações com explanações de diversas matérias.

“Você agora vai ficar Markadão pro resto da vida”, exclamou o professor Rugão.

Vocês ainda disseram aos meus pais que eu estava fazendo uma maratona de estudos. Não estavam mentindo… Por fim, saí dali para nunca mais voltar. Planejava, evidentemente, retornar com alguma vingança. Mas o esforço e o tempo que despendi para passar nos exames, sem a sua ajuda, me fizeram desistir de qualquer ato revanchista. De um jeito ou de outro, eu fora domado.

Hoje, creio que o senhor tem razão, professor, alunos são gado e devem viver sob golpes de látego. Quando pensam por si, iludem-se e, se demasiado convencidos do próprio gênio, tendem a transformar-se em loucos, talvez até em assassinos. É melhor não lhes estimular a inteligência, é perigoso. E pensar que um dia acreditei que todos os professores fossem mosquitos transmissores da febre da burrice. Meu Deus, como estava enganado. Somos todos iguais, devemos ter instrução similar e sermos tratados da mesma forma. Não existem gênios, isto é mito. O senhor sempre teve razão quanto a tudo isso. E quando ingressei na universidade, apenas comecei a sentir a verdade das suas palavras. Todos sendo adestrados da mesmíssima forma, ninguém melhor do que ninguém e nenhum sábio à vista. Enfim, quem teria autoridade pra dizer quem é e quem não é superior criativa e intelectualmente? Quando vejo essas escolas pra superdotados, vejo apenas um bando de crianças que serão maquinalmente mais eficientes que outras nos afazeres cotidianos. E claro, devem ser exímias nos jogos conhecidos como “exames vestibulares”. Contudo, somos seres humanos e não máquinas. E como seres humanos somos todos iguais.

Quando peguei o livro do Hitler para dar uma lida, pensei que encontraria uma espécie de Bíblia do satanismo. Mas encontrei o livro de um homem que se acreditava genial e que, cercado pelas melhores intenções, entregava-se ao delírio de apontar culpados pela miséria humana de que foi testemunha. Eu também cheguei a acreditar que a culpa da nossa burrice nacional fosse culpa dos péssimos professores que possuímos. Por pouco não urdi planos de exterminar esse enxame de mosquitos portadores da pior das doenças: a ignorância. Eu achava que os piores eram esses amestradores de cursinhos pré-universitários, um bando de parasitas da educação, um sem número de mafiosos, proxenetas que transformavam a educação na sua prostituta e dela sobreviviam. Eu os via – inclusive o senhor – como um grupo de showmen e de palhaços que transformava as aulas em espetáculo e que nos ludibriava, fazendo-nos crer que realmente aprendíamos algo importante. Mas assim como um entretenimento de auditório aponta apenas para si mesmo, também as aulas de cursinho exauriam-se no mesmo instante em que eram proferidas, tendo como significado apenas a si mesmas. Para mim, tendo ou não boas intenções, vocês eram a escória da educação, pois limitavam-se a capitaliza-la e a vendê-la em conserva. De estudantes, pensava eu, passáramos a consumidores de conhecimentos. Como vê, eu era tão ingênuo que ainda acreditava que todos vocês queriam nos ensinar algo e que o faziam de maneira estúpida e canhestra. Só agora vejo o óbvio: vocês nos preparavam para uma simples competição, na qual usaríamos o cérebro de forma mecânica, tal como numa queda de braço. Quem tivesse se dedicado a exercícios de musculação cerebral, em academias como a sua, estaria mais habilitado para a luta. Que os músculos cerebrais posteriormente se transformassem em banhas neurais era outra história. Vocês faziam sua parte, recebiam seu dinheiro, e nós, se cumpríssemos o acordo tácito, recebíamos a nossa: uma vaga na universidade. É apenas por isso que pessoas muito inteligentes mas sem recursos não conseguem uma dessas vagas. Afinal, não têm dinheiro para pagar essas academias e suas apostilas-anabolizantes. Mas e daí? O que eu e você podemos fazer, professor? Nada. Está fora da nossa alçada tal problema. E, aliás, seria até prejudicial para pessoas como você, não é? Imagine, substituir tais exames por outro tipo de seleção! O fim da musculação cerebral seria o fim das academias-cursinhos. Mesmo que mudem para outra coisa – como, por exemplo, um jiu-jítsu mental – que mantenham pelo menos o caráter de força-bruta. E eu sei que vocês têm influência($) para mantê-lo. Deste modo a musculação sempre será uma ajuda.

Sim, professor Boa Morte, como já lhe disse, eu também caí na tentação de apontar culpados. E acabei me revoltando contra aqueles que eram os únicos realmente preocupados com um ensino eficiente e coerente com a nossa época. Não, apesar do que disse acima, não estou sendo irônico. Repito: eu me emendei. Quando, tempos atrás – eu já estava formado – surgiu o boato de que aqueles sete estudantes do Purgatório, encontrados mortos, haviam sido assassinados por não conseguirem uma boa colocação no exame simulado, eu até me indignei. Antes, eu mesmo teria pensado em semelhante absurdo. Afinal, já ocorrera coincidência similar e ninguém conseguiu provar nada. Depois, assim que as investigações se encerraram, disseram que os professores do Purgatório haviam subornado a polícia. Contra-senso total! Pessoas como vocês, dedicadas à causa da nossa juventude, jamais cometeriam tal atrocidade. Todas essas acusações não passavam de veleidades de espíritos fracos. Disseram-me que até mesmo um conhecido escritor dedicaria seu precioso tempo a escrever um libelo contra essa “máfia do ensino particular pasteurizado”. Claro que nada disso ocorreu. Que escritor em seu juízo são se prestaria a essa atitude vã? Seria o mesmo que disparar canhões contra mosquitos. Só seres estúpidos acreditariam que o problema da educação – se é que ele realmente existe – encontra-se na postura de pessoas tão íntegras e talentosas, como sei que são os professores do Purgatório. Como se costuma dizer, o buraco é mais em baixo.

Houve uma época em que acreditei que, na minha infância, eu conhecera o paraíso. E que, ao entrar na escola, provei do fruto da árvore do conhecimento, sendo, assim, expulso dali. Parecia-me que eu deveria comer mais e mais de tal árvore e, só então, retornaria ao estado de graça anterior. Sentava-me à frente da turma e tirava notas altas. Nunca estudei muito, mas prestava atenção às bobagens que ouvia, enquanto os demais divertiam-se no “fundão”. Pouco antes de entrar na universidade, ocorreu uma inversão, desiludi-me e troquei de lugar com meus colegas do fundão. Mesmo depois de terminado o colégio continuei no fundão da vida e da sociedade. Dali observava todas as asneiras e absurdos, como se assistisse a uma verdadeira comédia. Era engraçado ver como os antigos habitantes do fundão estavam à frente de quase tudo na nossa vida. Mais tarde percebi que estava apenas enlouquecendo e perdendo meu lugar no drama geral. Resolvi aceitar as circunstâncias e descobri que sempre lutara com fantasmas. É por isto que um dia me revoltei contra vocês. Fui fraco desde o início e sempre me deixei enganar pela educação besta que recebia. Depois, quando quis que minha dedicação de anos fosse avaliada para entrar na universidade, quiseram – assim me parecia – que eu tragasse mais um monte de inutilidades para prestar um exame absurdo. Não compreendi, como vocês compreendem, que tudo é apenas um jogo e que não deveria dedicar-me com tanto afinco e seriedade, como fizera na minha inútil vida escolar, a essa nova etapa. Hoje, professor, tudo isto é bastante claro para mim. Perdi meu tempo com besteiras, com protestos inócuos, mas me restabeleci a tempo de voltar aos estudos. Hoje sou o que nasci para ser: um professor de história de uma escola de segundo grau. Espero poder seguir seus passos e tornar-me um bom educador. Sim, agora fui irônico, o que eu pretendo é ser professor de cursinho. Este seria meu paraíso. O senhor não teria um emprego pra me arranjar?

Meus sinceros agradecimentos

Adão Mark de Barros

P.S.: Espero que os bombons lhe agradem.”

 

Ao terminar a leitura da carta, o professor Sebastião Epimeteu da Boa Morte sorriu satisfeito. Então ele havia encaminhado uma alma? Que ótimo. Não deixava de ser um presente de Natal. E, pensando nisto, apanhou a caixa de bombons. Era uma embalagem fina, de metal, com adornos em alto relevo. Parecia importada. Leu na tampa: Pandora’s Candies. Ficou surpreso. Era o mesmo nome da sua esposa e do novo colégio que abrira em Brasília. Que doce coincidência! Deviam ser deliciosos. Contudo, isto não era suficiente pra se conseguir um emprego…

Quando pouco depois Pan, sua esposa, chegou em casa – fora levar presentes às crianças de um orfanato – descobriu horrorizada o corpo sem vida do marido. Ele parecia ter sido espancado e sofrido torturas sem fim. A perícia policial encontrou um enorme  (3,14…!!!) metido no seu ânus. Também havia reações químicas espalhadas por toda a casa, reações com nitrilas, haletos de acila, ésteres, aldeídos e cetonas. Havia dados sobre o Grupo dos Sete, o Gatt, o FMI, o NAFTA, o APEC e o MERCOSUL saindo por sua boca, uma cena asquerosa. Matrizes numéricas cortavam sua pele. Inequações logarítmicas vazavam-lhe os olhos. A lei de Ohm-Pouillet e a primeira de Kirchhoff escorria-lhe pelo nariz. Um hospedeiro definitivo da toxoplasmose lambia-lhe o ouvido. Seus membros inferiores haviam sido queimados. Provavelmente pelos cnidoblastos dos celenterados que pululavam sob seu corpo. A um canto, sua esposa chorava sem parar:

“Mas eu não o deixei nem por duas horas…”, lamentava-se.

Na autópsia, encontraram ainda: planárias sob suas unhas, uma infinidade de análises sintáticas e morfológicas dentro do seu intestino grosso, frutos indeiscentes no estômago, poemas parnasianos no pulmão, o evolucionismo darwiniano e a história do colonialismo brasileiro no coração e um desequilíbrio iônico no cérebro. Sua traquéia fora cortada por um plano cartesiano e, depois, entupida por um binômio de Newton. Os médicos legistas jamais haviam visto coisa semelhante.

“Foi um crime hediondo!”, proclamou aos repórteres o delegado responsável pelas investigações.

No mesmo dia, Adão Mark de Barros foi preso. Chegaram até ele graças à carta. Confessou ter enviado a caixa de bombons que, segundo ele, continha todas aquelas desgraças mortais. Ria muito e repetia sem parar:

“Não disse que o filho da puta ainda ia ver uma coisa! Enganei ele direitinho… Sou um gênio!”

Infelizmente, ninguém encontrou – sob a estante da sala do professor Boa Morte – a Esperança De Que O Ensino Neste País Deixe De Ser Mera Instrução Caótica E Se Torne Educação. Ela estava gordona. Devia ter comido vários bombons da caixa de Pandora’s Candies, na qual também viera deitada ao fundo. Estava pra morrer de indigestão.

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(Conto extraído do livro A Tragicomédia Acadêmica — Contos Imediatos do Terceiro Grau.)

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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