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	<title>Textos de Yuri Vieira</title>
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	<description>Contos, crônicas, poemas, ensaios, artigos...</description>
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		<title>Samantha Batista &#8211; Setor Cultural (Curitiba-PR)</title>
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		<pubDate>Fri, 25 Jun 2010 19:49:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Leitores]]></category>
		<category><![CDATA[Livros]]></category>

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		<description><![CDATA[from: Setor Cultural &#60;setorcultural@santacruz.br&#62; to:   @yurivieira.com date:   Thu, Jun 24, 2010 at 6:25 PM subject: A tragicomédia acadêmica Boa noite, Yuri. Ontem, depois do pedido do professor responsável pelo Setor Cultural da faculdade em que trabalho em pesquisar e-books para o novo clube de leitura (ainda em fase de projeto), encontrei seu livro [A [...]
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<blockquote><p><small><span style="color: #808080;">from:    Setor Cultural &lt;setorcultural@santacruz.br&gt;<br />
to:      @yurivieira.com<br />
date:    Thu, Jun 24, 2010 at 6:25 PM<br />
subject: A tragicomédia acadêmica</span></small></p></blockquote>
<p>Boa noite, Yuri.</p>
<p>Ontem, depois do pedido do professor responsável pelo Setor Cultural da faculdade em que trabalho em pesquisar e-books para o novo clube de leitura (ainda em fase de projeto), encontrei seu livro [<em><a href="http://blogdo.yurivieira.com/meus-livros/">A Tragicomédia Acadêmica - Contos Imediatos do Terceiro Grau</a></em>]. Já pelo título fiquei curiosa, pois ainda não saí da grande academia, faço pós-graduação em Gestão, Produção e Promoção Cultural, e devido a isso consegui emprego em uma faculdade particular da minha cidade (Curitiba/PR). Então acho que nunca sairei dessa vida acadêmica. E assim, curiosa pelo título, baixei o livro que comecei a ler ontem mesmo. Passei a tarde toda lendo e cheguei à metade. Hoje, depois de mais uma tarde de leitura, terminei. Não tenho palavras para dizer o quanto gostei do seu livro. Me diverti muito e visualizei diversas cenas que se tornam fantasiosas, mas que realmente acontecem nas universidades. Realmente adorei e não me contive em mandar este e-mail quando cheguei ao final do seu livro e vi todos os seus contatos ali. Sei que já foi publicado há alguns anos, mas deixo aqui meus agradecimentos pela ótima leitura que tive nas últimas duas tardes. Há tempos não terminava um livro tão rápido. Parabéns pelo livro e obrigada novamente.</p>
<p>&#8211;<br />
Att.,</p>
<p>Samantha Batista<br />
Setor Cultural</p>
<p></p>

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		<comments>http://textos.yurivieira.com/cronicas/o-marceneiro-e-o-poeta/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 25 Jun 2010 20:16:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[Amigos]]></category>
		<category><![CDATA[Drogas]]></category>
		<category><![CDATA[Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Bruno Tolentino... Naquela ocasião, eu ainda não o conhecia muito bem, mas chegaria a conhecê-lo melhor nos nove meses seguintes, tempo que ele moraria ali conosco: uma figura simplesmente extraordinária, com uma trajetória de vida de arrepiar os cabelos. 
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<p>Antônio estava debruçado sobre um banco de madeira rústico, que ele, com a expressão atenta de um cirurgião, colocara de ponta-cabeça para melhor avaliar o estrago causado pelos cupins. Com uma verruma, ia seguindo e alargando as trilhas abertas pelos insetos, como quem ara o solo antes da semeadura. O banco era pesado, comprido — comportaria umas cinco ou seis pessoas sentadas lado a lado —, e tinha orifícios de cupim por toda sua extensão. O Sol das nove horas da manhã, um Sol de outono, já iluminava praticamente todo o átrio da casa, fazendo luzir as lascas de madeira que se desprendiam da parte inferior do assento, enquanto eu, sem esconder minha admiração por aquela sem-cerimônia com um objeto tão estimado por sua proprietária, ia observando o desenrolar daquela tarefa milenar. Eu ainda tinha em mente a missão que recebera, mas o ar misterioso e reticente daquele marceneiro, suas maneiras graves e seu olhar duro, despertavam minha curiosidade para além da tarefa que me fora incumbida. Ao contrário da escritora Hilda Hilst, eu não sentia o menor receio pela presença daquele desconhecido de meia-idade, um negro de baixa estatura, roupas surradas e ar circunspecto. No entanto, ela era a proprietária da casa e tinha todo o direito de saber quem era seu novo hóspede. Até entrar naquele pátio árabe, eu sequer sabia que se tratava de um artesão. Sentia, sim, um interesse crescente por sua história, afinal, dificilmente davam às praias da Casa do Sol pessoas desprovidas de experiências, valor e espírito. ¿Por quais meios, por quais acasos e destinos ele teria ido parar em nosso refúgio de escritores?</p>
<p>&#8220;¿Por acaso você tá tentando competir com os cupins para ver quem é mais eficiente na destruição do banco?&#8221;</p>
<p>Ele sorriu pela primeira vez desde que chegara ali na tarde anterior: &#8220;Pois é&#8230; Isso aqui é como combater um câncer&#8230; A gente precisa retirar o que tá podre antes de iniciar o tratamento.&#8221;</p>
<p>&#8220;Humm&#8230; Você então trabalha mesmo como marceneiro, né.&#8221;</p>
<p>&#8220;Bom, a marcenaria é meu salva-vidas&#8230;&#8221;</p>
<p>Eu me sentei no chão, à beirada da varanda, pensando no quanto invejava os detentores de semelhantes habilidades manuais. Eu mal era capaz de desmontar e montar uma bicicleta, quanto mais de restaurar móveis de madeira. Minha presença não parecia incomodá-lo nem um pouco. Antônio, mergulhado em silenciosa concentração, prosseguia com seu labor. Pigarreei, embaraçado com minha tarefa.</p>
<p>&#8220;¿Você sabe quando ele vai voltar, Antônio?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ele me disse que voltava em uma semana.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E você va&#8211;&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Ela tá com medo de mim, não tá?&#8221;, me interrompeu, sem deixar de mirar o banco.</p>
<p>Eu sorri: &#8220;Na verdade&#8230; sim. Quer dizer, não é bem <em>meeedo</em>&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas ela pediu pra você vir conversar comigo, me sondar, ¿né?&#8221;</p>
<p>&#8220;Exatamente&#8221;, respondi, satisfeito por ver que ele não era nenhum idiota e que não era dado a rodeios. &#8220;Mas você não precisa ficar chateado com ela.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, claro que não, eu entendo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela já passou por uns maus bocados aqui, Antônio. Muita gente doida costuma dar as caras nesta chácara e, como ela não tem marido nem filhos, às vezes se sente desprotegida. É uma mulher de setenta anos, ¿saca?&#8221;</p>
<p>Ele me encarou com um olhar mais leve, como se o gelo, graças à nossa franqueza mútua, tivesse sido quebrado.</p>
<p>&#8220;Yuri — ¿seu nome é Yuri, né? — me passa por favor essa caixa de ferramentas aí do seu lado.&#8221;</p>
<p>Estendi-lhe a caixa, que parecia uma caixa de engraxate, e resolvi ser tão direto quanto ele.</p>
<p>&#8220;¿E então, Antônio?&#8221;, comecei em tom amistoso. &#8220;Além de ser um cupim gigante, ¿há sobre você algum outro dado ameaçador que poderia fazer a Hilda perder o sono?&#8221;</p>
<p>Ele parou com seu trabalho e me olhou direto nos olhos, sustentando uma expressão simultaneamente irônica e inocente. As ferramentas luziam dentro da caixa, que ele acabara de abrir.</p>
<p>&#8220;Humm. Depende&#8230; ¿Você acha que ela ia ficar assustada se soubesse que eu sou&#8230; um fugitivo da justiça?&#8221;</p>
<p>Meu interesse viu-se elevado ao cubo.</p>
<p>&#8220;¿E você é?&#8221;</p>
<p>Ele riu, retomando o serviço: &#8220;Sou sim. Faz dois anos que fugi da prisão.&#8221;</p>
<p>Uma eletricidade percorreu meu corpo só de imaginar a reação da Hilda ao receber uma notícia como aquela. Uma eletricidade <em>extática</em>. Muito difícil evitar pequenos prazeres sádicos, ainda mais diante de uma mulher com discretas necessidades masoquistas. A Hilda certamente ficaria aterrada com a informação, mas a receberia rindo nervosamente, curtindo mais essa ironia do destino. &#8220;Meu Deus, Yuri! Essa casa só atrai gente estranha!!&#8221;, diria, degustando seu mais novo motivo para entrar em pânico.</p>
<p>&#8220;Peraí, Antônio, ¿não me diga que você já matou alguém?&#8221;</p>
<p>&#8220;Quando a gente fala em prisão, todo mundo já pensa logo em homicídio. Mas não, nunca matei ninguém não.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E você foi preso por quê?&#8221;</p>
<p>&#8220;Drogas.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, você traficava.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não exatamente. Eu semprei fumei maconha. Maconheiro mesmo. E um dia eu saí com um sobrinho meu, de carro. Uma blitz parou a gente e ele tava com uma trouxinha no bolso. Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas achei que minha irmã fosse me culpar caso ele fosse preso. Então eu disse ao policial que eu é que tinha dado o bagulho pra ele. Foi uma burrice dupla: primeiro porque ele era menor de idade e não ia ter maiores problemas; segundo porque eu não sabia que, na lei, presentear alguém com drogas é considerado tráfico. Artigo 12.&#8221;</p>
<p>&#8220;Caramba. Onde foi isso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Em Goiânia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, essa é boa! ¿Então você é de Goiânia? Morei alguns anos lá.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu cresci no Setor Macambira. Fiquei preso no CEPAIGO.&#8221;</p>
<p>Antônio agora retirava uma das pernas do banco, inutilizada pela ação dos cupins.</p>
<p>&#8220;Nossa! O Carandiru do cerrado&#8230; ¿Você já tinha passado por algo assim antes?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, nunca. Nunca fui do crime. Aprendi marcenaria primeiro com meu pai e depois numa escola técnica. Sempre trabalhei com isso, desde a adolescência. Meu pai achava ridídulo dizerem que criança não deve trabalhar. Ele tava certo: sem um ofício a pessoa tá é perdida&#8230; Também participei de um grupo de teatro na associação de moradores lá do bairro. Cheguei a dirigir duas peças&#8230; Amadoras, né.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você obviamente deve ter ficado muito puto com esse negócio de ser preso.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Puto?! Eu fiquei foi apavorado, em pânico!!&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E como você se virou lá no CEPAIGO?&#8221;</p>
<p>Antônio então se sentou ao meu lado e começou a medir, com uma trena, a perna defeituosa que havia extraído do banco.</p>
<p>&#8220;Olha, pra falar a verdade, até que eu tive sorte. Quando eu cheguei lá, tava morrendo de medo, super ansioso. Aqueles portões altos abrindo pra gente entrar&#8230; Que sensação horrível!&#8230; E eu ia ficar de três a quinze anos lá dentro. É uma sensação de que a vida acabou, de que você está sendo jogado numa lata de lixo de gente, de que a sociedade agora tá cagando e andando pra você. O que eu não sabia é que tava correndo um boato de que um tal Cartucheirinha tinha sido preso e ia chegar naquele dia também. Todo mundo tinha medo dele, tanto os carcereiros quanto os outros presos. Um cara perigoso de verdade. Aí, chega a viatura e&#8230; ¿quem sai de dentro dela? Eu. Todo mundo pensou que eu é que era o Cartucheirinha.&#8221; Antônio deu uma risada acanhada: &#8220;Juro! Me olhavam com um respeito&#8230; E eu calado, sem saber o que se passava, com medo deles. Achavam que era brabeza minha.&#8221;</p>
<p>&#8220;Meu Deus! Que sorte, ¿hem? ¿E quando perceberam o engano?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, nem me lembro mais. Só sei que, quando descobriram, eu já tava fabricando bancos, mesas, estantes, prateleiras pra todo mundo. Achavam que eu era um Bíblia, ¿entende? Um crente. Todos me tratavam bem e me pagavam pra fazer coisas pra cela deles. A marcenaria é meu colete salva-vidas&#8230; Mas lá era um lugar cheio de caras estranhos. Por exemplo. Tinha um, o Divino Caveirinha, que cismou que ia pular o muro da penitenciária usando esses balões de festa com hélio. Vivia tentando contrabandear cilindros de hélio lá pra dentro, coitado. Como se alguém fosse fazer esse jumbo pra ele.&#8221;</p>
<p>&#8220;Jumbo?&#8221;</p>
<p>&#8220;É. <em>Jumbo </em>é uma encomenda que o presidiário faz. Ih, é tanta palavra diferente que a gente usa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Por exemplo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Lá na prisão, <em>taba </em>era maconha. <em>Pino </em>ou <em>pedra </em>era o crack&#8230; Hum&#8230; <em>Tranca-dura</em> era o xadrez. <em>Ganso </em>era o alcagüete, o dedo-duro&#8230; Ah, é coisa demais.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E como foi que você fugiu da prisão? Nunca pensei que pudesse ser fácil assim.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, não foi não. E eu não pretendia fugir. E também nem foi de lá que fugi.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ué, ¿como assim?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu e meu advogado conseguimos provar que eu era usuário, e não um traficante. Levou quase um ano pra conseguir isso. Eu mesmo já havia me internado em duas clínicas de reabilitação antes de ser preso: uma espírita e outra evangélica. Isso ajudou a convencer o juiz.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Clínica espírita? ¿Evangélica? Nossa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Foi por causa da minha mulher. Ela tinha ameaçado se separar caso eu não parasse com a maconha. Aí eu me internei nessas clínicas.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Em Goiânia?&#8221;</p>
<p>&#8220;A evangélica era em Anápolis, lá perto, mas primeiro fiquei na espírita, em Goiânia. Era muito legal lá, um lugar bonito, calmo, com um jardim bem grande, muitas árvores. Era uma chácara, na verdade. Lá eu também ficava trabalhando com madeira, conversando com as pessoas, pensando na vida. Os psicólogos de lá eram gente muito boa. É claro que tinha muito nego maluco, sabe, né, usuários. E a verdade é que, depois de passar pelas três clínicas de reabilitação, percebi que elas são os lugares onde mais facilmente a gente encontra drogas.&#8221;</p>
<p>Eu ri: &#8220;Sério?!&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro, aquele bando de nego na fissura, em abstinência, doido pra cair na tentação. Aí sempre tem um interno mais perverso que aproveita, né. O trem é feio mesmo, Yuri.&#8221;</p>
<p>&#8220;Puts. E o pessoal da clínica sabendo de tudo, fazendo vista grossa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, não, são gente honesta, disposta a ajudar mesmo. Quer dizer, com exceção da clínica alopática, né, pra onde eu fui depois de preso. Lá, nem precisa ter traficante: eles mesmos se encarregam de deixar você dopado o dia inteiro. Acho que é pra você não ter condição de pensar em usar as outras drogas, as ilegais. E se reclamar, leva um sossega leão.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Sossega leão?&#8221;</p>
<p>&#8220;É, a gente chamava assim. É uma injeção de Amplictil misturada com mais alguma coisa. Você fica lesado o dia todo. Isso se você conseguir ficar acordado, claro.&#8221;</p>
<p>&#8220;Credo. Então as clínicas religiosas eram melhores.&#8221;</p>
<p>&#8220;A espírita era. A evangélica ainda não sei dizer.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Como assim?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, na espírita era uma vida super tranqüila, ¿sabe? E era mista, mulheres e homens juntos. Não na hora de dormir, né. Mas era mais fácil de levar. E não era só pra drogadictos, tinha muita gente lá tratando de depressão, esquizofrenia, essas coisas. Muitas visitas. A única coisa agitada lá era o Vasco, que de vez em quando saía correndo aos berros, &#8216;O cigano! o cigano!&#8217;, e ia se esconder em algum lugar. O cara era bisonho. Ele tinha assassinado um cigano e estava sempre vendo o espírito dele em algum lugar&#8230;&#8221;, e sorriu, sem tirar o olho da trena. &#8220;Mas a clínica evangélica era beeem diferente, disciplina militar. Castigos militares também. Uma gente rígida. Casa de Recuperação Príncipe da Paz. Só homem lá dentro — se bem que a presidente era uma mulher, dona Ângela. Por um lado foi bom, não tinha remédio nenhum e nunca li tanto, principalmente a Bíblia. Quem decorasse alguns trechos ganhava repeteco na comida. ¿Conhece o &#8216;telefone de Deus&#8217;?&#8221;</p>
<p>Eu, sorrindo: &#8220;Não&#8221;.</p>
<p>&#8220;Jeremias trinta e três-três: &#8216;Chama a mim, e responder-te-ei, e anunciar-te-ei coisas grandes e firmes que não sabes&#8217;&#8221;, e Antônio retribuiu o sorriso. &#8220;Aprendi a falar direito, ¿entende?, a me fazer respeitar. Você não precisa de terno e gravata pra ser respeitado. Falar bem é muito mais eficaz. E ler a Bíblia ajuda muito nisso. Palavras difíceis, que impressionam. Nenhum jornal tem texto escrito do jeito que a Bíblia tem. Bonito mesmo. ¿Já leu?&#8221;</p>
<p>&#8220;Algumas coisas. Não tudo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Vale a pena&#8230;&#8221;, disse, enquanto retirava restos do pé do banco ainda presos no assento. &#8220;Mas, rapaz, era tanta humilhação nessa clínica&#8230; Acordavam a gente pra cavar buraco no meio da noite. De madrugada, quando a gente levantava, só banho gelado. Se a gente fizesse algo errado, não almoçava. Se pegassem a gente batendo punheta, vixe, mais banho gelado e buraco pra cavar à noite, lavar a louça de todo mundo e por aí vai. Difícil, viu. Mas lá eu podia trabalhar com madeira. A gente também cultivava a horta e criava escargô.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Escargô?!&#8221;</p>
<p>&#8220;É, aquela lesma francesa.&#8221; E rimos. &#8220;Eu cheguei a me tornar obreiro, Yuri. Ajudei a celebrar vários cultos. Quando saí de lá, já estava a ponto de virar pastor.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E por que não <em>virou </em>pastor? ¿Não encontrou uma cabine telefônica?&#8221;</p>
<p>&#8220;Uma história estranha&#8221;, começou, ignorando a pilhéria. &#8220;Na igreja os caras queriam que eu tomasse anfetaminas, rebite, ¿sabe? ¿Aqueles pastores gritando lá na frente, no palco, as frases encavaladas umas nas outras, pulando aos berros? Tudo anfetamina, o mesmo remédio que caminhoneiro toma.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tá brincando!!&#8221;</p>
<p>&#8220;Sério, Yuri, eles acham que não tão errados porque compraram droga legalizada na farmácia, porque é pro bem, acham que ajuda a &#8216;entrar no Espírito&#8217;. Um pastor até me disse que aquilo era muito melhor, porque na outra igreja de onde ele tinha vindo rolava um tráfico interno de cocaína só pros pastores. ¿Mas de quê ia me adiantar trocar a maconha por bola ou por cocaína? Muito pior.&#8221;</p>
<p>Fiquei em silêncio por um minuto observando-o cortar um pedaço de madeira que ele desembrulhara de um papel pardo. Iria agora preparar uma nova perna para o banco.</p>
<p>&#8220;Tá, Antônio, deixa ver se entendi: você se internou em duas clínicas de recuperação de drogados, foi preso, se transferiu para uma outra alopática. Ok. ¿E como você fugiu?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, um dia lá, eu simplesmente fingi que estava tomando o Anatensol, que sempre davam pra gente — na verdade, escondi o comprimido debaixo da língua — e, à tarde, quando todos estavam bodados na cama, pulei o muro.&#8221; E indignado, me encarou: &#8220;Porra, eles estavam dando choques na gente! Cheguei a passar vários dias babando, uma coisa escrota, viu.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E como você conheceu o Bruno?&#8221;</p>
<p>&#8220;Foi na Praça da República, em São Paulo, pra onde fui depois de fugir. É uma história comprida, vou resumir pra você&#8230; Logo que cheguei na cidade, acabei morando um tempo na favela do viaduto Alcântara Machado. Não deu muito certo, fui me meter em encrenca por causa de mulher e acabei na rua. Você sabe, mulher é foda&#8221;, e deu um sorriso amarelo. &#8220;Aí eu ficava lá na praça da República, vendendo por um Real banquinhos feitos com caixotes de feira. Ia à feira, catava as sobras de madeira e ficava lá, trabalhando. Era perigoso dormir na rua — então fiz amizade com um negão de dois metros, que vendia bebida pros mendigos e vagabundos. Eu tinha feito umas divisórias de madeira pro carrinho de supermercado que ele tinha, ¿sabe?, pra colocar as garrafas de pinga, vodka, campari, evitando que tombassem quando ele empurrasse o carrinho por aí. E então a gente se protegia, os dois <em>negão </em>no centro de São Paulo, ele, o grandão e eu, o baixinho. Enquanto um dormia, o outro ficava vigiando, porque tem muita violência da polícia, dos playboys, dos carecas, dos outros mendigos. E todo mundo querendo dinheiro pra ficar doidão, que era a única distração que a gente tinha. Quando a gente conseguia bagulho, alguém tinha de ficar cuidando <em>a loira</em> pros outros fumarem em paz.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Cuidando da loira? ¿Que loira?&#8221;</p>
<p>&#8220;Cuidando <em>a</em> loira. Loira é a polícia. E <em>alibã </em>é o soldado da polícia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tá, saquei.&#8221;</p>
<p>&#8220;Às vezes a gente comprava Artani na farmácia, um remédio pra epilepsia que deixa a gente noiado e enxergando tudo cor de rosa&#8230; A rua é foda, Yuri. Muita traição, muita briga de faca. <em>Naife</em>, a gente dizia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Cara, que loucura&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;É, nunca imaginei que ia ficar numa situação dessas. Tudo acontece dum jeito muito esquisito: num dia, você vai parar num aperto que parece ser o fim da linha. E fica naquilo algum tempo, acreditando que é mesmo o fim da linha. De repente, do nada, tudo muda. Outro dia, eu tava na prisão, outro, na rua e hoje tô na casa da poeta Hilda Hilst, de quem eu nunca tinha ouvido falar e que o Bruno me explicou quem é.&#8221;</p>
<p>Eu ri, me identificando com o comentário.</p>
<p>Ele: &#8220;Então, te respondendo: um dia eu tô lá na Praça, fabricando e vendendo banquinhos, e aparece esse cara magro, grisalho, todo fino, de terno e gravata, e me pergunta se eu sabia fazer mesa, cadeiras. Eu disse que só precisava de material e de algumas ferramentas melhores. Ele perguntou onde eu morava e eu disse que na rua. Quis saber por quê e eu achei ele intrometido demais, disse pra ele que a vida tinha me largado ali. Aí ele sorriu, disse que era poeta, que tinha voltado pro Brasil fazia pouco tempo e que não sabia onde comprar móveis bons. &#8216;Poeta não tem dinheiro pra gastar&#8217;, falei pra ele. Ele disse que trabalhava na revista <em>República</em>, que poderia me pagar, sim, e perguntou se eu não queria ir olhar o apartamento, pra ver as medidas da sala. Perguntei o nome dele, pra saber se era alguém conhecido. &#8216;Bruno Tolentino&#8217;, respondeu. Bom, eu nunca tinha ouvido falar dele. Então disse pra ele que de poesia só conhecia bem a Cecília Meireles, que eu li muito com o pessoal do teatro lá do meu bairro em Goiânia. Ele arregalou os olhos: &#8216;Eu conheci pessoalmente a dona Cecília. ¿Você sabe declamar algum poema dela?&#8217; Sei, e lembrei desse aqui: &#8216;E aqui estou, cantando./ Um poeta é sempre irmão do vento e da água:/ deixa seu ritmo por onde passa./ Venho de longe e vou para longe:/ mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho/ e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes andaram./ Também procurei no céu a indicação de uma trajetória, / mas houve sempre muitas nuvens./ E suicidaram-se os operários de Babel./ Pois aqui estou, cantando./ Se eu nem sei onde estou,/ como posso esperar que algum ouvido me escute?/ Ah! Se eu nem sei quem sou,/ como posso esperar que venha alguém gostar de mim?&#8217; Eu declamei olhando pro chão, pra conseguir me lembrar do poema todo, que era o único que sabia. E também de vergonha. Quando olhei pra ele, vi que estava com os olhos marejados. Fiquei sem graça com aquilo, a gente perde a sensibilidade morando na rua. Mas percebi que era sincero mesmo, Yuri, que ele tinha alguma fraqueza grande — e algum tipo de grandeza também, ¿sabe? Ele era inocente. Porque só uma pessoa muito inocente inventa de levar um mendigo pra dentro de casa, né. Vi na hora que ele não era nenhum pervertido procurando um parceiro pras suas taradices ou coisa assim. Ficou um tempo calado, me olhando terminar o banquinho. Aí ele disse: &#8216;¿Você acredita em Deus, rapaz?&#8217; Olha, falei pra ele, eu não confio em nada nem em ninguém: só em Deus. E o Bruno, depois de pensar um pouco: &#8216;Olha, tem um colchão sobrando no meu apartamento. Você pode dormir na sala. Quando terminar a mesa e as cadeiras, se quiser, pode ir embora.&#8221;</p>
<p>&#8220;Caramba.&#8221;</p>
<p>&#8220;Foi assim que conheci o poeta Bruno Tolentino, Yuri.&#8221; E percebi que Antônio, ao enxugar o suor do rosto, disfarçadamente secou uma lágrima. Ele finalmente compartilhava da emoção do poeta naquele dia — ou assim parecia. Ficou um breve minuto meio perdido com as ferramentas na mão, como se apenas fingisse trabalhar. &#8220;Depois que terminei a mesa e as cadeiras&#8221;, prosseguiu, com a emoção já sob controle, &#8220;ele me pediu pra fazer uma escrivaninha. E, claro, fui ficando. Um dia, ele chegou da revista com um bolo de dinheiro — uns dois mil reais, acho — colocou toda a grana na minha mão, disse que não se sentia bem, que precisava descansar, e me pediu pra depositar tudo na conta dele. Aí virou as costas e se trancou no quarto. Eu fiquei de cara: ¿como aquele sujeito podia ser tão crédulo, tão inocente?! ¿Por que ele confiava tanto em mim, Yuri? Ele tinha me encontrado na rua! ¿Só porque eu disse que acreditava em Deus? ¿E se fosse mentira? É claro que senti uma tentação enorme, fazia muito tempo que não botava a mão em tanto dinheiro. ¡Era o salário dele inteiro! Acho que ele estava me testando, mas nunca falamos sobre isso. Só sei que fui no banco rapidinho e depositei tudo, antes que me desse vontade de sumir, comprar alguma droga ou de tentar ajudar algum amigo que vivia na rua. A partir desse dia, comecei a trabalhar como secretário dele. Cuidava de tudo: do salário, das contas, dos remédios pra AIDS, da agenda&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;E ele voltou a dar aulas aqui no Brasil, ¿né?&#8221;</p>
<p>&#8220;Voltou. E você precisava ver a cara de alguns alunos dele quando davam de cara comigo lá onde a gente morava.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Não iam com a sua cara?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sei lá, eles ficavam super desconfiados de mim, né. Eu ainda me vestia com as roupas que usava na rua. Eles não entendiam quem era aquele mendigo preto que morava com o professor deles&#8221;, e riu.</p>
<p>&#8220;Bom, talvez rolasse uma inveja, né, Antônio. Muita gente, por exemplo, fica puta da vida quando descobre que estou morando com a Hilda Hilst.&#8221;</p>
<p>&#8220;Isso é verdade. Um cara que apareceu lá com o Bruno me perguntou uma vez: &#8216;¿Você é formado em Letras?&#8217; E eu: não, sou formado na vida mesmo. Ele fez uma careta e passou a fingir que eu não estava mais lá. Conversou um tempão com o Bruno e, mesmo quando o Bruno pedia minha opinião sobre alguma coisa, o cara não me olhava enquanto eu respondia.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿Você acha que era racismo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Racismo nada, ele era negro também, mais preto do que eu!&#8221;, e sorriu. &#8220;Depois o Bruno me disse que esse fulano chegou a perguntar se ele não tava precisando de um secretário <em>de verdade</em>. E o Bruno: &#8216;¿Mais verdadeiro que o meu secretário? Impossível&#8217;.&#8221;</p>
<p>Ficamos em silêncio, pensativos, e Antônio retomou seu trabalho. O banco já estava quase pronto. Ele teria de emassá-lo, lixá-lo e envernizá-lo mais tarde. A cor da nova perna ainda destoava da madeira restante. Antônio procurava algo na caixa de ferramentas.</p>
<p>Bruno Tolentino&#8230; Naquela ocasião, eu ainda não o conhecia muito bem, mas chegaria a conhecê-lo melhor nos nove meses seguintes, tempo que ele moraria ali conosco: uma figura simplesmente extraordinária, com uma trajetória de vida de arrepiar os cabelos. Claro, sua &#8220;biografia oficial&#8221; pode ser lida na Wikipédia ou em qualquer site literário: oriundo duma família carioca influente, alfabetizado em português, inglês e francês, Bruno se mandou do país em 1964, após o Golpe Militar. Foi secretário de Ungaretti, conhecido poeta italiano, lançou livros de poesia em francês e inglês, foi professor de literatura em Essex, Oxford e Bristol. Acusado de tráfico de drogas, foi preso e passou pouco mais de um ano na tal, segundo o próprio Bruno, &#8220;Ilha do Diabo inglesa&#8221;. Provada sua inocência (no caso em questão), foi solto. Voltou ao Brasil, polemizou com os irmãos Campos, publicou sua <em>obra maestra</em>, &#8220;O Mundo como Idéia&#8221; (que ele concluiu no quarto ao lado do meu, na Casa do Sol) e faleceu em 2007, em decorrência de AIDS, adquirida na cadeia. Eis um resumo da sua &#8220;biografia oficial&#8221;. Mas aqueles meses de convívio comum fizeram com que Bruno me apresentasse mais detalhes da sua vida. Eu o conheci no dia 24 de Outubro de 1998, na Casa do Sol. Lembro-me bem porque ele apareceu justamente no dia em que eu recebia alguns amigos para comemorar meu aniversário. Na ocasião, Antônio não o acompanhava. Certamente havia permanecido no apartamento que compartilhavam em São Paulo, cuidando dos assuntos do Bruno ou fabricando móveis. Tal como Antônio, até então, eu tampouco sabia quem era Bruno Tolentino. Havia lido alguns de seus artigos na revista <em>Bravo</em>, mas não ligara o nome à pessoa. Bruno participou da minha reunião de aniversário por cortesia, depois se isolou por algum tempo com a Hilda no escritório dela. Foi o momento, conforme ela me contou mais tarde, em que ele solicitou sua ajuda, já que estava sem emprego, sem dinheiro e precisando entregar o apartamento. Havia também alguma encrenca pessoal envolvendo a dona da editora para a qual ele trabalhara, mas isso não vem ao caso. O fato é que ali acertaram sua vinda à Casa do Sol, onde, juntamente com seu secretário, permaneceria alguns meses. Depois da visita, ele partiu de carona com meu amigo Rodrigo Fiume, à época, jornalista do jornal <em>O Estado de São Paulo</em> e, hoje, da <em>Folha</em>. Isso, claro, após ter sido fotografado comigo e com a Hilda Hilst — eu, no meu aniversário, entre dois dos maiores poetas deste país — foto que nunca vi, já que o Dante, o fotógrafo, um cara totalmente avesso a essas frescuras de literatos, sumiu com o filme. Sim, um detalhe fútil&#8230;</p>
<p>Assim, no início de 1999, Bruno e Antônio chegaram de mala e cuia e geladeira, fogão, livros, roupas, mesas e um computador 386 com vírus Melissa. Ocuparam um quarto com janela que — para suplício do Bruno — dava para o canil e seus oitenta cães. E na rotina dos dias, no marasmo ou na agitação das horas, Bruno Tolentino foi desfiando suas histórias para mim e para Hilda Hilst, algumas tão loucas que teria pudores de narrá-las por escrito sem antes checar sua veracidade. Claro, ele também viajava com freqüência, já que vinha organizando grupos de estudo independentes, em diversas cidades e estados, voltados a quem estivesse interessado em seus conhecimentos literários, tão assombrosos, vale lembrar, que a própria Hilda vivia me dizendo à parte: &#8220;Yuri, !meu Deus!  Esse homem devia ter aparecido aqui antes, quando eu ainda estava começando e me interessava mais profundamente por literatura. Nossa, ele sabe coisa demais, leu todo mundo — ¡até os chatos! — e ensina o tempo todo&#8230; ¡Credo! Que pena eu não ter mais nada a ver com isso&#8230;&#8221; E então ela sorria, cansada. Sim, outra condição enfrentada por ele: depois de lecionar em Oxford e de assombrar a própria Hilda com a extensão de seus estudos, Bruno não podia lecionar nas universidades brasileiras, já que não era formado em nada. Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, que após aceitar um convite de Darcy Ribeiro para lecionar na Universidade de Brasília fora impedido por não ter um diploma, Bruno era um mestre com a boca tapada por razões puramente burocráticas. No Brasil é assim: mais vale um papel registrado em cartório do que a evidência do mérito pessoal; mais vale um imbecil diplomado que um gênio autodidata.</p>
<p>Enquanto Antônio preparava os últimos retoques ao banco do pátio, fui ter com a Hilda, que certamente estaria ansiosa para saber o que eu havia descoberto sobre nosso hóspede. Pedi licença ao secretário-marceneiro, que apenas me dirigiu um sorriso tranqüilo de alívio, e entrei na casa. Na sala de jantar, antes de adentrar o escritório, retirei o CD que o compositor José Antônio de Almeida Prado havia trazido em sua última visita, e que havia acabado de tocar, e o troquei pelo <a href="http://www.youtube.com/watch?v=S4-LR3KPX50" target="_blank">Adagietto da Quinta Sinfonia de Mahler</a>. Além de ser uma das músicas prediletas da Hilda, serviria para acalmá-la de antemão. Entrei. Ela estava com os óculos na ponta do nariz, o cigarro na mão direita, concentrada em sua milésima releitura da biografia de James Joyce. Quando me viu, abandonou o livro e sorriu: &#8220;¿E então? ¿Falou com ele?&#8221;</p>
<p>&#8220;Falei, Hilda.&#8221;</p>
<p>&#8220;Então pegue o Porto e sirva duas taças pra gente. Tá quase na hora do almoço. Você me conta enquanto a gente bebe.&#8221;</p>
<p>Fui até a sala contígua de onde trouxe a garrafa de vinho. Servi as duas pequenas taças e me sentei diante de sua mesa. O silêncio, o Sol brilhante, a casa rústica, as árvores lá fora&#8230; eu adorava aquele clima de convento laico.</p>
<p>&#8220;Eu amo essa música&#8221;, disse ela, dando o primeiro gole. &#8220;É a mesma daquele filme do Visconti, ¿lembra?&#8221;</p>
<p>&#8220;Lembro. <em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0067445/" target="_blank">Morte em Veneza</a></em>. Adaptação do Thomas Mann.&#8221;</p>
<p>&#8220;Esse mesmo&#8221;, e tornou a sorrir. Então apagou o cigarro e me encarou, curiosa. O Sol, entrado pela janela de trás de sua cadeira, dourava-lhe os cabelos. &#8220;Diga logo, ¿quem é esse Antônio, Yuri? ¿Devo ficar com medo dele?&#8221; E riu.</p>
<p>&#8220;Acho que não, Hilda. Ele me parece uma boa pessoa.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿É mesmo? ¿E quem é ele afinal? ¿Onde o Bruno o encontrou?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, Hilda, o Bruno o encontrou morando na rua. Ele é apenas um fugitivo da polícia&#8230;&#8221;, e sorri, encarando-a com ironia.</p>
<p>Ela arregalou os olhos, num misto de excitação e temor: &#8220;Meu Deus, Yuri! Meu Deus!! Que incrível!! Vá, coloque mais vinho pra você e me conte tudo&#8230; Conte tudo&#8230;&#8221;</p>
<p>Rimos. Tornei a encher minha taça. E lhe contei tudo.</p>
<p>_____</p>
<p><span style="font-size: x-small;"><em>Este texto é parte do livro “A Bacante da Boca do Lixo — e Outros Escritos da Virada do Milênio”, que pode ser adquirido <a href="http://clubedeautores.com.br/books/by_tag/yurivieira" target="_blank">aqui (versão impressa)</a> ou baixado <a href="http://blogdo.yurivieira.com/meus-livros/">aqui (ebook)</a>.</em></span></p>
<p></p>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Contos inspirados na UnB viram e-book — por Thais Antonio</title>
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		<pubDate>Sat, 23 Oct 2010 05:15:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Imprensa]]></category>
		<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Universidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Histórias escritas por ex-aluno recebe elogios dos escritores Millôr Fernandes e Lygia Fagundes Telles. Livro está disponível na internet Thais Antonio - Da Secretaria de Comunicação da UnB Yuri Vieira estudou na Universidade de Brasília entre 1992 e 1997. Passou pelos cursos de Artes Plásticas, Engenharia Florestal e Letras, sem se formar em nenhum deles. [...]
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<h4>Histórias escritas por ex-aluno recebe elogios dos escritores Millôr Fernandes e Lygia Fagundes Telles. Livro está disponível na internet</h4>
<p><strong><em>Thais Antonio</em></strong><em> </em>- Da Secretaria de Comunicação da UnB</p>
<p>Yuri Vieira estudou na Universidade de Brasília entre 1992 e 1997. Passou pelos cursos de Artes Plásticas, Engenharia Florestal e Letras, sem se formar em nenhum deles. Em 1998 publicou o livro A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos de Terceiro Grau, com histórias fictícias e bem-humoradas sobre a universidade. Doze anos depois, o livro foi reeditado, ganhou versão digital e está à venda no site americano Amazon.</p>
<p>A versão em PDF pode ser baixada <a href="http://blogdo.yurivieira.com/meus-livros/tragicomedia-academica/" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p>O primeiro conto foi inspirado em uma professora de sua namorada. “Ela reclamava tanto de uma professora de Psicologia que me inspirou a escrever”, explica. O conto chama-se Maria Eu-gênia e fala sobre uma mulher histérica e egocêntrica que não aceita opiniões alheias. Ao todo, 19 histórias formam o livro de 170 páginas com ilustrações de Túlio Caetano, que estudou Publicidade na UnB na mesma época de Yuri.</p>
<p>Entre elas, está a emblemática <em><a href="http://textos.yurivieira.com/contos/o-abominavel-homem-do-minhocao/">O Abominável Homem do Minhocão</a></em>, que descreve a saga de um professor de Ciências Sociais que se escondeu no esgoto do Instituto Central de Ciências (ICC), para fugir da ditadura. Mais de 20 anos se passaram e o homem foi encontrado sujo, peludo e fedido, assombrando quem passava pelo prédio.</p>
<p>“Na época que eu comecei a escrever o livro, estava muito frustrado com a universidade e já tinha mudado de curso várias vezes”, declara. Yuri se debruçou sobre os contos de outubro de 1996 a maio de 1997. Ele morava na Casa do Estudante (CEU) e vivia a universidade 24 horas por dia. “Conheci muita gente e sempre ouvia as reclamações”, diz. “Estava deprimido com a situação da universidade e a forma que encontrei para lidar com isso foi tirar sarro”.</p>
<p>Ainda assim, o escritor, que também é cineasta, lembra-se da vida acadêmica com carinho. “Eu adorei estudar na UnB e tenho orgulho de falar isso”, afirma. Para ele, a maior conquista da vida universitária foi escrever o livro. “Considero o livro meu diploma”, pontua.</p>
<p><strong>RECONHECIMENTO</strong> &#8211; A publicação recebeu elogios dos escritores Millôr Fernandes, Olavo de Carvalho e Lygia Fagundes Telles. Yuri pegou, ainda, carona nas palavras de Hilda Hilst, que convidou o rapaz a morar com ela em São Paulo e ajudá-la a organizar a biblioteca e as correspondências da casa. Ele fez o primeiro site da escritora, que está no ar até hoje. A empreitada durou dois anos e deu a ele a chance de trocar experiência com a veterana.</p>
<p>Em setembro de 2010, o livro foi <a href="http://www.agbook.com.br/book/9212--A_Tragicomedia_Academica_" target="_blank">reeditado pela Agbook </a>e é vendido sob encomenda no site da editora. A <a href="http://blogdo.yurivieira.com/download/1/">versão em PDF</a> pode ser baixada pelo site do próprio autor, onde é possível baixar o outro livro publicado por Yuri, <em><a href="http://blogdo.yurivieira.com/download/13/">A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio</a></em>. Para e-readers, a publicação é vendida por US$ 6 no site americano <a href="http://www.amazon.com/s/ref=ntt_athr_dp_sr_1?_encoding=UTF8&amp;search-alias=digital-text&amp;field-author=Yuri%20Vieira" target="_blank">Amazon</a>.</p>
<p>_____</p>
<p>Fonte: <a href="http://www.unb.br/noticias/unbagencia/unbagencia.php?id=3986" target="_blank">UnB Agência</a>.</p>

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		<title>O Backbone, a Verdade e a Vida</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2007 17:38:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
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<p>Meus avós paternos são baianos de Maraú, ao sul de Salvador, perto de Valença. Minha avó é católica e vive hoje com minha tia evangélica em Vitória, Espírito Santo. Minha avó sempre me diz que esse negócio de candomblé é coisa do pessoal de Salvador, que no restante da Bahia não dão muita atenção a isso não. Ademais, minha avó só foi tomar conhecimento do candomblé no Rio de Janeiro, quando minha tia, essa mesma com quem ela mora hoje, desapareceu numa praia da Barra da Tijuca, um local então deserto – estamos falando dos anos 1950 – sendo mais tarde encontrada em transe no meio de uma roda de candomblé, as macumbas repercutindo. Ela tinha entre 7 e 10 anos de idade. Sim, minha tia foi médium durante muitos anos. (Ainda é, mas ela trata suas experiências hoje como manifestações e revelações do Espírito Santo). Cresci ouvindo meus parentes do Rio falando a respeito da “Ritinha” (um erê) e da “Vovó Maria Conga” (uma preta velha), entidades que ela recebia. (Na casa da minha avó, no Rio, havia um nicho cheio de brinquedos que eu, minhas irmãs e meus primos não podíamos tocar porque pertenciam à Ritinha. “Quem diabo é essa Ritinha que nunca vi mais gorda?”, matutava então.) Depois do candomblé, minha tia passou pela umbanda, kardecismo, seicho-no-ie, budismo, novamente catolicismo, etc. para só se encontrar na <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Igreja_Crist%C3%A3_Maranata">Igreja Cristã Maranata</a>.</p>
<p>A principal atividade da minha tia, hoje, é consolar e confortar moribundos em hospitais, sem tentar convertê-los. Ela sempre indaga a respeito das crenças ou descrenças do doente, partindo daquilo em que eles depositam suas esperanças. Acha uma covardia se aproveitar de sua situação de fraqueza para fazer prosélitos. Os médicos e enfermeiras ficam aliviados quando ela aparece porque sempre levanta o astral dos doentes, mesmo o dos ateus. Enfim, minha tia conheceu a fundo o candomblé e, hoje, acredita que o sem fim de entidades, santos, deuses, ou como queiram chamá-los, apenas dá margem a que pessoas com certos desvios morais permaneçam nesses desvios, afinal, seus orixás de cabeça também são assim. “Se Ogum é assim, por que devo mudar?” Minha tia crê que a religião deve melhorar o ser humano, não justificá-lo. É óbvio que há muita gente honesta e sincera no candomblé, como em qualquer outra religião, mas certos pontos da doutrina podem apenas servir de becos sem saída para seus crentes.</p>
<p>Sim, toda religião tem seus becos (não há culto sem doutrina, <a href="http://blog.karaloka.net/2007/05/15/viva-o-candomble/">como quer o Nizan</a>), mas os maiores becos são esses que afirmam que não é preciso, não direi buscar, mas tender para a perfeição (moral). (Olha o que diz o Nizan: “A religião católica quer que os homens sejam deuses. No candomblé, são os deuses que baixam nos homens”. Isso aí é próprio do Cristianismo, pois Jesus disse: “Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”. É um norte, uma orientação, não um jugo.) Há outros becos menores como a adoração e culto (ao invés de respeito e gratidão) à natureza e aos antepassados. Como diz a Suprema Personalidade de Deus (Krishna) no Bhagavad Gita: “Ao morrer, aqueles que adoram seus antepassados irão até seus antepassados, aqueles que adoram semideuses irão até eles, mas apenas aqueles que adoram a Suprema Personalidade de Deus virão até mim”. Bem, nem tudo estará perdido, pode-se dizer. Não é preciso acertar o alvo na primeira tentativa. (Não me refiro à reencarnação, por favor.) Mas, mesmo que você imagine que seu antepassado seja um santo, ele pode ter alguns podres muito bem escondidos, estando hoje num local não muito agradável. Melhor respeitá-lo e mandar bons pensamentos, e não apegar-se a ele. Um apego – que é o que resulta da adoração e do culto – é um link. Morrer é dar um salto quântico e acompanhar esse link.</p>
<p>Quanto à adoração da natureza, vide “<a href="http://www.olavodecarvalho.org/livros/neindex.htm" target="_blank">A Nova Era e a Revolução Cultural</a>“, do Olavo. Resumirei assim: “Incapazes de compreender a capacidade que temos de atingir interiormente a transcendência – aquilo que está além do tempo e do espaço – algumas pessoas (a turma da Nova Era) se apegam a elementos do espaço (à Terra, às águas, aos animais, aos astros, etc.) e outros (a turma da Revolução Cultural) ao tempo (à História, ao destino, ao futuro paraíso terrestre, aos antepassados, etc.)”. Lembre-se do que falei sobre apego e link e estamos conversados.</p>
<p>Eu curto a mitologia dos orixás tanto quanto admiro a astrologia ou a mitologia grega: são arquétipos. E só. Vivo dizendo que sou escorpiano, mas isso é porque sei onde, segundo a astrologia (que bate perfeitamente com minha intuição), estão meus potenciais e meus defeitos. Tento corrigir estes e atualizar aqueles. Se eu for passar a vida me vingando, guardando remorsos e rancores, tal como é típico num escorpiano, apenas porque sou um escorpiano, estarei ignorando o norte dado por Jesus: “Sede perfeitos”. Imagine um cara que se identifique totalmente com um Exú sacana. Pode ser muito bom para inspirar uma tragédia shakespeariana – Iago é bem exuzento, se comunica pelos cotovelos – mas, sem o tal norte da bússola, não há de ser nada bom para a alma dele.</p>
<p>Em suma, a grande questão é: por mais que busquemos a perfeição, somos limitados e estamos constantemente submetidos a tentações e às mares do humor. Se sou um devoto de Cristo, de Deus, por mais que eu não esteja num bom dia, devo saber que apenas as boas intuições, ações e palavras têm origem neles. Se, tal qual minha tia (no passado), fico me linkando toda semana à Vovó Maria Conga ou a um erê (a entidade criança), é preciso saber que nem sempre a entidade que baixa hoje é a mesma que baixou ontem, sendo esse nome – Vovó Maria Conga, por exemplo – mais um arquétipo que uma personalidade fixa sempre idêntica a si mesma. Se esta semana ando meio ressabiado, de mau humor, grilado, devo saber que atrairei uma entidade no mesmo padrão vibratório. E é por isso que minha tia – uma escorpiana que precisou vencer suas tendências negativas (que no escorpiano são terríveis) – precisou superar tantas doenças graves que quase a levaram à morte diversas vezes. É muito fácil ser engambelado por vampiros astrais nesse meio. E ela só se tornou a pessoa vibrante que é hoje – sim, após todas essas experiências – depois que se entregou ao Cristo e somente a Ele. Como diz o Highlander: “Só pode haver um”. Sem esse Um, não há unidade, que NÃO é sinônimo de uniformidade. A unidade é a base da realidade, sem ela não podemos conhecer uns aos outros, não podemos nos conectar aos princípios universais. O politeísmo, se levado a sério, pode por indução nos afastar da idéia de unidade e nos levar ao relativismo absoluto. Eu creio numa hierarquia e acho que Cristo está acima de todos os demais mestres deste universo, simplesmente porque é anterior a todos aqui, nosso <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Backbone" target="_blank">backbone</a> a nos comutar com a <a href="http://www.urantia.org/pt/o-livro-de-urantia/documento-2-natureza-de-deus" target="_blank">Primeira Fonte e Centro</a>. É o Caminho, a Verdade e a Vida porque, não importa qual buda, orixá, deus, mestre, amparador ou entidade você siga hoje, quando você estiver se aproximando da Personalidade de Deus – porque o Espírito dele já está em nossos corações – antes desse Encontro você precisará passar pelo “escritório” de Jesus e receber o “carimbo” dele em seu “passaporte cósmico”. Tenho certeza de que essas mães e pais de santo citados pelo cara – esses que são de fato boas almas – compreendem o que estou dizendo e apenas por isso vivem uma vida santa, isto é, tendente à perfeição. Do contrário só atrairiam gente baixo astral…</p>
<p>Bom, that’s all, folks. (Por enquanto.)</p>

<p>Nenhuma publicação relacionada.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Dogville, um filme duro de roer</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Apr 2004 12:52:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>

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		<description><![CDATA[O filme Dogville é interessante na forma, ótimo na escolha dos atores e um enorme desperdício dramático. Poderia ter sido uma obra trágica, mas o diretor – contaminado pelo mais ingênuo nietzscheanismo – preferiu transformá-lo numa piada de humor negro. Arma uma enorme e absorvente arapuca durante dois terços de projeção para ao final não [...]
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<p>O filme Dogville é interessante na forma, ótimo na escolha dos atores e um enorme desperdício dramático. Poderia ter sido uma obra trágica, mas o diretor – contaminado pelo mais ingênuo nietzscheanismo – preferiu transformá-lo numa piada de humor negro. Arma uma enorme e absorvente arapuca durante dois terços de projeção para ao final não pegar senão dois patos: eu e você. E olha que estava indo muito bem. Aquele carinha, o “escritor” do filme, por exemplo, é digno de todo desprezo, uma soma de fraqueza moral sem tamanho com uma incapacidade de reconhecer fatos óbvios, evidentes. (Personagem muito comum hoje em dia nos meios intelectuais.) E o mais louco é que ele, numa cidade sem um pastor, sem um padre, de igreja vazia, se arvora em guia humanista dela, uma espécie de prefeito moral. O cara é um político puro e não deseja senão legislar sobre a vida dos seus vizinhos, mudar o mundo para melhor, isto é, para seu próprio conceito de “melhor”. E, claro, aparece uma linda mulher. Para apimentar as coisas, como sempre.</p>
<p>Tom, o escritor, parece bonzinho – e aí, Suplicy, beleza? – e usa a mulher como objeto de uma experiência sociológica, para ajudá-lo na importante tarefa de melhorar o mundo. E a coitada se ferra legal, é óbvio, até mais do que se tivesse votado no PT. Vira escrava, vira depósito de esperma coletivo. E o escritor ainda diz que a ama… Esse escritorzinho não passa de uma mistura de Pôncio Pilatos (governador que se deixa dominar pelos súditos) com Judas Iscariotes (um traidor filho-da-puta). A tragédia poderia ser elaborada a partir daí. Afinal, ¿como permitir que fossem feitas tais coisas com uma mulher que se diz amar? No entanto, se não gostei do “sentido” do filme é porque ele é tão obra de arte quanto meu conto “<a href="http://textos.yurivieira.com/contos/matando-um-mosquito-com-um-tiro-de-canhao/">Matando um mosquito com um tiro de canhão</a>“: uma boa construção estética que se perdeu ao transformar-se em piada sofisticada. No entanto, modéstia à parte, a piada dele é pior que a minha, afinal, não sabe rir de si mesma.</p>
<p>Repito: von Trier tinha tudo na mão para fazer uma excelente obra trágica, mas, por ser um nietzscheano bobo, criou um enredo digno de um adolescente. Ao invés de causar o pathos, uma catarse essencial qualquer, ele dá vazão a que nos regozijemos num sórdido sentimentozinho de vingança. “Bem feito”, pensam os aborrescentes-adultos, “trataram mal a gostosa, se foderam… Ahahaha!” (Até eu dei muita risada, afinal, ¿não era uma piada?) O relativismo moral ali é completo, ninguém tem um chão para justificar suas ações, nem mesmo a pretensamente compassiva Grace (imagine, Graça!!). Ao menos ela, se realmente tivesse amor no coração, poderia ter sido uma heroína trágica, à maneira de Catarina de Alexandria. Mas não, ela não via a situação de cima, mas apenas por um prisma mental distorcido: era uma dissimulada “super-mulher”. Por isso digo: a compaixão, o serviço ao próximo baseado unicamente num sentimento humanitário qualquer, num humanismo de papel, só pode desembocar nas ações dessa personagem: chumbo e fogo. Grace aguenta, aguenta, aguenta e, de repente, percebe: são todos como cães, não podem agir de outro modo, logo, vamos exterminá-los. Uma Zarathustra assassina. Uma nazista. Ridículo! Se esse filme é um filme de maturidade, eu então sou um matusalém. Daria um bom roteiro para o South Park. Para que rolasse um elemento trágico ali, alguém deveria ter a alma de aço, não aquele monte de geléia espiritual. Se não isso, um que pelo menos tivesse consciência de sua fraqueza, como Hamlet, ou de sua maldade, como Ricardo III, ou seja, que ao menos não pecasse contra a própria inteligência. Até Don Quijote é um trouxa com uma alma de aço. Assim como o Idiota, de Dostoiévski. Dogville deveria se chamar Dogfilm, porque é o filme do Cão. É o filme de um mundo onde Moisés, o portador do decálogo, não existiu senão como cachorro (¿lembra-se do nome do cão? Moses!!!), um mundo no qual o primeiro mandamento – “amará ao Senhor seu Deus sobre todas as coisas” – soou simplesmente como au au au au… Ninguém ouviu nada. </p>
<p></p>

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		<title>Saudade do jornalismo &#8211; por Olavo de Carvalho</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Apr 2012 20:27:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comentários]]></category>
		<category><![CDATA[Outros autores]]></category>

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		<description><![CDATA[Quatro ou cinco décadas atrás, você abria os jornais e encontrava análises políticas substantivas. Fossem &#8220;de esquerda&#8221; ou &#8220;de direita&#8221;, os articulistas ainda acreditavam numa coisa chamada &#8220;verdade&#8221; e faziam algum esforço para encontrá-la. Eram também homens de boa cultura literária, conheciam e respeitavam o idioma. Tenho saudades dos longos artigos de Júlio de Mesquita [...]
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<p>Quatro ou cinco décadas atrás, você abria os jornais e encontrava análises políticas substantivas. Fossem &#8220;de esquerda&#8221; ou &#8220;de direita&#8221;, os articulistas ainda acreditavam numa coisa chamada &#8220;verdade&#8221; e faziam algum esforço para encontrá-la. Eram também homens de boa cultura literária, conheciam e respeitavam o idioma.<br />
Tenho saudades dos longos artigos de Júlio de Mesquita Filho, Paulo Francis, Antônio Olinto, Paulo de Castro, José Lino Grünewald, Nicolas Boer, Gustavo Corção; do próprio Oliveiros da Silva Ferreira – que está vivo, mas longe da mídia diária. E de tantos e tantos outros.</p>
<p>Hoje em dia temos puros polemistas, que não investigam nada, não explicam nada, não fazem nenhum esforço intelectual, não tentam entender coisa nenhuma, só tomam posição, lavram sentenças como juízes e ditam regras.</p>
<p>Também os havia então, mas como escreviam bem! Carlos Lacerda, Nelson Rodrigues e Raquel de Queiroz eram provavelmente os melhores. O próprio Otto Maria Carpeaux era do time. Contrastando com a destreza dialética alucinante da sua crítica literária, os artigos de política que ele publicava no Correio da Manhã, produzidos em série e, como que por automatismo, eram traslados servis das palavras-de-ordem do Partidão, do qual em pleno declínio de suas faculdades intelectuais ele se fizera &#8220;companheiro de viagem&#8221;, por puro medo da ditadura, talvez do desemprego. Estão repletos de erros pueris, desinformação comunista grossa, mas neles ainda se pode reconhecer o pulso firme do escritor.</p>
<p>Do outro lado, havia, por exemplo, David Nasser. Sempre se sabia de antemão o que ele ia defender ou atacar. Mas com que graça se repetia, variando as formas ao ponto de fazer as opiniões mais estereotipadas soarem como novidades!</p>
<p>Tudo isso está morto e enterrado. Em toda a grande mídia, só raros colunistas ainda honram o idioma e o melhor deles não é brasileiro, é português: João Pereira Coutinho. Leio com satisfação Reinaldo Azevedo (o mais informado) e Neil Ferreira (o mais engraçado). Os outros que dão gosto estão só na internet.</p>
<p><strong>Em todos os grandes jornais ninguém escreve com a seriedade de Heitor de Paola, a elegância de Percival Puggina, a inventividade de Yuri Vieira, a precisão vernácula de José Carlos Zamboni, a erudição bem-humorada de J. O. de Meira Penna. Os outros que me perdoem: a lista dos melhores excluídos não tem fim.</strong></p>
<p>Nas faculdades estuda-se, por incrível que pareça, a decadência do jornalismo brasileiro. Mas lança-se a culpa em tudo, menos nos jornalistas. Como se a má pintura não fosse nunca obra de maus pintores ou a comida fosse sempre ruim a despeito dos excelentes cozinheiros.</p>
<p>A classe tem um tremendo esprit de corps quando lhe interessa, mas nunca faz um julgamento sério de seus próprios atos, uma avaliação realista do seu impacto na sociedade. Narra sua história como se fosse autora de tudo o que é bom, vítima inerme de tudo o que é mau. Nada, absolutamente nada, lhe dói na consciência.</p>
<p>Não lhe ocorre nem mesmo a conveniência de um vago mea culpa por ter ocultado o Foro de São Paulo ao longo de dezesseis anos, praticando a censura com mais eficácia, amplitude e tenacidade do que a Polícia Federal do tempo dos militares. Sua falsa auto-imagem raia a sociopatia pura e simples<br />
(ver http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc. html, http://www.olavodecarvalho.org/semana/111124dc.html e ainda http://www.olavodecarvalho.org/semana/111125dc.html).</p>
<p>Nos anos da ditadura, como a liberdade de imprensa e a liberdade de ação da esquerda sofressem juntas as mesmas restrições oficiais (amplamente inoperantes na prática), jornalismo e esquerdismo se deram as mãos na luta contra o inimigo comum. Foi justo e oportuno. Mas, decorridas três décadas do fim do regime, a aliança de ocasião não quer admitir que seu tempo passou, que não há mais inimigos armados contra os quais o fingimento é a única defesa da parte mais débil.</p>
<p>Na época, a esquerda já dominava a mídia, mas fazia-se de coitadinha, de nanica, de excluída. Oprimida nas ruas e nas praças, discriminava os direitistas nas redações (como a intelectualidade acadêmica fazia nas universidades), reproduzindo às avessas, no microcosmo da profissão, o controle repressivo que o governo exercia na escala maior em torno.</p>
<p>Hoje, ela domina o país inteiro, e o que era precaução tática compreensível se tornou instrumento de perpetuação de poderes e prestígios imerecidos. A arma dos fracos tornou-se uma gazua nas mãos dos fortes,</p>
<p>Nunca, ao longo de todo o período militar, a esquerda esteve tão amordaçada quanto a direita conservadora, especialmente religiosa, está hoje na grande mídia.</p>
<p>Para camuflar esse estado de coisas, é preciso eternizar o luto, alimentar e realimentar, com um jorro constante de lágrimas forçadas e caretas de pavor fingidas, padecimentos e temores velhos de mais de um quarto de século. Essa é a mentira estrutural que está na raiz de todas as degradações do jornalismo brasileiro. É a proibição total da sinceridade. A destruição da linguagem vem daí. Ninguém pode escrever direito quando vive de se esconder de si mesmo.</p>
<p>____</p>
<p><em><a href="http://www.olavodecarvalho.org" target="_blank">Olavo de Carvalho</a></em> é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia.</p>
<p>Publicado originalmente no <a href="http://www.dcomercio.com.br/index.php/opiniao/sub-menu-opiniao/86723-saudade-do-jornalismo" target="_blank">Diário do Comércio</a>.</p>

<p>Nenhuma publicação relacionada.</p>]]></content:encoded>
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		<title>Progressistas, reacionários, histeria e a longa marcha gramsciana, por Murray N. Rothbard</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2012 18:22:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Outros autores]]></category>
		<category><![CDATA[Economia]]></category>
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<div>Por que a esquerda sempre faz uma oposição histérica a toda e qualquer ínfima medida ou iniciativa que seja por ela tida como &#8220;antiprogressista&#8221; ou, pior ainda, &#8220;reacionária&#8221;?  Seja no quesito aborto, no quesito dos &#8220;direitos&#8221; dos homossexuais (&#8220;direitos&#8221;, no linguajar esquerdista, nada mais são do que deveres impingidos aos pagadores de impostos), nos privilégios raciais e sindicais, no feminismo, no desarmamento e até mesmo em tímidas propostas de reformas assistencialistas, a esquerda progressista sempre reage com um furor frenético contra qualquer pessoa — seja político, comentarista político ou apenas alguém da mídia alternativa — que se atreva a fazer algo que leve a um pequeno recuo destes sagrados esquemas socialistas.</div>
<div>
<p>O frenesi progressista que vem varrendo o mundo começou realmente no final dos anos 1930.  Naquela época, vivendo em Nova York, minha família, meus amigos e meus vizinhos, todos esquerdistas, haviam chegado ao paroxismo do medo e da raiva por causa da contrarrevolução de Franco e da iminente derrocada do governo espanhol esquerdista durante a Guerra Civil Espanhola.  Superabundavam denúncias e vituperações lacrimosas contra Franco, além de contínuas exortações para que &#8220;alguma coisa fosse feita&#8221;.  Houve a criação de organizações especializadas em enviar de tudo para a Espanha, desde leite até armas e soldados.  Era a &#8220;Brigada Internacional&#8221;, criada para defender a esquerda espanhola (alcunhada de &#8220;Legalistas&#8221; pelo sempre simpatizante The New York Times e por outros veículos da mídia &#8220;respeitável&#8221;).</p>
<p>Vale enfatizar que estas pessoas jamais — nem antes e nem durante — haviam demonstrado qualquer tipo de interesse pela história, cultura ou política espanhola.  Logo, por que repentinamente passaram a se preocupar com o país?  O historiador esquerdista Allen Guttman chegou até a documentar e celebrar esta histeria em relação à Espanha em seu livro <em><a href="http://www.google.com.br/url?sa=t&amp;rct=j&amp;q=&amp;esrc=s&amp;source=web&amp;cd=2&amp;ved=0CDMQFjAB&amp;url=http%3A%2F%2Fbooks.google.com%2Fbooks%2Fabout%2FThe_wound_in_the_heart.html%3Fid%3D1TtpAAAAMAAJ&amp;ei=zAmZT9DnHIiy8QSn553rBQ&amp;usg=AFQjCNFsLclkT1PAlpQlS6IT2Nr5W6oPVQ">A Ferida no Coração</a></em> (o título já diz tudo).  Certa vez perguntei ao meu amigo Frank S. Meyer, que havia sido um proeminente comunista americano, a respeito deste enigma.  Ele deu de ombros: &#8220;Nós [os comunistas] nunca conseguimos entender o porquê.  Mas tiramos proveito do sentimentalismo progressista da questão&#8221;.</p>
<p>A explicação ortodoxa dos historiadores é que os esquerdistas da época — cujo quartel-general, a fonte de financiamento, estava nos EUA — estavam especialmente temerosos quanto à &#8220;ameaça do fascismo&#8221;, e defendiam freneticamente a esquerda espanhola porque viam a Guerra Civil daquele país como um prenúncio de uma inevitável Segunda Guerra Mundial.  Mas o problema com esta explicação é que, embora a esquerda progressista houvesse defendido entusiasmadamente a &#8220;boa&#8221; Guerra contra o Eixo, ela nunca realmente arregimentou a mesma emotividade, a mesma exaltação, o mesmo furor que demonstrava em relação a Franco contra Hitler, por exemplo.</p>
<p>Então, qual a verdadeira explicação para a atual postura da esquerda em relação a temas cultural e economicamente progressistas?</p>
<p>Creio que uma pista pode ser encontrada na mini-histeria que a esquerda demonstrou a respeito da contrarrevolução ocorrida contra o regime esquerdista da Salvador Allende no Chile, uma contrarrevolução que colocou o <a href="http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=868">General Augusto Pinochet</a> no poder.  A esquerda, até hoje, ainda não perdoou a direita chilena e a CIA por este golpe.  Allende ainda é considerado um mártir querido pela esquerda, e sua filha Isabel, um ícone (embora ainda percam para Che Guevara).  Seria esta raiva tão duradoura só porque um regime comunista foi derrubado?  Quase, mas ainda longe.  Afinal, a esquerda não demonstrou grandes emoções, não demonstrou nenhum desespero, quando os regimes comunistas entraram em colapso na União Soviética e no Leste Europeu.</p>
<p>Logo, sugiro que &#8216;A Resposta&#8217; para este mistério é a seguinte: a esquerda é, em sua essência, &#8220;progressista&#8221;, o que significa que ela acredita, à moda marxista ou Whig, que a história consiste de uma &#8216;inevitável marcha ascendente&#8217; rumo à luz, rumo à utopia socialista.  A esquerda progressista acredita no mito do progresso inevitável; ela acredita que a história está ao seu lado, sempre conspirando a seu favor.  Sendo ela formada por social-democratas (mencheviques), primos dos comunistas (bolcheviques) — com quem vivem entre tapas e beijos —, a esquerda progressista possui um objetivo similar ao dos comunistas, mas não idêntico: um estado socialista igualitário, gerido totalmente por burocratas, intelectuais, tecnocratas, &#8220;terapeutas&#8221; e pela Nova Classe iluminada, geralmente em colaboração com — e sempre sendo apoiada por — credenciados membros de todos os tipos de grupos vitimológicos, aquela gente que se diz perseguida e que vive lutando por &#8220;direitos iguais&#8221; — sendo que o &#8216;iguais&#8217; significa na verdade &#8216;superiores&#8217;.  Estes grupos são formados por negros, mulheres, gays, deficientes, índios, cegos, surdos, mudos etc.</p>
<p>A esquerda progressista acredita que a história está marchando inexoravelmente rumo a este objetivo.  Uma parte vital deste objetivo é a destruição da família tradicional, &#8220;burguesa&#8221; e composta de pai e mãe, que deve ser substituída por um sistema em que as crianças são criadas e educadas pelo estado e por sua Nova Classe de orientadores, tutores, terapeutas e demais &#8220;cuidadores&#8221; infantis.</p>
<p>A utópica marcha da história, objetivo dos social-democratas, também é similar à dos comunistas, mas não exatamente a mesma.  Para os comunistas, o objetivo era a estatização dos meios de produção, a erradicação da classe capitalista, e a tomada de poder pelo proletariado.  Já os social-democratas entenderam ser muito melhor um arranjo em que o estado socialista mantém os capitalistas e uma truncada economia de mercado sob total controle, regulando, restringido, controlando e submetendo todos os empreendedores às ordens do estado.  O objetivo social-democrata não é necessariamente a &#8220;guerra de classes&#8221;, mas sim um tipo de &#8220;harmonia de classes&#8221;, na qual os capitalistas e o mercado são forçados a trabalhar arduamente para o bem da &#8220;sociedade&#8221; e do parasítico aparato estatal.  Os comunistas queriam uma ditadura do partido único, com todos os dissidentes sendo enviados para os gulags.  Os social-democratas preferem uma ditadura &#8220;branda&#8221; — aquilo que Herbert Marcuse, em outro contexto, rotulou de &#8220;tolerância repressiva&#8221; —, com um sistema bipartidário em que ambos os partidos concordam em relação a todas as questões fundamentais, discordando apenas polidamente acerca de detalhes triviais — &#8220;a carga tributária deve ser de 37% ou de 36,2%?&#8221;.</p>
<p>Liberdade de expressão, de imprensa e de ideias é tolerada pelos social-democratas, mas desde que ela se mantenha dentro de um espectro de opiniões pré-aprovadas.  Os social-democratas repelem a brutalidade dos gulags; eles preferem fazer com que os dissidentes padeçam da &#8220;suave&#8221; e &#8220;terapêutica&#8221; ditadura do politicamente correto, na qual eles forçosamente têm de aprender as maravilhosas virtudes de ser educado na &#8220;dignidade de estilos de vida alternativos&#8221;, sempre submetidos a um intenso &#8220;treinamento de sensibilidade&#8221;.  Em outras palavras, <em>Admirável Mundo Novo</em> em vez de <em>1984</em>.  A &#8220;marcha ascendente da democracia&#8221; em vez da &#8220;ditadura do proletariado&#8221;.</p>
<p>Também típica é a distinção, nas duas utopias, acerca de como lidar com a religião.  Os comunistas, como fanáticos ateístas, tinham o objetivo de abolir por completo a religião.  Já os social-democratas preferem uma abordagem mais suave: subverter o cristianismo de modo a fazer com que a religião se torne aliada da social-democracia.  Daí a sagaz cooptação da esquerda cristã pelos social-democratas: enfatizando o modernismo entre os católicos e o evangelicalismo esquerdo-pietista entre os protestantes — este último objetivando criar um Reino de Deus na Terra na forma de uma coerciva e igualitária &#8220;<a href="https://www.google.com.br/search?rlz=1C1FDUM_enBR473BR473&amp;sourceid=chrome&amp;ie=UTF-8&amp;q=%22comunidade+de+amor%22">comunidade de amor</a>&#8220;.</p>
<p>Trata-se de uma estratégia muito mais astuta: cooptar religiosos em vez de assassinar padres e freiras e confiscar igrejas — esta última feita pelo regime republicano espanhol e por seus partidários trotskistas e anarquistas de esquerda, algo que não gerou absolutamente nenhum grito de protesto por parte de seus devotos defensores progressistas e social-democratas ao redor do mundo.</p>
<p>Esta distinção nos objetivos — totalitarismo brando vs. radical — também é refletida na acentuada diferença entre as estratégias e dos meios utilizados.  Os comunistas, ao menos em sua clássica fase leninista, ansiavam por uma revolução violenta e apocalíptica que destruiria o estado capitalista e levaria à ditadura do proletariado.  Já os mencheviques — social-democratas ou neoconservadores —, fieis ao seu ideal &#8220;democrático&#8221;, sempre se sentiram um tanto desconfortáveis com a ideia de revolução, preferindo muito mais a &#8220;evolução&#8221; gradual produzida pelas eleições democráticas.  O estado deve ser totalmente aparelhado por intelectuais partidários e simpatizantes, de modo a garantir a continuidade da longa marcha gramsciana da conquista das instituições culturais e sociais do país.  Daí a desconsideração pelos gulags e pela revolução armada.  Por isso o desaparecimento de seus primos (e concorrentes) bolcheviques não ter sido lamentado pelos social-democratas.  Muito pelo contrário: os social-democratas agora detêm o monopólio da marcha &#8220;progressista&#8221; da história rumo à Utopia.</p>
<p>O que me traz de volta à minha &#8216;Resposta&#8217; sobre o porquê da histeria da esquerda progressista: ela se torna histérica sempre que percebe a ameaça de uma pequena reversão na Inevitável Marcha da História.  Ela se torna histérica quando visualiza alguns empecilhos e, principalmente, retrocessos nesta sua inexorável marcha, retrocessos estes que sempre são rotulados, obviamente, de &#8220;reações&#8221;.  Na visão de mundo tanto de comunistas quanto de social-democratas, a mais alta — desde que &#8220;progressista&#8221; — moralidade é se mostrar não apenas um defensor, mas também, e principalmente, um entusiasmado fomentador da &#8216;inevitável próxima fase da história&#8217;.  É ser a &#8220;parteira&#8221; (na famosa expressão de Marx) desta fase.  Da mesma forma, a mais profunda, se não a única, imoralidade é ser &#8220;reacionário&#8221;, ser alguém dedicado a se opor a este inevitável progresso — ou, pior ainda, alguém dedicado a fazer<em>retroceder</em> a maré, a restaurar costumes enraizados, a &#8220;atrasar o relógio&#8221;.</p>
<p>Este é o pior pecado de todos, e ele gera todo este frenesi justamente porque qualquer retrocesso bem-sucedido colocaria em dúvida aquele que é o mais profundo e o mais inquestionavelmente aceito mito &#8220;religioso&#8221; da esquerda progressista: a ideia de que o progresso histórico rumo à sua Utopia é inevitável.</p>
<p>Trata-se, no mais profundo sentido, de uma guerra não apenas cultural e econômica, mas religiosa.  &#8220;Religiosa&#8221; porque social-democracia/progressismo de esquerda é uma visão de mundo passional, uma &#8220;religião&#8221; no mais profundo sentido, pois guiada unicamente pela fé: trata-se da ideia de que o inevitável objetivo da história é um mundo perfeito, um mundo socialista igualitário, um Reino de Deus na Terra, seja este deus &#8220;panteizado&#8221; (sob Hegel e os adeptos do Romantismo) ou ateizado (sob Marx).</p>
<p>Esta é uma visão de mundo em relação à qual não deve haver concessões ou clemência.  Ela deve ser contrariada e combatida veementemente, com cada fibra de nosso ser.</p>
<p>Quem vai vencer essa guerra?  Não se sabe.  De que lado está a maioria da população?  Certamente perdida, disponível para quem chegar primeiro.  A maioria está confusa, vagando de um lado para o outro, dividida entre visões de mundo conflitantes.  Ela pode pender para qualquer lado.  Durante suas inúmeras batalhas faccionárias dentro do movimento marxista, Lênin certa vez escreveu que há dois grupos batalhando, cada um formado pela minoria da população, sendo que a maioria está no centro, e é formada justamente pelas pessoas confusas, às quais ele se referiu como O Brejo.  A maioria da população hoje está confusa e constitui O Brejo; estas pessoas estão no terreno no qual a maioria das batalhas será disputada.  E a metáfora é corretamente militar.  A batalha iminente é muito mais ampla e profunda do que apenas discutir alíquotas de impostos.  Trata-se de uma batalha de vida e morte pelo formato do nosso futuro.  Daí se compreende o frenesi que acomete a esquerda sempre que uma medida &#8220;reacionária&#8221; parece ser favorecida pela sociedade.</p>
<p>A esquerda progressista não se importa muito com — na verdade, ela até gosta de — pequenos revezamentos de poder: uma década de governos abertamente progressistas, nos quais a agenda esquerdista é avançada, seguida de alguns anos de governo &#8220;oposicionista&#8221; ou &#8220;conservador&#8221;, no qual há apenas uma consolidação ou simplesmente uma redução na velocidade do avanço.  O que ela realmente teme é a perspectiva do conservadorismo se tornar<em>reacionário</em>, no sentido de realmente fazer retroceder alguns ganhos &#8220;progressistas&#8221;.  É isso que a apavora.  Daí a histeria em relação a Franco e a Pinochet; daí o linchamento de Joe McCarthy, que realmente ameaçou ser bem-sucedido em fazer recuar não apenas os comunistas, mas até mesmo os progressistas e social-democratas.  Ameace retroceder &#8220;direitos&#8221; obtidos por grupos de feministas, de gays, de negros, de desarmamentistas, de funcionários públicos, de sindicalistas ou de qualquer outro do ramo vitimológico, e você verá o que é uma fúria progressista.</p>
<p>Portanto, o combate requer, principalmente, coragem e nervos para não ceder e não se dobrar perante as totalmente previsíveis reações caluniosas e difamantes dos oponentes.  Acima de tudo, o objetivo <em>não</em> deve ser o de se tornar querido e bem aceito por progressistas ou pela Mídia Respeitável.  Tal postura irá gerar apenas mais rendição, mais derrotas.  Igualmente, o objetivo não é apenas o de fazer retroceder o estado leviatã, sua cultura niilista e estas pessoas que querem se apossar do estado e impor sua agenda sobre nós.  O objetivo tem de ser a eliminação completa e irreversível deste monstruoso sonho de um Perfeito Mundo Socializado gerido por &#8220;pessoas de bem&#8221;.</p>
<p>Que a reação ocorra, que os &#8220;direitos&#8221; sejam retrocedidos, que esta gente recue, entre em órbita e finalmente perceba que, na realidade, sua religião é maléfica.</p>
<p>_____</p>
</div>
<div><a id="ctl00_ContentPlaceHolder1_lnkAuthor" href="http://mises.org.br/SearchByAuthor.aspx?id=76&amp;type=articles">Murray N. Rothbard</a> (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.</div>
<div></div>
<div>FONTE: <a href="http://mises.org.br/Article.aspx?id=1292" target="_blank">Instituto Ludwig von Mises Brasil</a>.</div>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>O Abominável Homem do Minhocão</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Nov 1996 02:00:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Áudio]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[Universidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de passar vinte anos escondido da repressão militar na rede de esgoto do campus universitário, professor de sociologia volta à labuta..
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</ol>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[
<p>Antônio desapareceu em meados de 1974. Era professor do departamento de Ciências Sociais e foi visto pela última vez após um alarme falso, no qual se afirmou que o exército e a polícia militar se preparavam para novamente invadir o campus da Universidade de Brasília. Vacilara terrivelmente quando, durante sua última aula, manifestara apoio e solidariedade aos movimentos de resistência armada contra o governo militar. Para seu azar, naquele dia infeliz, havia &#8220;boi na roça&#8221;: um alcagüete da polícia federal assistia à aula. Antônio nem sequer voltou para casa. Passou do Instituto Central de Ciências &#8212; o famigerado Minhocão &#8212; para o esquecimento&#8230;</p>
<p>20 de março de 1994, 20h:30min.: No subsolo do Minhocão, após uma aula noturna, Lisane, estudante de história, caminha em direção à escada. Ao passar em frente ao restaurante Natural, alguém a retém pelo braço. Lisane sente o cheiro, volta-se, grita e, por fim, desfalece. É encontrada por um segurança, minutos depois, ainda desacordada.</p>
<p>27 de março de 1994, 02h:05min.: Oswaldo, segurança da UnB, está a postos, dentro de sua guarita na entrada norte, assistindo à TV. Repentinamente um estranho ser, coberto de pêlos, sujo e hediondo invade a guarita. Antes que Oswaldo tenha qualquer reação, o monstruoso homem &#8212; parece um homem &#8212; o golpeia na cabeça com a TV portátil. O segurança desmaia. Quando volta a si, não encontra a marmita. Na TV passa o filme A Volta dos Mortos Vivos.</p>
<p>Estes não foram acontecimentos isolados. Desde 1976, ocorreram inúmeros encontros com o Abominável Homem do Minhocão. A diferença é que em todo esse tempo ele jamais surgiu duas vezes num único mês. E foi a primeira em que ele roubou comida. É certo que muito se especulou sobre a consistência e veracidade de tais narrativas. Dizia-se que tudo aquilo era um chiste, e que, na tentativa de eludir uma maior preocupação com a segurança interna do campus, inventava-se toda sorte de causos. Mas o que não era do conhecimento geral, senão um fato compartilhado por poucos, era a enorme pegada deixada pela criatura junto às vítimas. Uma pegada com cheiro de merda. Um horror.</p>
<p>12 de abril de 1996, 19h:40min.: Eunice, professora de biologia, caminha pelo subsolo sul do Minhocão. De repente, ela sente uma presença. Amedrontada, olha ao redor mas nada vê. Acelera o passo. Logo adiante, Eunice sente um forte mau cheiro e estaca. Volta-se novamente para trás e arregala os grandes olhos verdes que giram nas órbitas:</p>
<p>&#8220;Antônio!!&#8221;</p>
<p>&#8220;Eunice?!&#8221;</p>
<p>&#8220;É você mesmo, Antônio?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sou eu sim, meu bem&#8230;&#8221;</p>
<p>Abraçam-se. Ela, na ponta dos pés, enlaça o pescoço dele com os braços, que se sujam com os fétidos cascões de sua nuca. Ele a cinge pela cintura, deixando manchas escuras na sua saia amarela. Beijam-se na boca ternamente. Os bigodes e a barba de Antônio, assim como os pêlos dos seus braços, estão duros como palha de aço. Eunice sente seu hálito de esgoto.</p>
<p>&#8220;Ah! É você mesmo, meu querido&#8230;&#8221;</p>
<p>Ela o conhecera exatamente um ano, dois meses e treze dias antes de seu desaparecimento. Amaram-se desde o princípio. Ela se tornara professora na UnB para ficar junto dele.</p>
<p>&#8220;Mas afinal, onde é que você tava?&#8221;</p>
<p>Antônio nunca fora adepto da toalete. Por isto a namorada não o estranhava neste sentido. Até gostava.</p>
<p>&#8220;Por aí&#8230; por aí&#8230;&#8221;</p>
<p>Quando o Abominável Homem do Minhocão foi avistado pela primeira vez, Eunice não se sensibilizou&#8230; Pensou que era apenas mais um boato do tipo &#8220;a anistia vem aí&#8221;. Um dia, lendo por acaso um relato sobre as antigas culturas andinas, deu com um nome familiar: Sacharuna. Era assim que um colega do basquete, um peruano, tratava Antônio durante os treinos. Queria dizer: o senhor das montanhas, o pé-grande da América do Sul. Leu mais sobre o assunto. No Canadá e norte dos EUA, chamava-se Sasquatch. No Himalaia, Yeti ou O Abominável Homem das Neves. Eunice ficou encucada: aquela criatura do minhocão&#8230; seria ele?</p>
<p>&#8220;Como assim por aí?&#8221;, perguntou espantada. &#8220;E por que você tá largado desse jeito? Vem comigo!&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, Eunice! Os milicos&#8230; eles&#8230; eles vão me pegar!!&#8221;</p>
<p>Agora sim ela se sensibilizou. Quase chorou.</p>
<p>&#8220;Meu Deus, que absurdo!&#8221;, e olhou-o solícita. &#8220;Antônio, desde 84 que nós temos presidentes civis, eleições diretas&#8230; Já tivemos até impeachment! Em que maldito buraco você se meteu?&#8221;</p>
<p>Ela o levou pra casa. Deu-lhe banho, roupas e sapatos novos &#8212; tamanho 52 &#8211;, cortou-lhe os cabelos, as unhas, fez-lhe a barba. Tornou-o reconhecível de novo. Exceto pelo cheiro, felizmente. E ele estava deslumbrado. Não acreditava que passara mais de vinte anos nos esgotos do Minhocão. Acabara o comunismo na União Soviética &#8212; acabara a União Soviética! &#8212; não havia mais o muro de Berlim e havia Mac Donald&#8217;s na China&#8230; Todos tinham um computador pessoal e cartões magnéticos&#8230; Sim, ainda havia fome, miséria e injustiça&#8230; Mas, meu Deus, quantas transformações! E ele perdera vinte anos de vida! Tudo por causa dum relógio russo, comprado em Cuba, que usara todo aquele tempo e cujo ponteiro mal se movia. Triste, muito triste.</p>
<p>Eunice fez o que pôde para convencê-lo de que ainda era jovem e de que tinha toda uma vida pela frente. Fê-lo assistir &#8212; para que se acalmasse e se reintegrasse ao mundo &#8212; TV a cabo durante cinco dias inteiros. Por fim, disse-lhe que o melhor que tinha a fazer era recuperar sua cadeira de professor. Logo que superou a depressão &#8212; quebrando a TV &#8212; Antônio seguiu os conselhos de Eunice. Foi recebido na UnB como herói. (Ninguém parecia recordar que ele encarcerara a si próprio.) Ganhou uma estátua ao lado da de John Lennon [1] &#8212; &#8220;Meu Deus, ele morreu?!!&#8221; &#8212; uma estátua enorme, com pés enormes. Ele estava novamente feliz.</p>
<p>Para reacostumar-se com o trabalho, recebeu a cadeira de Introdução à Sociologia. Na sala, um grande número de alunos de direito e de relações internacionais, todos calouros. Achou que o melhor a fazer naquela primeira aula seria discorrer sobre cidadania e, para isto, seria necessário abordar aqueles importantes fatos sócio-políticos dos anos 60 e 70.</p>
<p>&#8220;Lá vem a Abominável Ratazana dos Esgotos&#8221;, disse alguém logo que ele entrou.</p>
<p>Antônio tentou ignorar a provocação dando início à aula:</p>
<p>&#8220;Alguém sabe qual foi o acontecimento mais marcante neste país entre as décadas de 60 e 70?&#8221;</p>
<p>&#8220;Um idiota que se perdeu nos esgotos da UnB?&#8221;</p>
<p>Risadas e mais risadas. Antônio impacientou-se:</p>
<p>&#8220;Não estou aqui para brincadeiras. Seus pais, tios e avós passaram por maus momentos nessa época e vocês não estão nem aí&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Sou bisneto do general Médici!&#8221;, disse um.</p>
<p>&#8220;Meu pai era do DOI-CODI!&#8221;, disse outro.</p>
<p>Mais risadas. Assovios.</p>
<p>Antônio explodiu:</p>
<p>&#8220;Olha aqui, seus burguesinhos imbecis, vocês são muito pueris pra entender o sofrimento pelo qual muita gente passou naqueles duros anos. Vocês jamais imaginariam, por exemplo, a loucura que eu vivi&#8230;&#8221;</p>
<p>Uma garota levantou-se e dirigiu-se até a porta.</p>
<p>&#8220;Onde você vai?&#8221;, berrou Antônio. &#8220;Eu ainda não terminei&#8221;.</p>
<p>&#8220;Tenho mais o que fazer além de ficar ouvindo um professor histérico me chamar de burguesinha imbecil!&#8221;</p>
<p>O professor pôs-se furibundo. Via tudo embaçado. Estava fora de si. A sala ficou repentinamente silenciosa, ninguém parecia respirar. Ele caminhou com suas grandes e sonoras passadas na direção da garota, que ficou paralisada. Extasiados, alguns alunos esperavam presenciar um homicídio. &#8220;Um patricinhicídio&#8221;, contaram mais tarde. Antônio apenas passou por ela e saiu pela porta. Precisava encontrar Eunice. Aquilo era o fim da picada. Os alunos estavam mais mudados que a própria Rússia! Era difícil de suportar.</p>
<p>Quando chegou no apartamento de Eunice, na Colina, foi direto pra cozinha beber um copo d&#8217;água. Precisava se acalmar. Ao terminar, ouviu uns gemidos vindos do quarto. Foi-lhes no encalço. Eunice estava nua, sentada sobre outro homem, também nu.</p>
<p>&#8220;Eunice!!&#8221;, suspirou Antônio.</p>
<p>&#8220;Antônio! O que é que você tá fazendo aqui a esta hora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Quem é esse cara, Eunice?&#8221;, balbuciou ele, ignorando a pergunta.</p>
<p>&#8220;Uê, Antônio&#8221;, começou ela, metendo-se sob as cobertas. &#8220;É o Marcos, meu marido.&#8221;</p>
<p>&#8220;Marido?!!&#8221;</p>
<p>&#8220;É claro. Você não achou que eu ia te esperar esse tempo todo, não é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas eu não sabia&#8230;&#8221;</p>
<p>O marido levantou-se:</p>
<p>&#8220;Eu estava viajando e cheguei hoje&#8221;, disse, enrolando-se num lençol. &#8220;Muito prazer, a Eunice me falou muito a seu respeito&#8221;, e estendeu a mão.</p>
<p>Antônio apertou aquela pequena mão involuntariamente. Sua cabeça estava longe, muito longe.</p>
<p>&#8220;Desculpe, Eunice&#8221;, disse ele. &#8220;Eu preciso sair&#8221;, e saiu.</p>
<p>&#8220;Sujeito esquisito&#8230;&#8221;, admirou-se o marido.</p>
<p>1° de maio de 1996, 13h:02min.: Antônio arrasta-se pela tubulação de esgoto sob o restaurante Natural, no subsolo norte do Minhocão. Sente-se novamente em casa, de volta ao útero materno. Longe de todo absurdo e do ramerrão da superfície. Está procurando o Topo Gigio, cujo desaparecimento o fizera abandonar aquele tranqüilo lugar. Topo Gigio é o rato a quem ensinou a roubar e a trazer-lhe comida da despensa do Natural. Sim, pois como alguém sobreviveria tanto tempo naquele mundo subterrâneo? Como no mundo superficial? Tragando merda?</p>
<p><small>(Conto extraído de <a id="auto-A-Tragicom%E9dia-Acad%EAmica-31" href="http://blogdo.yurivieira.com/meus-livros/tragicomedia-academica/" target="_blank">A Tragicomédia Acadêmica</a> &#8211; Contos Imediatos do terceiro grau.)</small></p>
<p><small> </small></p>
<p><small>[1] Caro leitor, atenção: realmente existe uma estátua do John Lennon, junto ao Bandejão, no Campus Darci Ribeiro &#8211; UnB.<br />
</small></p>
<p></p>

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		<title>A Bacante da Boca do Lixo</title>
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		<pubDate>Tue, 16 Aug 2005 16:15:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Todo aspirante a escritor que se preze já leu e já desejou ser Henry Miller. Para quem tem a cabeça de cima cheia de hormônios, a de baixo cheia de idéias e o quarto entulhado de literatura, nada mais atraente do que aquela vida intelectovagabunda com mil e um personagens fascinantes e uma mulher pirada para amar. To fuck, diria Henry... (Onde falo do dia em que assisti a uma peça do Zé Celso e etc.)
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			<content:encoded><![CDATA[
<p>Quase todo aspirante a escritor que se preze já leu e já desejou ser Henry Miller. Para quem tem a cabeça de cima cheia de hormônios, a de baixo cheia de idéias, e o quarto entulhado de literatura, nada mais atraente do que aquela vida intelectovagabunda com mil e um personagens fascinantes e uma mulher pirada para amar. To fuck, diria Henry&#8230; Bem, a questão é que tive meu mais forte momento milleriano assim que deixei Brasília e voltei a São Paulo sem diploma, sem lenço e sem documento.</p>
<p>Eu e meu ex-sócio, o fotógrafo Dante Cruz, como estávamos sempre duros — a grana ia toda para nosso estúdio da Vila olympia — costumávamos freqüentar a Boca do Lixo e os arredores da Praça Roosevelt, centrão paulistano, onde tudo é mais barato, mais excitante, mais concreto e, digamos, mais Role Playing Game. Foi por ali, em frente ao Love Story, vulgo Quatro e Meia (a hora em que o bicho começa a pegar) que, em 1997 ou 1998, conheci Duda. Para quem não sabe, o Love Story é aquela boate onde toda a fauna noturna se encontra: executivos japoneses em viagem de negócios, jornalistas sabichões, prostitutas a trabalho ou não, ricos do interior aventurando-se na megalópole, clubbers experimentando a noite, cafetões &#8220;de olho&#8221;, traficantes com tudo em cima, playboys à caça, modelos baladeiras, estudantes universitários, excluídos do Café Photo, enfim, artistas e pseudos, tarados e mafiosos, vampiros e deusas. Tudo evidentemente temperado pelo ar apocalíptico que só São Paulo sabe ter. Um local onde se deve simplesmente dançar, sem planejar conquistas românticas, afinal, ou as mulheres são muito donas de si ou, pelo contrário, já tem dono, e daqueles bem barra-pesada.</p>
<p>Pois é, eu e o Dante já havíamos circulado — com a ajuda de um &#8220;conhecido&#8221; dos mais suspeitos e super integrado na área — por diversos night clubs (alguns com mulheres nuas sobre as mesas a esfregar a bunda nos clientes, tipo Duke Nuken 3D) e, no final das contas, o negócio era mesmo o Love Story, que é baixaria, mas baixaria estilizada, bacana. E, conforme dizia, lá estava a Duda: linda, gatinha, &#8220;gotozinha&#8221; e, puts, alone. ¿Esperando alguém? Bom, seria necessário indagar-lhe, mas um tímido escorpiano não sabe por onde começar, sabe apenas, depois de um contato inicial, prosseguir e apertar, parlare e apertar, apertar bastante. (&#8220;Quem muito abraça, pouco aperta&#8221;, dice mi madre.) Comentei com o Dante: &#8220;Meu, olha essa figura: meu tipo, meu tamanho, gatíssima.&#8221; É óbvio que eu estava cometendo pela milésima vez o velho grande erro: estava dizendo ao meu amigo mais malandro, mais forte, mais alto e, o pior, de olhos verdes, que havia um alvo às duas horas, velocidade aproximada de zero nós. &#8220;Vai lá falar com ela&#8221;, disse ele. &#8220;Agora?!&#8221; &#8220;É, agora, ¿qual o problema?&#8221; &#8220;Não, cara, não tenho a manha, ¿saca?&#8221; &#8220;Afirmativo&#8221;, retrucou ele, ou talvez tenha dito &#8220;Roger that&#8221;, sei lá. A questão é que, mal olhei para o outro lado, quando me voltei para novamente falar com ele, o cara já estava lá de papo com a figura. Fiquei pê da vida: ele iria furar a fila de novo! Em que tenebrosa hora eu decidira dividir casa e estúdio com esse cara&#8230; Assim que ela riu de um gracejo qualquer emitido pelo sacripanta — dentes muito brancos, sorriso delicioso — virei novamente o rosto para o outro lado, fulo de raiva. Comecei a maquinar pensamentos terríveis, bambu sob as unhas, prego sob o pneu, areia dentro da Nikon, bagulho na privada, etc., aquele gênero de magia negra que se faz mentalmente contra um traidor. Quando eu já estava assistindo ao funeral dele em minha tela interior, me tocaram o ombro. Virei-me: era ela! &#8220;¿É verdade que você é escritor?&#8221;, disparou. Acho que fiquei roxo. Embora eu já tivesse escrito meu primeiro livro, ainda não o havia publicado, e isso me deixava morto de vergonha de assumir a pecha de escritor. &#8220;Bom, na verdade só escrevi um livro&#8230;&#8221; &#8220;Seu amigo me disse que você escreve super bem.&#8221; Carácoles! Eu xingando o cara e ele cantando a garota em meu nome! E ela: &#8220;¿Você gosta do Pessoa?&#8221; &#8220;¿Do Fernando Pessoa?! Puts, curto muito!&#8221; E ela: &#8220;Tão abstrata é a idéia do teu ser/ Que me vem de te olhar, que, ao entreter/ Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,/ E nada fica em meu olhar, e dista/ Teu corpo do meu ver tão longemente,/ E a idéia do teu ser fica tão rente/ Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me/ Sabendo que tu és, que, só por ter-me/ Consciente de ti, nem a mim sinto&#8230;&#8221;, e riu: &#8220;nossa, esqueci o resto&#8221;. E eu, já despirocado: &#8220;E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto/ A ilusão da sensação, e sonho,/ Não te vendo, nem vendo, nem sabendo/ Que te vejo, ou sequer que sou, risonho/ Do interior crepúsculo tristonho/ Em que sinto que sonho o que me sinto sendo&#8221;. Pronto, estávamos fodidos, rindo um da cara do outro. Bom, eu pelo menos, porque era linda, não devia ter mais de vinte e um anos de idade, um olhar asfixiante e, sobretudo, porque declamou para mim um dos meus poemas prediletos.</p>
<p>&#8220;¿Vocês não querem ir a uma festa comigo?&#8221;, perguntou logo que o Dante se aproximou. Claro que queríamos e, antes de chegarmos ao carro, ela tomou minha mão. Foi neste momento que sua vida cheia de contrastes começou a entrar na minha alma. Ela parecia uma fada, uma mulher recém desabrochada, mas tinha a palma da mão áspera, calejada por algum trabalho manual. Ela não era de porcelana, era de verdade. Encarei-a com uma ternura além da paixão, porque parecia alguém que se perdera e que eu, também perdido, agora encontrava.</p>
<p>No carro, nos disse seu nome: Duda. Também me contou que era de Santo André e que, após ter sido expulsa de casa pelos pais (não disse então o porquê), dividia com duas amigas um flat. Pensei que a tal festa seria lá, mas, mal percorremos dois ou três quarteirões, chegamos ao local. &#8220;Pode parar por aqui&#8221;, avisou. Caminhamos, pois, de mãos dadas pela calçada, enquanto eu ia olhando para cima, tencionando descobrir em qual apartamento daquele antigo prédio estaria rolando a tal &#8220;festa&#8221;. Mas ela estacou diante de um porteiro de boate, um verdadeiro Mike Tyson de gravata, e o saudou toda dona de si: &#8220;Eles estão comigo&#8221;, disse, e nos conduziu para dentro de mais um night club. Em meio à penumbra, subimos escadas com frisos de neon violeta e, lá em cima, vimo-nos metidos em outra casa noturna típica da região: pista de dança, passarela para dançarinas, bar, mesas platinadas, fumaça de gelo seco, estroboscópicas, globo no teto e demais parafernálias à la John Travolta. As cores e a decoração eram das mais cafonas. Estranhei: &#8220;¿É aqui a festa?&#8221; &#8220;É!&#8221;, respondeu lacônica, e saiu a cumprimentar seus conhecidos. E eram vários, incluindo o barman e alguns garçons. Eu e o Dante nos sentamos numa mesa em frente à passarela e nos encaramos um tanto aturdidos. Não havíamos escapado da fauna noturna, como imagináramos a princípio, para nenhum ambiente mais acolhedor. Lá estava a réplica dançante das mesmas criaturas do Love Story, embora um tanto mais bregas, mais reais. Mas ao menos havia a Duda, que não tardou em reaparecer, me levar para um canto próximo ao bar, me beijar e perguntar: &#8220;¿Você já tem uma musa?&#8221; Não fosse ela uma autêntica pretty woman, dentro de um excitante vestido, e aquela pergunta teria soado ridícula. &#8220;Ainda não&#8221;, respondi. &#8220;Tem sim&#8221;, disparou, tornando a me beijar a boca, o que evidentemente me deixou inspirado. Quando eu já ia me empolgando, me levou de novo pela mão até a mesa. &#8220;Tenho uma surpresa pra vocês!&#8221;, acrescentou, afastando-se em seguida, toda lépida. Incrível como um homem pode tornar-se um idiota na mão de uma dessas figuras. E ela não parava de saltar de um lado ao outro, cheia de mesuras e sorrisos, conversando ora com este, ora com aquele numa velocidade incrível, sem deixar de atirar olhares e sorrisos supervisores na nossa direção. Parecia elétrica. &#8220;Deve ter cheirado&#8221;, pensei. Dali a instantes, meteu-se na pista, desapareceu. Eu e o Dante ligamos então o &#8220;foda-se&#8221;, pedimos uísque e passamos a nos aclimatar, observando a paisagem. A pista fervilhava. Lá estavam as Monas, Junes, Anaïs Nins e todas essas figuras capazes de tirar a razão de um homem. Algumas, claro, em seus rutilantes vestidos longos, pareciam ter saído de uma daquelas porno-chanchadas da antiga Sala Especial da TV Record. O DJ alternava sons eletrônicos com discoteque, que parecia ser o estilo predileto dos michês e garotas de programa. Levado por uma batida mais vibrante, decidi dançar, mas, justamente ao chegar à pista, o som foi interrompido e o DJ anunciou certo &#8220;show&#8221;. Meio sem graça por ter sido frustrado na primeira tentativa de elaborar, naquele ambiente, minha famosa &#8220;dança raver-sioux do acasalamento&#8221;, voltei à mesa. O Dante, claro, já havia puxado conversa com a garota da mesa ao lado quem, apesar de não parecer lá muito disposta, preferiu dar um crédito ao moço dos olhos verdes. E o show começou.</p>
<p>No centro da pista de dança havia uma passarela e, em sua extremidade, uma abertura. Dali surgiu Duda vestida de colegial. Era como o uniforme do colégio de freiras onde estudaram minhas irmãs, o Emilie de Villeneuve, mas estilizado, as saias mais curtas, as pernas longas e torneadas à mostra. Ela parecia uma dessas personagens de animês, uma ninfeta desses hentais, e os homens simplesmente ficaram loucos. Ela desabotoou a parte superior da camisa branca deixando visível uma tentadora amostra grátis. Ereções linguais percorreram viroticamente a assistência. E ela dançava como a bailarina dos meus sonhos adolescentes, a culpada por tantas poluções noturnas. Eu estava assombrado.</p>
<p>&#8220;Meu, ¿você acredita nisso?!&#8221;, perguntou Dante, me cutucando.</p>
<p>&#8220;Tão abstrata é a idéia do MEU ser que me vem de olhá-la&#8221;, comecei.</p>
<p>&#8220;Hã?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nada não&#8230;&#8221;</p>
<p>E, de fato, ela foi paulatinamente se despindo. Minha nova musa era uma stripper! Eu estava seriamente enrascado. Seria difícil retomar a leitura do Livro de Urântia no dia seguinte. Meu Jesus Cristinho&#8230;</p>
<p>&#8220;Uhuuuuu!!&#8221;, berravam ao redor, inclusive as mulheres. Algumas bichas, então, estavam em êxtase. Sempre me admirei com essa empolgação que mulheres deslumbrantes causam na viadagem. &#8220;Arrasou!! Arrasou!!&#8221;, uivavam.</p>
<p>E ela ficou apenas de sutiã, calcinha, meias brancas — na altura dos joelhos — e sapatinho colegial preto. Fazia caras e bocas, reagindo com expressões indescritíveis aos gritos da platéia. A certa altura, parou diante da nossa mesa, ainda na passarela, sorriu, virou-se de costas, inclinou o tronco para frente, sempre em mil contorções rítmicas, e retirou o sutiã, retendo os seios nas mãos em concha. Eu, que sou homem, portanto um idiota, fiquei com a cabeça de baixo às voltas com mil &#8220;pensamentos&#8221;. Por fim, colocou-se ereta e, ainda a dançar, languidamente, foi tirando a calcinha. Ao terminar voltou-se súbita, no bit da música, de frente para a platéia, que veio abaixo: ela era maravilhosa! Permanecendo apenas de meias e sapatos, olhou na direção da nossa mesa e, com um gesto rápido e zombeteiro, nos premiou com sua calcinha e sutiã, que me atingiu em cheio o rosto. Fiquei tão estupidificado que minha velha paranóia de estar sendo enganado por algum programa de câmera escondida retornou.</p>
<p>&#8220;Isso não é uma sacanagem armada por vocês, ¿né?&#8221;, perguntei ao Dante.</p>
<p>Ele estava com a boca tão aberta e os olhos tão vidrados que nem notou o Yuri, o autor deste relato. Era tudo real mesmo. E se ele, que foi assistente no estúdio Abril de diversos fotógrafos da revista Playboy, se ele, que trabalhou nas fotos de nu da Luíza Brunet, estava embasbacado, é porque o &#8220;show&#8221; foi mesmo um show sem aspas.</p>
<p>&#8220;¿Que será que vai rolar agora?&#8221;, pensei comigo, enquanto Duda recolhia suas roupas e, aos pulos, corria, feito quem acaba de &#8220;fazer arte&#8221; — no sentido sapeca da expressão — para dentro dos bastidores.</p>
<p>Quando voltamos ao planeta Terra e retomamos o contato com Houston, Dante e eu pedimos outro uísque. Duplo. Como nos filmes, afinal, tudo podia rolar. Menos, é claro, perder a garota para ele, que, aliás, talvez se sentisse agora um pouco arrependido por me entregar a figura de bandeja. Parecia ensimesmado.</p>
<p>&#8220;Não fica assim, meu, ela tem as mãos ásperas&#8221;, eu disse.</p>
<p>&#8220;¿Como é que é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nada não&#8221;, e ri.</p>
<p>E, instantes depois, lá estava ela, Duda, com o mesmo vestido que usava ao chegar, os cabelos molhados, sorrindo ironicamente, vindo em nossa direção, enquanto, para delírio da galera, rolava David Bowie. A melodia, a batida, combinava com a cena, mas o título — Dead Man Walking — não tinha nada a ver. Era, sim, a Vida walking.</p>
<p>&#8220;&#8230;ao entreter os meus olhos nos teus, nem a mim sinto.&#8221;</p>
<p>Mas aconteceu o inesperado. Quando ela estava a uns três metros da nossa mesa, um braço masculino — daqueles bem perigosos, ¿saca? — a reteve. Ela olhou para o figura e deu um sorriso amarelo. Ele a abraçou e a beijou nos lábios. Aquilo foi um iceberg no meu Titanic. Ela não parecia nada empolgada, mas correspondeu. Caramba, pensei, só faltava além de stripper ela também ser uma prostituta e aquele, o &#8220;dono&#8221; dela. Era um figura alto, de cabelos compridos, forte e com cerca de trinta anos de idade. Pelo jeito, acabara de chegar e não fazia a menor idéia de que havíamos chegado juntos. Após algumas palavras, levou-a pela mão até uma mesa do outro lado do club. Ficamos órfãos assistindo à cena.</p>
<p>&#8220;¿E agora?&#8221;</p>
<p>Dante riu: &#8220;Dançou, papudo.&#8221;</p>
<p>Já que estávamos ali mesmo, de graça, decidimos ficar e curtir o resto da noite. De qualquer forma, logo amanheceria. Bebemos, dançamos, trocamos impressões sobre as figuras que por ali circulavam, especulando sobre suas vidas. ¿Onde morariam? ¿Como ganhariam a vida? ¿Em que cidade teriam nascido? ¿Que crimes teriam praticado? ¿Que virtudes manteriam intactas? ¿Assistiriam ao Jornal Nacional? Por mais que tentássemos encontrar motivações nobres naqueles olhares altivos, gestos majestáticos, gargalhadas fátuas, o fim daquilo tudo haveria de ser a mesma solidão profunda e escura que tantas vezes também nos encontrava. Era óbvio que havia uma hierarquia oculta ali, os traficantes mais poderosos, os cafetões mais foderosos, as mulheres mais fodíveis e, logo abaixo, seus sequazes, êmulos, inimigos e fãs. Contudo, os &#8220;exploradores da noite&#8221; eram os únicos que pareciam buscar, com o olhar, algo além das aparências. Era fácil reconhecer quem estava ali tencionando simplesmente conhecer um outro mundo. Como nós mesmos. Já os seres autóctones eram pura paisagem, caças e caçadores. Ali não havia o mesmo clima descontraído do Love Story. Apesar das risadas e da dança, havia chumbo no ar. ¿Perceberiam o teatro que aquilo tudo era? ¿Teriam consciência do potencial trágico que aquele ambiente dava às histórias de suas vidas? Talvez não. Nós tampouco.</p>
<p>O club foi se esvaziando, as músicas se acalmando, a conta se expandindo. Decidimos ir embora. Nenhum sinal da Duda. Talvez já estivesse longe, dando o lindo fiofó àquele cretino. Levantei-me e fui ao banheiro — um lugar apertado, com cheiro de vômito e dois cheiradores de coca diante do espelho. Ao sair, eu a encontrei logo à porta.</p>
<p>&#8220;Yuri, me desculpa&#8230;&#8221;</p>
<p>Eu não sentia um pingo de raiva, mas estava desapontado.</p>
<p>&#8220;¿Quem é esse cara? Seu&#8230; ¿namorado?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ele paga o aluguel do meu flat&#8230;&#8221;, e sorriu com uma ponta de tristeza. Num relance, entendi a arapuca em que estava metida. E, embaraçada, estava ainda mais bonita. Com a mão, para vê-la melhor, afastei uma mecha de seus cabelos. Ela deu um pulo e me beijou. Ficamos abraçados por um minuto. Seu hálito era doce, seu cheiro&#8230;</p>
<p>&#8220;Eu escrevo algumas coisas&#8221;, disse, &#8220;uns poemas&#8221;. E voltou a me beijar. &#8220;Mas o que eu quero mesmo é ser dançarina. É minha lenda pessoal&#8221;, acrescentou.</p>
<p>&#8220;¿Lenda pessoal?&#8221;</p>
<p>&#8220;É, ¿você nunca leu Paulo Coelho? Meu, é muito bom!&#8221;, e sorriu com doçura.</p>
<p>Eu não sabia o que pensar daquela garota. Sabia Fernando Pessoa de cor, mas citava Paulo Coelho; era stripper, tinhas as mãos ásperas, o rosto e os lábios de seda. E, afinal, ¿qual o problema de se ter uma &#8220;lenda pessoal&#8221;? ¿No final das contas não era exatamente o mesmo que Victor Frankl chamava de &#8220;o sentido da vida&#8221;? ¿Não era aquilo que o fez sobreviver ao campo de concentração nazista e que a faria sobreviver àquela vida? Frankl escreveu: &#8220;Em épocas de crise, as pessoas se agarram a um sentido, a um significado. O significado é força. Nossa sobrevivência pode depender de buscá-lo e encontrá-lo&#8221;. Aliás, ¿minha &#8220;lenda pessoal&#8221; não era ser um escritor? Tudo bem, concedo: a beleza, a malícia infantil e a ternura de uma mulher nos faz conectar quase tudo&#8230;</p>
<p>&#8220;Olha, me liga&#8221;, disse, olhando furtivamente por cima do meu ombro. E, antes de dar um passo para trás, colocou um bilhete no bolso da minha calça. Ao mesmo tempo surgiu o tal &#8220;mantenedor&#8221; do flat. Fomos apresentados — eu era um &#8220;amigo da Ana Patrícia&#8221; — e ele apertou minha mão com a força de quem demarca seu território. Disfarcei uma engolida em seco. Eu, um duro, estava ferrado, precisava tirar essa garota dessa situação. No fundo, no fundo, tratava-se da velha história de &#8220;salvar&#8221; uma Maria Madalena. Para cada um de nós, há sempre a possibilidade dessa velha situação arquetípica. E, claro, o perigo de incorrer no erro henry-milleriano: ao invés de tirar a garota da sinuca, meter-se com ela na mesma enrascada, enquanto o &#8220;mantenedor&#8221; banca tudo. E, para nosso eterno desgosto, também a papa gostoso.</p>
<p>&#8220;Falô&#8221;, despediu-se o cara lenvando-a pela mão.</p>
<p>Não sei se eu e o Dante saímos do night club antes ou depois deles, mas os vimos lá fora. Já havia amanhecido, um dia gelado, e o contraste entre os vampiros que fogem da luz e os velhos madrugadores de regresso da padaria, cheios de olhares de reprovação, era algo cortante. Ela ainda acenou para nós, encarou o cabeludo e, ríspida, deu a ordem: &#8220;Vai lá buscar o carro, eu não vou andar isso tudo&#8221;. E o &#8220;demarcador de territórios&#8221; saiu com o rabo entre as pernas atrás do carro. E ela, sem que ele visse, ainda caminhou atrás dele por algum tempo, como uma sombra, macaqueando sua forma desengonçada de andar.</p>
<p>&#8220;Anda, idiota!&#8221;, gritou a doce menina, que, pelo visto, conhecia muito bem o poder da própria beleza. E a cena toda, ao invés de me causar repulsa, me seduziu ainda mais. Questões de ego. Amamos quem vence o vencedor. Leia de novo essas duas últimas frases. Em vista das circunstâncias, que ficarão mais claras, há para elas pelo menos três interpretações distintas, sendo uma delas superior às demais. Camões explica.</p>
<p>Durante a semana seguinte, não conseguimos nos encontrar. Não houve tempo. Tinha meu trabalho intelectual no estúdio — pintar paredes, levar filmes ao laboratório, digitar orçamentos, virar noites — e acabamos nos falando apenas ao telefone. Conversamos em três ou quatro ocasiões. Em cada uma delas, ficávamos no mínimo uma prazeirosa hora falando e rindo sabe lá Deus de quê. Ela era inteligente e tinha ótimo senso de humor. Era ariana, um dos meus fracos. Em nosso último contato, eu a convidei para sair no final de semana seguinte. Uma rave, talvez. Ela disse que só poderia sair se o tal fulano não aparecesse. Ficamos de nos falar e confirmar. E o fulano quebra-ossos-da-mão apareceu. Não saímos. Mas saí com o Dante e a Luar, namorada dele. Fomos ao Teatro Oficina assistir à montagem de As Bacantes, de Eurípedes, por obra de Zé Celso Martinez Corrêa, o &#8220;Guru do Cu&#8221;. Era justamente uma peça que li e reli trocentas vezes — tendo inclusive escrito a partir dela um conto-paródia, Penteu, o Pentelho — graças ao professor Marcos Motta, atualmente coordenador do curso de artes cênicas da UnB. Um cara do bem.</p>
<p>Para quem não conhece, o Teatro Oficina é uma estrutura das mais curiosas. Sua forma não tem nada a ver com o tradicional &#8220;palco italiano&#8221;. É antes como uma régua: estreito e compriiiiido. E o louco é que o palco acompanha toda a extensão desse compriiiiido. E em vários níveis, com atores sobre andaimes e mezaninos, dando um efeito caleidoscópico à coisa toda. Logo, a cena a que assistimos não é &#8220;a&#8221; cena, são &#8220;as&#8221; cenas. Sem falar que é possível, também para a platéia, ficar mudando de posição no correr da peça, indo para o outro lado do longo palco, para o mezanino e assim por diante. Quando não há diálogos, você se divide entre mil pontos de vista, entre as várias situações apresentadas. Logo, é possível assistir a uma mesma peça dez vezes e guardar dez peças diferentes na memória.</p>
<p>Bem, como eu dizia, fomos eu, o Dante e a Luar, uma figura linda, engraçada e &#8220;lunártica&#8221;. Na entrada fomos recebidos por taças de vinho, sempre abastecidas, o que já me causou ótima impressão, afinal, estávamos no encalço de Dionísio, de Baco. Sentamo-nos primeiro na platéia inferior, ao lado direito de quem entra. O ambiente, claro, era de festa, de bacanal. Eurípedes, dentre os antigos dramaturgos gregos o mais jovem, talvez aprovasse tudo o que veio a seguir. No fundo, As Bacantes é simplesmente a peça em que ele, ao testemunhar a decadência de Atenas — que já vivia sua fase secular e descrente —, expressa seu desgosto. Eurípedes, feito uma Hilda Hilst, retirou-se para a Macedônia, cu-de-judas da época, onde viveu recluso e criou essa tragédia sobre o cético e pentelho Penteu, rei de Tebas, o qual se burla daquele jovem que diz ser Dionísio e o manda prender. O jovem, que era de fato o deus, após mil e um avisos, que sempre precedem uma tragédia, não apenas põe a prisão abaixo como enlouquece todas a mulheres, permitindo que a própria mãe de Penteu o devore, com outras mulheres, feito um bando de animais selvagens. É, enfim, uma peça que, caso tivesse sido lida por Anás, Caifás e Pilatos, teria nos poupado de muitas amarguras.</p>
<p>E o Penteu do Zé Celso era um clone do Collor de Melo, e Dionísio, uma drag queen de plataformas e roupa-pele de strass e paetês que tudo cobria exceto o pau, que se expunha por uma grande fenda. Coisas do Guru do Cu. Talvez por eu já estar embriagado — minha conjunção Júpiter-Netuno me faz extremamente sensível a qualquer substância — nada me desagradou. Mas, pelas perguntas da Luar e do Dante, percebi que só quem havia lido a peça conseguia entender o que afinal se passava no meio de toda aquela agitação. Bem, talvez porque já estivessem também tão bêbados que mal conseguiam se equilibrar sobre o fio condutor da história. Não sei ao certo, eu precisaria assistir a tudo de novo com o cérebro intacto para emitir um juízo definitivo. Mas a questão é que, entendendo ou não o espírito da obra — que para mim é a &#8220;tragédia da descrença&#8221; — todos captavam ao menos o espírito de Dionísio, o patrono do teatro. A iluminação era excelente, assim como os efeitos de som, os figurinos, os atores e, claro, as bacantes eram umas garotas lindas. (Não sei se todas, como já disse o autor deste relato estava breaco.) Mas, enfim, tudo correspondia.</p>
<p>A certa altura, enquanto eu observava um discurso de Penteu à direita, começaram a puxar, pela centésima vez, a manga do meu casaco.</p>
<p>&#8220;Calma, Luar&#8221;, eu disse, &#8220;peraí que já te explico o que tá rolando&#8230;&#8221;</p>
<p>Mas a figura insistiu tanto que chegou a me fazer entornar um pouco de vinho.</p>
<p>&#8220;Ei!&#8221;, reclamei e, ao olhar à esquerda, dei de cara com uma &#8220;bacante&#8221;.</p>
<p>&#8220;Vem!&#8221;, dizia ela, suplicante, &#8220;vem comigo!!&#8221;. E eu: &#8220;¿Eu?! ¿Ir aonde?&#8221; Ela: &#8220;Pro palco! Por favor&#8230;&#8221;</p>
<p>A figura era uma gatinha e parecia preocupada. Tive a impressão de que ela corria o sério risco de ser colocada a ferros e de ser chicoteada após a peça caso não obtivesse sucesso em seu intento. Juro, fiquei com peninha. E como eu já estava mesmo mais pra lá do que pra cá, engoli o que havia sobrado da minha timidez — e do meu vinho —, e me deixei conduzir, de mãos dadas. Dante, ao perceber por que eu me levantara, não conseguiu evitar a gargalhada. Dava tapas na própria testa de tão divertido, afinal, ele era meu amigo havia vinte e dois anos — eu tinha 26 — e conhecia bem este narrador. Mal chegamos ao centro do palco — isto é, centro apenas no sentido transversal — e a figura, com uma rapidez espantosa, sumiu por trás de mim. Frações de segundo antes de eu sequer pensar em procurá-la, senti um peso a me desequilibrar: a bacante havia saltado nas minhas costas e me abraçava o quadril com as pernas, o pescoço com os braços. E o pior: ficava fazendo movimentos frenéticos para cima e para baixo com a clara intenção de me levar ao chão. Um tanto aturdido e confuso, cedi. Caí para trás, sobre ela, que continuava a me agarrar com todas as forças.</p>
<p>&#8220;Aiaiai&#8221;, era tudo o que conseguia pensar.</p>
<p>Subitamente, continuando com seu ataque feroz, ela arrancou meus óculos, colocou-os no bolso do meu velho paletó de caxemira e, tomando meu queixo com energia, puxou minha cabeça para trás, em sua direção. Pensei que fosse me degolar ou coisa assim, mas não: ela, que já estava com a alça de seu traje de bacante caída de lado, me oferecia um rígido, volumoso, pálido, pontudo e belo seio nu. Fiquei de cara. Olhei-a diretamente nos olhos.</p>
<p>&#8220;Relaxa&#8221;, disse sorrindo.</p>
<p>E eu relaxei, deixando-a colocar seu mamilo em minha boca. Tudo isso, obviamente, diante de centenas de pessoas, fato esse que me despertou, em conjunto com o vinho, a libido e o embaraço, um sentimentozinho de vingança. &#8220;¿Ah, é, espertinha?&#8221;, pensei, &#8220;então tá&#8221; e passei a sugar aquela beleza com vontade, circulando seu mamilo com uma língua frenética. Senti-o intumescer-se em minha boca. Olhei-a de relance, não vi seus olhos, mas pude perceber que mordia o lábio inferior. Depois voltei a fechar os olhos para melhor me concentrar. Ficamos os quatro ali um bom par de minutos: eu, ela, Dionísio e Deus, que não quis senão observar. Entrementes, rolava ao nosso redor um verdadeiro carnaval, com samba e tudo. E o mamilo da atriz pra lá de ereto. Por fim, a garota retirou minha cabeça dali cuidadosamente, procurou meus óculos, recolocou-os em meu rosto e, levantando-se, me reconduziu pela mão à platéia. Me encarava com um sorriso ao mesmo tempo lânguido, maroto e indignado. &#8220;Não contava com minha astúcia, né&#8221;, eu pensava, &#8220;o nerd chocou a desbundada&#8221;. Aliás, o Dante e a Luar também estavam de cara.</p>
<p>&#8220;Meu, ¿o que foi aquilo?!!&#8221; E riam.</p>
<p>&#8220;Seios do ofício&#8230;&#8221;, respondi.</p>
<p>Momentos depois, assistimos à batalha entre um casal de namorados e outra bacante. A atriz tentava arrastar o grandalhão para o palco a qualquer custo. O cara, diga-se de passagem, estava mais revoltado que a namorada, que, de fato, tentava acalmá-lo. A bacante saiu dali com as mãos abanando e, claro, veio na nossa direção. À nossa volta, temendo o rapto, a maioria do público estava tomada por risonha paranóia. Mas talvez houvesse algo de magnético em nosso descolado grupo. Pois desta vez foi a minha vez de rir da cara do Dante, que se deixou levar com um ar mais animado que contrafeito. Ele porém não teve a mesma sorte que eu: foi levado até o centrão do palco — centro longitudinal e transversal — onde diversas bacantes, sem se preocuparem com as roupas de &#8220;domingo&#8221; dele, lhe deram de beber, na boca, farta quantidade de vinho e leite, que ele precisou sorver em grandes e neuróticos haustos, para não se ver banhado por todo aquele líquido.</p>
<p>Enquanto essa e outras cenas rolavam, lembrei-me da Duda. Ela iria adorar assistir àquilo tudo. Aliás — pensei em meio a um esfuziante insight — ¡ela iria adorar era participar daquilo tudo!! ¡É óbvio!!! Ela tinha todo o cacife para fazer parte do elenco do Teatro Oficina: era linda, dançava com brilho, dominava as mínimas expressões do rosto, tinha culhões, era inteligente, bem-humorada e gostava de poesia e, vá lá, de literatura. Certamente poderia adaptar-se muito bem à atividade cênica e, quem sabe, descobrir em si mesma um talento inaudito. ¿Por que não? Eu tinha certeza de que Zé Celso, ao conhecer a biografia e o tipo da figura, iria acolhê-la. Bobo ele nunca foi. E o engraçado: neste exato momento dei de cara com o Zé Tirésias Celso, à minha frente, olhando na minha direção. Como interpretava um cego, percebi que seu procedimento técnico era fixar os olhos em algum ponto e assim permanecer durante cada uma das suas intervenções. Sentindo que eu o olhava diretamente no rosto, encarou-me. Não desviei o olhar — sempre fui bom nessa brincadeira. Na verdade, aproveitei para transmitir a mensagem: &#8220;Zé Celso, você vai contratar a Duda, vai contratar a Duda, vai contratar a Duda, a Duda, a Duda&#8230;&#8221; e ele, desafiador, me encarando. Até que chegou o instante em que, para acompanhar o roteiro, teve de se deslocar e dirigir-se a algum outro ator, com quem iniciou diálogo. &#8220;Ganhei&#8221;, pensei comigo.</p>
<p>À certa altura do segundo ato, após mais duas taças de vinho, separei-me da Luar e do Dante, e me dirigi ao mezanino, de onde assisti ao restante da peça. Parecia um lugar seguro, do qual as bacantes certamente não voltariam a me seqüestrar. Paranóia. Não queria correr o mesmo risco que o Caetano Veloso quem, semanas antes, havia sido despido em cena. Me haviam dito, no intervalo, que sempre deixavam alguém pelado e as roupas da vítima espalhadas ao longo de todo o palco. Num caso assim, eu não saberia como reagir. Não que eu pudesse me tornar violento — como o cara do outro lado do palco — mas&#8230; ¿e se eu ficasse de pau duro? Claro, né, um escorpiano bêbado, vai saber. A vergonha poderia desencadear algo inusitado.</p>
<p>&#8220;Muah! hahahahaha!&#8221;, gargalhava o viado do Dionísio, balançando o pinto para cima e para baixo, em seu arreganhado traje de strass, plumas e paetês.</p>
<p>Ali, inclinado sobre a tosca balaustrada, o olhar voltado para baixo, voltei a pensar na Duda. Estava mesmo apaixonado. Talvez ela não se mostrasse tão talentosa assim no futuro, talvez eu a idealizasse em excesso, talvez ela fosse mais insensata que corajosa. Não podia descartar a possibilidade de tê-la analisado tão somente com a cabeça de baixo. Mesmo assim, apesar de todas essas dúvidas, eu necessitava fazer algo para resgatá-la daquela vida. Eu conhecia a história de diversas amantes de homens ricos e poderosos. Eu sabia que a Duda não devia desgostar tanto assim do cara que a mantinha. Uma amante também pode colher e de fato colhe muitas infelicidades, mas não é uma prostituta. Algum carinho devia haver ou ao menos houve em princípio. Mas era muito claro que aquele cara a entediava. Estava insatisfeita por não ter a alma fecundada e por já não suportar aquela masculinidade incapaz de pairar acima do nível animal. Ela me confidenciou esse tipo de coisas ao telefone. Chorou uma vez dizendo que, ao descobrir que o amante era casado, pensara em voltar à casa dos pais em Santo André, mas que o pai, a mãe, a avó, o papagaio, sei lá eu, alguém lhe disse que não queria saber de putas na família. Havia sido expulsa por ter sido surpreendida transando com um namorado ou algo assim. Me disse que estava na roubada e que a coragem de ganhar uma grana fazendo striptease não vinha de graça. Porque, para tanto, precisava antes dar uns &#8220;tiros&#8221;, ¿saca?, cheirar pó. E sublinhava: antes vender a imagem que o próprio corpo. No final das contas, eu sentia que de alguma forma ela esperava minha ajuda. Contudo, eu era o único que, naquela época, não estava fazendo dinheiro algum no estúdio, o qual, ademais, passava por algumas dificuldades e não podia contratar mais ninguém. Eu me sentia impotente. Dificilmente conseguiria manter a mim mesmo e, para complicar, ainda morava de favor com o Dante e sua mãe. Enfim, ¿que diabo eu poderia fazer?</p>
<p>Mas nenhum desses pensamentos deprimia minha mente naquele instante. Eu fruía a peça. Para mim, tudo já estava resolvido. Ela iria trabalhar no Teatro Oficina, mesmo que fosse para começar varrendo o chão. ¿Por que não? Quando se está no lugar certo e se possui uma meta, todas as funções são válidas. Muitas atrizes conhecidas começaram a carreira ali. Duda poderia seguir o mesmo caminho. E se eu não possuía uma avaliação completa de suas capacidades, ao menos de uma coisa eu tinha certeza: ela tinha sentido estético, pois sabia dançar muitíssimo bem.</p>
<p>&#8220;Hummm&#8230;.&#8221;, gemeu alto o Zé Tirésias Celso, de joelhos, com o tronco caído para trás, no palco, justamente abaixo do local em que me encontrava. E, ao me ver, voltou ao desafio, encarando-me. &#8220;Vou ganhar de novo&#8221;, pensei, &#8220;não desviarei o olhar&#8221;, e tornei à minha transmissão de pensamento: &#8220;Você vai curtir a Duda, vai se apaixonar por ela, vai contratá-la&#8221; e assim por diante. Eu sustentava seu olhar e ele parecia surpreso com isso, mantendo-se implacável. Foi um dos maiores desafiantes que já enfrentei. E, no entanto, fraquejei. Repentinamente ele sorriu, uma expressão lasciva, e caiu a ficha: carácoles, ¿será que ele estava achando que eu era gay e estava interessado nele? Seu sorriso respondeu: &#8220;isso mesmo&#8221; e, num reflexo de autopreservação masculina, desviei o olhar. Ele se levantou aos berros, aparentemente energizado com a vitória. Sacana.</p>
<p>Isso tudo se passou, salvo engano, num domingo. No correr da semana seguinte, tentei ligar para Duda diversas vezes. Eu precisava convidá-la para a peça. Como ela morava num flat, em geral era o porteiro quem atendia aos telefonemas. Respondia coisas como &#8220;nenhuma delas está em casa&#8221;, &#8220;saíram&#8221;, &#8220;foram ao supermercado&#8221;, &#8220;ela foi fazer uma entrevista para emprego&#8221;, etc. Às vezes, uma de suas roomies atendia e transmitia um recado: &#8220;ligue às nove da noite, ela tá na aula de dança&#8221;, &#8220;o fulano está aqui, ligue mais tarde&#8221; e tal. E, quando ela me ligava — me ligou três vezes — eu nunca estava no estúdio! Maldita falta fazia a posse de um celular! Quem cresce nessa época pós-celular jamais imaginará o quão vital é ter um desses aparelhos e, pior ainda, nunca se dará conta de como muitas relações dançaram porque antes não existiam. Sem falar obviamente na falta que um carro ou moto faz. Empresário&#8230; ¿Que adianta ser empresário e ainda assim duro? ¿Que adianta tentar vencer por iniciativa própria num país cujo governo só sabe sugar, sugar, sugar?</p>
<p>&#8220;Caralho!!!&#8221;, berrava ao bater o telefone no gancho.</p>
<p>Na quarta-feira, comecei a achar que ela estava me esnobando e parei de ligar. Eu não queria demostrar estar tão fissurado assim. Qualquer um que tenha passado por um par de doloridas experiências amorosas sabe que tal comportamento manda às cucuias nossa cotação no mercado do amor. Na quinta, eu e o Dante voltamos ao Love Story e imediações, mas não a encontramos. Desisti. Talvez eu voltasse a ligar no sábado ou no domingo, horas antes da peça do Zé Celso. No sábado, porém, após uma noite de sonhos agitados e estranhos, amanheci com uma depressão profunda. Ela já não estava retornando as ligações havia algum tempo. Fiquei na fossa o dia inteiro. Ficava vendo na minha cabeça aquele retardado cheio da grana comendo a figura de quatro. Pensava: &#8220;pra merda! ¿viu, Duda?!&#8221; e, naquele dia, não liguei. Mas liguei no seguinte, tendo rolado o seguinte diálogo com o porteiro do flat:</p>
<p>&#8220;Boa tarde, gostaria de falar com a Duda, do apartamento X (não me lembro o número).&#8221; E ele: &#8220;Olha&#8230; ela não está.&#8221; &#8220;¿Mas que hora afinal vou poder encontrá-la?&#8221; Ele suspirou do outro lado: &#8220;Bem, pra ser sincero com o senhor, o problema é o seguinte: a Duda faleceu. Ela teve, sei lá, algum tipo de ataque epilético de sexta pra sábado e não resistiu.&#8221;</p>
<p>Eu quase tive um troço ali mesmo. Fiquei mudo, o telefone na mão, o olhar perdido.</p>
<p>&#8220;¿O senhor é parente dela?&#8221;, perguntou.</p>
<p>&#8220;Não, sou&#8230; sou um amigo.&#8221; Meu coração batia descompassado.</p>
<p>&#8220;¿O senhor quer que eu peça pra alguma das colegas dela lhe telefonar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, pode deixar. Eu vou até aí.&#8221;</p>
<p>Fui com o Dante até o flat. Era um prédio mediano na Bela Vista. As duas figuras com quem ela morava haviam acabado de chegar. Contaram que a Duda brigara com o fulano na sexta-feira à tarde e, dizendo-se finalmente livre, resolveu comemorar. Mas, segundo ambas, ela não parecia tão feliz assim. Sua vontade de &#8220;comemorar&#8221; tinha um tom autodestrutivo ou, no mínimo, uma pulsão de fuga. No fundo devia estar preocupada com o futuro, pois, não tendo família a quem recorrer, agora tampouco tinha aquela fonte de renda. Sem ter conseguido um trabalho fixo, já não podia sequer pagar as aulas de dança&#8230;</p>
<p>&#8220;¿Por que ela não me ligou?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela achou que você já tinha desencanado.&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas eu liguei mil vezes pra cá durante a semana!&#8221;</p>
<p>&#8220;Pode ter ligado, mas ela só recebeu os recados que a gente atendeu. Os porteiros daqui não gostam da gente, não anotam nossos recados&#8230;&#8221;</p>
<p>E contaram como as três, naquela noite, embarcaram no uísque e, por fim, na cocaína. Duda queria mudar de vida, disse que iria acabar com seu estoque de &#8220;coragem&#8221; de tirar a roupa em público. E não sobrou mesmo nenhuma. Veio a overdose. Desmaiou, sofreu convulsões. O porteiro da noite ajudou a carregá-la para baixo. Chamaram um taxi, mas, quando chegaram ao hospital, já era tarde.</p>
<p>&#8220;Eu acho que ela também tinha tomado um comprimido forte naquele dia. Era um remédio controlado que ela já tomava antes mesmo de sair da casa dos pais.&#8221;</p>
<p>&#8220;¿E as coisas dela?&#8221;</p>
<p>&#8220;O pai dela veio até aqui ontem, botou tudo em duas caixas e levou embora pra Santo André. Ele nem olhou na nossa cara. Acho que ele pensava que a gente era puta&#8221;, e suspirou olhando pro chão. &#8220;A grana dela vai fazer falta&#8230;&#8221;</p>
<p>Se fosse um filme americano, eu teria corrido até o banheiro e vomitado. Mas não, apenas saímos dali, tomados por um silêncio que se enchia dos ruídos do pensamento. Por que isso, por que aquilo, e tal. Tudo inútil. Havíamos viajado até esse mundo paralelo, o mundo da Boca do Lixo, da noturna &#8220;baixaria&#8221; paulistana, como quem sai de férias em busca de novos recantos turísticos. Mas a noite — a noite real, a noite do afeto, a noite do amor, o meio-dia da solidão — não é uma brincadeira. Não é melzinho, mas sim fel na chupeta. O Dionísio de concreto paulistano havia devorado mais um de seus habitantes, uma ninfa na flor da idade. E, para meu espanto, lembrei-me que, como toda tragédia, esta também havia sido anunciada: após seu striptease, Duda caminhara em nossa direção ao som de Dead Man Walking, do David Bowie. Uma sincronicidade das mais soturnas. E eu, que tanto desejara seu bem, fiquei apenas com meu &#8220;interior crepúsculo tristonho em que sinto que sonho o que me sinto sendo&#8221;. Que o Vencedor dos vencedores a abençoe Duda, esteja onde estiver.</p>
<p>________</p>
<p>Compre o livro &#8220;A Bacante da Boca do Lixo e Outros Escritos da Virada do Milênio&#8221; (ebook ou impresso) <a href="http://clubedeautores.com.br/books/by_tag/yurivieira" target="_blank">aqui</a>.</p>
<p></p>

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</ol></p>]]></content:encoded>
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		<title>Tlön, Urântia, Borges, Deus</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Apr 2008 18:09:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Yuri Vieira</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Jorge Luis Borges descreve assim a descoberta do primeiro volume da enciclopédia sobre o planeta Tlön: "Numa noite do Islã, que se chama a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, eu não sentiria o que senti naquela tarde." Foi exatamente assim que me senti ao ter O Livro de Urântia nas mãos pela primeira vez... 
Nenhuma publicação relacionada.]]></description>
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<h5>&#8220;Não rir, não lamentar, nem detestar, mas compreender.&#8221;<br />
Baruch Espinosa</h5>
<h5>&#8220;Se o segredo da vida me fosse enviado, eu não o deixaria escapar por receio das zombarias.&#8221;<br />
Loren Eiseley</h5>
<p>Em 1941, Jorge Luis Borges publicou <em>El Jardín de los senderos que se bifurcan</em> e, neste livro, o conto <em><a href="http://interglacial.com/~sburke/pub/Borges_-_Tlon,_Uqbar,_Orbis_Tertius.html" target="_blank">&#8220;Tlön, Uqbar, Orbis Tertius&#8221;</a></em>, que mais tarde também apareceu em <em>Ficciones</em>(1944). O conto narra, de início, as supostas peripécias de Borges e de seu amigo Bioy Casares, outro conhecido escritor argentino, em busca do porquê de o verbete &#8220;Uqbar&#8221; constar na enciclopédia deste último mas não no volume correspondente da de Borges. <em>Uqbar</em>, segundo a <em>Anglo-American Cyclopaedia</em>, seria um país localizado na Ásia Menor, com sua própria história, geografia, literatura, língua, etc. O termo <em>Tlön</em> surge aí pela primeira vez, relacionado a uma &#8220;região imaginária&#8221; presente com certa freqüência nas epopéias e lendas de <em>Uqbar</em>. No entanto, por mais que os dados do verbete tragam certa verossimilhança, a tal enciclopédia não lhes parece senão uma falaz reprodução da <em>Encyclopaedia Britannica</em>(1902) &#8212; certamente criada com o único intuito de divulgar semelhante fraude. Afinal, além desse país não ser mencionado por nenhum atlas oficial, a estranha história de <em>Uqbar</em> e <em>Tlön</em> leva-os tão somente a infrutíferas pesquisas. Assim, anos mais tarde, ainda segundo o próprio conto, tendo esquecido o assunto, o narrador descobre entre os pertences do engenheiro inglês Herbert Ashe &#8212; um amigo de seu pai, falecido havia pouco &#8212; um livro de 1001 páginas intitulado <em>A First Encyclopaedia of Tlön</em>. vol. XI em cuja primeira página se vê um &#8220;óvalo azul&#8221; com a inscrição: &#8220;Orbis Tertius&#8221;. E não pára aí. Aos poucos, toda uma enciclopédia sobre o planeta Tlön vem à luz, magnetizando as atenções gerais. Sim, em vez de um único verbete perdido numa enciclopédia comum, despontam, ao redor do globo, volumes e mais volumes de uma enciclopédia tratando unicamente da vida num estranho planeta. Borges, então, passa a descrever detalhes minuciosos das crenças, da ciência, da filosofia, da psicologia, da história, da literatura, enfim, dos mais diversos âmbitos da vida inteligente de Tlön. E avisa: com o correr dos anos, todo esse conteúdo chegou a afetar a humanidade a tal ponto que nosso mundo simplesmente passou a ser Tlön, uma vez que, nas escolas, nas universidades e na vida cotidiana, a Terra deixou de ter qualquer importância, não se estudando, respeitando ou vivendo senão os aspectos e atributos desse novo orbe: &#8220;El contacto y el hábito de Tlön han desintegrado este mundo&#8221;. E então, sem deixar de lembrar que no latim <em>inventar</em> e <em>descobrir</em> são sinônimos, Borges indaga: &#8220;¿Quiénes inventaron a Tlön?&#8221;</p>
<p>Em 1997, recebi em meu apartamento, na Universidade de Brasília, a visita de uma amiga que me apresentou um livro de 2100 páginas, em inglês, com três círculos azuis concêntricos na capa e o título <em><a href="http://www.urantia.org" target="_blank">The Urantia Book</a></em>. Comecei a folheá-lo distraído e, sem que me apercebesse, acabei virando a noite sobre ele. Quando finalmente me senti cansado, o sol já dourava o lago Paranoá. Minha inclinação pela literatura de cunho fantástico não me permitiria outra atitude: tive a sensação de estar com o Graal dos livros de literatura fantástica em minhas mãos. Do que tratava? Bem, a mera leitura de seu índice me causou vertigens, haja vista suas 59 páginas. Sim, 59 páginas apenas de sumário. Havia capítulos e seções com títulos tais como: &#8220;Os níveis espaciais do Universo Mestre&#8221;, &#8220;O circuito de gravidade mental&#8221;, &#8220;Os sete Superuniversos do Espaço-Tempo&#8221;, &#8220;Os mundos Vorondadec&#8221;, &#8220;A respiração do espaço&#8221;, &#8220;A energia, a mente e a matéria&#8221;, &#8220;Os ultimátons, os elétrons e os átomos&#8221;, &#8220;As Personalidades do Universo Local&#8221;, &#8220;As sedes centrais das constelações&#8221;, &#8220;As hostes seráficas&#8221;, &#8220;A união trinitária da Deidade&#8221;, &#8220;A natureza da Ilha Eterna&#8221;, &#8220;Os domínios do Absoluto Não Qualificado&#8221;, &#8220;O sistema Paraíso-Havona&#8221;, &#8220;Os artesãos celestiais&#8221;, &#8220;O superuniverso de Orvonton&#8221;, &#8220;As Esferas Arquitetônicas&#8221;, &#8220;Os Serafins Transportadores&#8221;, &#8220;Os Sete Espíritos Reitores&#8221;, &#8220;O Espírito Materno do Universo&#8221;, &#8220;A estabilidade dos sóis&#8221;, &#8220;A origem dos mundos habitados&#8221;, &#8220;Os manipuladores da energia&#8221;, &#8220;Tipos físicos planetários&#8221;, &#8220;Os mundos dos que não respiram&#8221;, &#8220;As criaturas volitivas evolucionárias&#8221;, &#8220;A rebelião de Lúcifer&#8221;, &#8220;A origem de Monmátia &#8211; o sistema solar de Urântia&#8221;, &#8220;Os níveis da realidade no Universo&#8221;, &#8220;A associação terciária transcendental da realidade&#8221;, &#8220;O conceito filosófico do EU SOU&#8221;, &#8220;A supervisão da evolução&#8221;, &#8220;O fim da idade dos répteis&#8221;, &#8220;A origem das raças de cor&#8221;, &#8220;Os Príncipes Planetários&#8221;, &#8220;Os Adãos Planetários&#8221;, &#8220;Os sete Mundos das Mansões&#8221;, &#8220;O governo de um planeta vizinho&#8221;, &#8220;Dalamátia &#8212; a cidade do Príncipe&#8221;, &#8220;Os edenitas entram na Mesopotâmia&#8221;, &#8220;Os adanitas entram na Europa&#8221;, &#8220;A encarnação de Maquiventa Melquisedec&#8221;, &#8220;A verdadeira natureza da religião&#8221;, &#8220;A ciência e a religião&#8221;, &#8220;A finalidade do destino&#8221;, &#8220;As auto-outorgas de Cristo Miguel&#8221;, &#8220;A viagem de Jesus a Roma&#8221;, &#8220;O significado da morte na cruz&#8221;, &#8220;O totalitarismo secular&#8221;, &#8220;O problema do cristianismo&#8221;, &#8220;O futuro&#8221;&#8230; Eu lia trechos e mais trechos de arrepiar os cabelos, como, por exemplo, a informação de que, na sede central do Universo Local, mais de um bilhão de seres materiais, &#8220;moronciais&#8221; e espirituais assistiram, ao vivo, juntos e embasbacados, no anfiteatro em torno ao &#8220;Mar de Cristal&#8221;, ao martírio e à crucificação do Soberano de Nebadon no mísero planeta Urântia, um dos planetas isolados pela rebelião de Lúcifer, que havia sido escolhido previamente como cenário para a experiência material de seu próprio Criador. Sim, o livro narra a vida de Jesus na Terra &#8212; Urântia &#8212; sem saltar um dia sequer. Embora a princípio tudo se assemelhasse à mera explanação da excêntrica doutrina de mais uma possível seita de fanáticos cristãos, eu lia aquelas páginas como quem se depara com o guia do mais vasto, completo e coerente mundo de Role Playing Game. O texto parecia elaborado por uma equipe de seis Jorges Luises Borges e quatro J.R.R.Tolkiens juntos. E, no correr dos últimos onze anos, tal impressão não se desvaneceu, ao contrário, amplificou-se, uma vez que uma coesa unidade de conceitos e princípios perpassa toda a obra. O responsável por aquilo tudo não há de ter sido nenhum idiota. A obra traz conhecimentos avançados sobre teologia, religião comparada, filosofia, antropologia, sociologia, política, física, astronomia, biologia e, ousarei dizer?, história. Até mesmo o prêmio Nobel de química <a href="http://www.karymullis.com/" target="_blank">Kary Mullis</a> expressou em artigos e em <a href="http://www.karymullis.com/urantia.html" target="_blank">seu site</a> sua surpresa diante de dados científicos exatos apontados pelo livro com décadas de antecedência. Na minha singela opinião, ou o livro é resultado de toda uma vida de elucubrações espantosas &#8212; a obra dum anônimo e delirante gênio &#8212; ou é a evidência de que alguma sociedade secreta decidiu entrar para valer na guerra cultural que assolou todo o século XX e que continua a agir por trás de todos os grandes conflitos deste novo milênio. As alternativas me assombram. Principalmente porque há também a opção &#8212; nem um pouco impossível, vale lembrar &#8212; defendida pelo próprio livro: trata-se da &#8220;Quinta Revelação de Época&#8221;. ¿Quem enfim teria inventado (descoberto?) O Livro de Urântia?</p>
<p>Escreveu Borges: &#8220;¡Oh dicha de entender, mayor que la de imaginar o la de sentir!&#8221; Sim, a vida interior é detentora dos maiores prazeres. E nada excita mais o intelecto do que um complexo quebra-cabeça, por mais esdrúxulo e improvável que ele pareça. Tal quebra-cabeça pode ser, o que é muito comum, uma mulher. Ou, quem sabe, o sentido da vida. Ou um livro sem autor. A descoberta de uma resposta pode vir a ser um verdadeiro orgasmo psíquico. Ou não, depende do valor dessa resposta. Há sempre a possibilidade de uma ejaculação precoce ou de uma simples e frustrante broxada. Borges descreve assim a descoberta do primeiro volume da enciclopédia sobre Tlön: &#8220;Numa noite do Islã, que se chama a Noite das Noites, abrem-se de par em par as secretas portas do céu e é mais doce a água nos cântaros; se essas portas se abrissem, eu não sentiria o que senti naquela tarde&#8221;. Foi assim que me senti ao ter O Livro de Urântia nas mãos pela primeira vez. Por mais cético que um homem seja &#8212; e Borges, apesar de seu gosto literário, era um cético &#8212; nada poderá satisfazê-lo mais do que a revelação de que a Terra não está só no cosmos. A não ser, é claro, a comunhão plena com outro indivíduo. Porque há de fato gente que passa pela vida sem jamais ter seu coração minimamente tocado por outra pessoa. Há gente que vive como um planeta sem sistema a flutuar solitário, carente de sol, no negro infinito. Ninguém a comove, ninguém a aquece. Ser amado é mais fácil que ser compreendido; mas certamente não há compreensão real sem amor. Henry Miller foi apaixonado por June e pela vida desde o início, mas talvez só as tenha compreendido de verdade ao encerrar sua Crucificação Encarnada, a trilogia formada pelos romances <em>Sexus, Plexus e Nexus</em>, na qual exercita sua capacidade de amar a&#8230; a criação literária. Foi nesta trilogia que li, pela primeira vez, uma apologia a Oswald Spengler (1880-1836), polêmico filósofo e historiador alemão, que se autodenominava &#8220;o primeiro Filósofo do Destino&#8221;. Isto porque o quebra-cabeça predileto de Spengler &#8212; a sua, digamos, &#8220;mulher abstrata&#8221; &#8212; era a história e o destino das civilizações. Partindo dos estudos botânicos de Goethe &#8212; que tornou notória a teoria segundo a qual toda e qualquer planta é formada por metamorfoses parciais ou completas do simples modelo raíz-caule-folhas (o princípio da planta primordial)&#8211;, o historiador chegou à conclusão de que não há uma linha temporal constante através da qual uma suposta evolução leva os homens de uma cultura primitiva até uma civilização cada vez mais avançada. Não. Na verdade, cada civilização seria um organismo único e original que, como qualquer outro ser vivo, nasce, cresce, amadurece, decai e morre, segundo uma ordem constante e claramente discernível. (Ele diferencia o termo Cultura do termo Civilização, sendo o primeiro a fase criativa e o segundo a fase degenerativa do organismo.) Tal teoria foi exposta num livro com o significativo título de <em>A Decadência do Ocidente</em>. Nele, ele demonstra como é absurdo imaginar uma Cultura superior sem religião. E vai além: a essência de toda Cultura superior ou Civilização é sempre religiosa e, conforme essa essência vai se tornando desacreditada, perde-se a necessária coesão vital e inicia-se o declínio do organismo. Afirma ainda que toda Cultura se inicia quando um indíviduo &#8212; ou pequeno grupo de indivíduos &#8212; é arrebatado por um novo e fecundo páthos, por uma profunda reação interior a um acontecimento e/ou situação concretos completamente inéditos e fundamentais, que, como nas ondas concêntricas causadas por uma pedra na superfície de um lago, vai se ampliando e literalmente animando todo um povo. O mito fundante seria, portanto, algo que de fato aconteceu, algo sobrenatural. Partindo deste insight, o historiador chega a defender que mesmo os princípios científicos de uma Civilização em estudo não são senão elementos da sua doutrina religiosa trasladados para o pensamento racional. E então discorre, não apenas sobre a física, mas também sobre a matemática, a arte, a filosofia, a política e a religião Antigas (greco-romana), Ocidentais (ou Fáusticas), Chinesas, Árabes, etc., apontando as características únicas de cada uma delas. Spengler assevera categoricamente que o Ocidente não se encontra senão em sua fase final, tendo também ocorrido, em outras civilizações já mortas, como agora ocorre, o mesmo ceticismo e descaso da elite pensante para com a sua própria essência mítico-religiosa. O dito ateísmo, aliás, seria tão diverso quanto as diferentes religiões, tendo cada Civilização seu próprio e exclusivo exemplar de ateu. Em outras palavras: um ateu é como um &#8220;radical livre&#8221; especialmente preparado para atacar as bases daquela, e apenas daquela, Cultura superior, tal como um determinado reagente químico só entra em ação ao encontrar determinada molécula afim. Todo esse processo se passa simplesmente por ser algo natural, isto é, porque a Cultura já atualizou todo o seu potencial criativo, já expressou e gerou toda a beleza, sabedoria e conhecimento de que era capaz. Extenuados e oprimidos pelas obras de seus antecessores, os homens de uma época tardia não têm outra opção senão apegar-se à sua herança cultural ou, ora por tédio, ora por desespero, liquidar com o mundo em que vive, preparando, de forma inconsciente, o terreno das consciências para uma futura Civilização. Além disso, segundo o historiador, todo aquele interesse de sua época pelas filosofias e tradições orientais &#8212; seu livro foi publicado em 1917, quando o orientalismo já estava em moda &#8212; não impediria, como sempre costuma ocorrer numa etapa final, uma revitalização tardia e burlesca da religião original. O cristianismo, escreveu ele, se reergueria de forma canhestra e paródica, sendo esse fenômeno nada mais que a manifestação dos últimos estertores de uma Civilização agonizante. Escreveu Platão: &#8220;Quando os sacerdotes vendem seus ritos e os soldados têm medo da morte, a sociedade está decadente&#8221;. Sim, porque um mundo pelo qual não vale a pena lutar e um significado religioso sem outro valor que o financeiro nada podem sustentar. Os protestos pacifistas contra determinadas guerras e a proliferação de igrejas pentecostais interessadas nos bolsos dos fiéis não comprovam outra coisa.</p>
<p>Na verdade, a idéia de uma manifestação cíclica na cultura e na sociedade data de Platão, idéia essa exposta pelo personagem Sócrates na <em>República</em>. De acordo com Sócrates, a aristocracia, ordem social superior (governo dos melhores), degeneraria em timocracia (governo dos ricos) e esta, sucessivamente, em oligarquia (governo de alguma facção), democracia (governo da maioria, seja ela educada ou burra) e, por fim, em tirania (governo da violência). O aristocrata autêntico, fixado num extremo da escala, seria o homem bom e justo; o tirano, situado no extremo oposto, o mau e injusto. O ciclo, portanto, caminharia de uma época de luz para uma de trevas cada vez mais acentuadas. (Platão nos ensina que a tirania sempre nasce da democracia.) Giambattista Vico (1668-1744), que estudou Platão, propôs uma teoria semelhante. Contudo, em sua visão &#8212; definida por três fases consecutivas(Idade Divina ou Teocrática, Heróica ou Aristocrática e Humana ou Democrática) &#8211;, a manifestação cíclica seria permanente, sem uma clara expressão de decadência. A Providência se encarregaria de levar a humanidade adiante, através dessas tonalidades anímicas, evitando um fim sem esperanças. Mesmo Harold Bloom, partindo de Vico, subdividiu seu estudo sobre <em>O Cânone Ocidental</em> nas literaturas das Eras Aristocrática, Democrática, do Caos e, arrisca-se ele a prever cheio de receio, eis que desponta no horizonte uma nova Era Teocrática, tal como aquela que nos legou o Antigo Testamento&#8230; (Marx e Hegel também desenvolveram suas próprias teorias históricas, sendo que, para o primeiro, a história culminaria necessariamente no comunismo e, para o segundo, culminaria no estado prussiano ou, pode-se também dizer, no próprio umbigo de Hegel, mais conhecido como Idéia. Para Nietzsche, esse ciclo (o Eterno Retorno) ultrapassou a história e tornou-se uma verdadeira prisão ontológica que só poderia ser vencida pelo &#8220;Übermensch&#8221; ou &#8220;Sobrehomem&#8221;.)</p>
<p>Esta digressão pode parecer sem propósito, mas ela vem justamente para tornar, ao menos para mim mesmo, ainda mais aterrador o, por assim dizer, advento do Livro de Urântia. Ao ler a República, de Platão, é impossível evitar o susto de nos depararmos com a descrição extremamente atual do estado de coisas que nos levou a ver, nesses últimos 100 anos, pessoas como Churchill, Vargas, Mussolini, Hitler, Stálin, Mao, Castro, Kennedy, Kubitschek, Goulart, Castelo Branco, Sarney, Collor, Chávez, Lula, Clinton, Bush e muitos outros chegarem a postos de elevado poder. Todos os tipos já estavam ali delineados. Tão admiráveis são também as observações de Vico e Spengler, além do próprio Harold Bloom, sobre a sucessão das fases culturais, que torna-se irreprimível não inferir certas possibilidades futuras. O filósofo Mário Ferreira dos Santos, apesar de acusar Nietzsche(cujas intuições ele admira) e quase toda a filosofia posterior de incorrer em erros refutados com séculos de antecedência pelos escolásticos, adapta à sua própria visão a escala nietzscheana para discorrer sobre nossa época. Segundo esta escala, viveriam mesclados, hoje, os <em>Homens da Tarde</em>, os <em>da Noite</em> e os <em>da Madrugada</em>, prenunciando estes últimos a chegada do <em>Homem do Meio-dia</em>. Os <em>Homens da Tarde</em> seriam aqueles cuja negatividade não faz senão corroer ainda mais todos os valores e princípios caros à nossa civilização. Eles aceleram o pôr do sol, o ocaso da civilização. Os <em>Homens da Noite</em> seriam aqueles que, em meio à escuridão de um céu sem lua ou estrelas, buscam ainda um fio de Ariadne que lhes permita atravessar um mundo absurdo e carente de sentido. Eles não têm a certeza, mas sim a esperança. Os <em>Homens da Madrugada</em> são aqueles que já encontraram esse mesmo fio e que, em seus corações, já imaginam como será o Homem que viverá na claridade plena de um Meio-dia cheio de sentido, valores e luz. E Mário Ferreira dá um nome ao causador desse páthos definido por Spengler, esse capaz de animar todo um povo e de iniciar um novo Meio-dia: <em>Revelação</em>, isto é, a comunicação ao homem da vontade divina. Mas ¿como então saber se uma revelação é de fato autêntica? Simples: se sua manifestação der origem, no correr dos séculos, a uma nova Cultura superior, a uma nova Civilização, então ela é. E o filósofo brasileiro faz ainda uma distinção clara entre as <em>religiões tradicionais</em> e as <em>seitas</em>: as primeiras teriam necessariamente origem numa revelação legítima; já as seitas, em idéias, insights e idiossincrasias de indivíduos, as quais, no fundo, não teriam valor real senão para esses mesmos indivíduos. E isto significa: seu impacto social seria equivalente, na história das Culturas, a um punzinho.</p>
<p>Sim, eu sei que falar sobre o conceito de revelação divina, nesta época em que os &#8220;radicais livres&#8221; praticamente dominam os meios de cultura, soa tão sem propósito quanto discursar sobre carne de soja numa churrascaria. Hoje em dia, se você for um escritor, mais atenção conseguirá se emitir, em meio a uma narrativa, ou proposições místico-nebulosas embebidas de &#8220;pensamento positivo&#8221;; ou acusações em grande parte justificadas contra a hipocrisia e a perversidade de certos religiosos; ou, o que é ainda mais comum e mais egoicamente lucrativo junto à crítica dita séria, observações cínicas e arrasadoras sobre tudo o que se refere à humanidade, enquanto, entre um dito sarcástico e outro, o personagem central discorre sobre como friccionar, da maneira mais eficiente, um clitóris com os dedos da mão esquerda ao mesmo tempo em que penetra uma buceta com seu pau duro e um cuzinho com os dois dedos da mão direita. Enfim, ou o escritor se debruça em meditações fleumáticas sobre o absurdo da existência, ou se desespera, ou sai por aí abraçando o capeta, afinal, se já está no inferno, pensa, vamos ao menos nos divertir. No fundo, o máximo a ser tolerado, se o cara quiser tratar de &#8220;espiritualidade&#8221;, é adotar uma postura panteísta com pitadas de budismo chique e satisfeito, de preferência com explicações baseadas na física quântica. E ninguém nota, como notou Leo Gilson Ribeiro em relação ao angustiado Kafka, e Lou Andreas-Salomé em relação ao atormentado Nietzsche, que eram ambos &#8220;almas profundamente religiosas&#8221;. Quem não se cansa de indagar &#8220;por quê&#8221; (por causa de quê), quem não se cansa de buscar as causas primeiras, as origens, não pode evitar, por mais que se perca, de adotar uma postura religiosa, que, claro, não se confunde com carolice e pode manifestar-se tanto de forma positiva quanto negativa. A palavra <em>religião</em> é de etimologia incerta, pode tanto vir do latim <em>religare</em> (ligar de novo), quanto do latim <em>relegere</em> (ler ou colher de novo) ou do verbo grego <em>alegeyn</em> (venerar). Mas todas as alternativas apresentam a idéia de dois termos que se ligam, um termo final que volta a se nutrir de um inicial. Em &#8220;Tlön, Uqbar, Orbis Tertius&#8221;, conforme descrevi, Borges relata seu espanto ao ver a Terra tornar-se Tlön. Ao homem comum não interessam as refutações lógicas: se algo dá um sentido mais abrangente à sua vida, este algo será adotado. Há porém um problema: num epílogo ao conto, Borges confessa ter descoberto, anos depois do seu primeiro encontro com a enciclopédia sobre Tlön, a origem desta. Tlön nunca existiu. A <em>Noite das Noites</em> foi uma ilusão e a revelação dos autores uma grande broxada. A verdade era que uma sociedade secreta havia decidido criar um país. Assim, seus membros buscaram patrocínio e o milionário norte-americano que aceitou bancá-los fez duas exigências: 1) se era para gastar seu dinheiro, que pensassem grande e criassem todo um planeta, pois um país era muito pouco; 2) que a obra &#8220;não compactuasse com o impostor Jesus Cristo&#8221;. Semelhante dado é de causar espécie, principalmente quando, ao se comparar o <em>Livro de Urântia</em> com o &#8220;livro de Tlön&#8221;, percebemos que o primeiro não apenas compactua com Jesus Cristo, mas o enaltece e o ilumina de forma nunca antes vista desde os evangelhos. Sim, essa estranha &#8220;contracoincidência&#8221; dá o que pensar. ¿Teria Borges tomado conhecimento desse livro escrito entre os anos 1920 e 1930? Creio que nunca o saberemos. Ao contrário de J.J.Benítez, cuja série <em>Operação Cavalo de Tróia</em> teve como fonte básica de pesquisa o <em>Livro de Urântia</em>, Borges jamais fez qualquer menção direta a ele. Benítez, que também o utilizou para escrever <em>A Rebelião de Lúcifer</em>, no qual o planeta Terra é chamado de Iurancha &#8212; daí meus amigos me sacanearem citando o &#8220;Livro de Yurântia&#8221; &#8211;, chegou a ser alertado para jamais publicar nos Estados Unidos, pois a Fundação Urântia poderia processá-lo por plágio. Mas, tendo Benítez assumido sua crença de que o livro é de fato uma revelação, ¿por que então alguém o impediria de usá-lo como inspiração? ¿Quando Thomas Mann escreveu <em>José e Seus Irmãos</em>, estaria ele plagiando o Antigo Testamento?</p>
<p>¿Seria o <em>Livro de Urântia</em>, tal como previu Spengler, apenas um último estertor da nossa religião original? Não creio. Quase todas as manifestações &#8220;paródicas&#8221; do cristianismo costumam dar-se como anticlímax, impondo conceitos e valores completamente aquém dos ensinados por Jesus. A irmandade, antes aplicada por Cristo a todos os humanos do planeta, recai hoje apenas nos membros desta ou daquela igreja; estimula-se as orações para solicitar não bens espirituais, mas materiais; nos cultos, fala-se mais de demônios, diabos e &#8220;encostos&#8221; do que de Deus; a expressão estética da experiência religiosa jamais é estimulada, os cultos ocorrem em templos feios e ordinários; sublinha-se a importância deste ou daquele grupo enquanto intermediário quando, na verdade, Jesus ensinou que religião é o nome da relação pessoal que cada indivíduo mantém com Deus; e assim por diante. Embora Spengler ainda esteja correto no tocante às civilizações regionais, isoladas tanto no tempo quanto no espaço, o <em>Livro de Urântia</em> parece apoiar a tese de Vico, segundo a qual, ao menos no concernente ao planeta com um todo, haveria uma influência externa interessada em guiar a humanidade para fases cada vez mais avançadas. Deste modo, a Revelação se daria em etapas, sendo as comunicações divinas proporcionais à capacidade de compreensão média dos seres humanos de uma determinada época. O <em>Livro de Urântia</em> seria a quinta revelação de época à coletividade planetária, o quinto upgrade &#8212; porque existem revelações pessoais de valor meramente individual &#8212; sendo estas as revelações anteriores: 1) a chegada do Príncipe Planetário (não físico) e de seu séquito de cem instrutores (físicos, porém imortais); 2) a chegada de Adão e Eva (os humanos, evoluídos de animais, já existiam nessa época); 3) a encarnação de Melquisedec; 4) a encarnação de Jesus Cristo, soberano do Universo Local; 5) a transmissão do Livro de Urântia, de autoria de diversas personalidades espirituais e moronciais. Claro, diversas vezes o planeta teria andado para trás, confirmando novamente Spengler. Mas tal fato não poderia ser explicado senão pela expressão <em>shit happens</em> e pelo fato de que há o livre arbítrio. Lúcifer o explica. Sem esquecer a epígrafe deste ensaio &#8212; &#8220;não rir, não lamentar, não detestar, mas compreender&#8221; &#8212; vamos, pois, a um resumo da cosmogonia urantiana, que, no mínimo, é algo que ou dará um bom RPG, ou humilhará os ETs da Cientologia.</p>
<p>Segundo o Livro, no centro do <em>Grande Universo</em> &#8212; o cosmos como um todo &#8212; há uma singularidade conhecida como &#8220;Ilha Estacionária Paradisíaca&#8221;, centro da gravidade material e fonte de toda energia radiante (servidor dos circuitos de energia do espaço), incluindo a luz visível. Este &#8220;local&#8221;, onde ocorre tanto a &#8220;respiração do espaço&#8221; quanto o retorno da energia radiante à fonte &#8212; tal como nosso sangue retorna ao coração &#8212; é o ponto de contato da finitude com a infinitude. É a manifestação mais fantástica do cosmos e Deus Pai está pessoalmente manifestado ali. Aí também se manifesta pessoalmente o Espírito Infinito, terceira pessoa da trindade e centro gravitacional mental do cosmos. O Espírito é o doador de mente (servidor do circuito de mente) &#8212; nossos cérebros são alguns dos receptores existentes &#8212; e o Pai é o doador de personalidade (servidor do circuito de personalidade), que é aquilo que há de constante e único em nós, passível de sobreviver à morte física e que reage à presença do Pai, sendo atraída por Ele, por sua força de gravidade. Do Pai também recebem os mortais uma Centelha Divina ou Monitor Residente ou Ajustador de Pensamentos, que é um fragmento Dele residente em nossa mente, o qual reage aos influxos da divindade. Todos os astros do espaço giram ao redor da Ilha Estacionária Paradisíaca, tal como a Terra em torno do Sol. Em torno da Ilha encontra-se o Universo Central de Havona, universo modelo, sem história, eterno e perfeito, no qual os Filhos Criadores iniciam suas carreiras e no qual se inspiram para criar seus próprios Universos Locais. O Filho Eterno, segunda pessoa da trindade, pode ser encontrado aí. Não é Jesus. Jesus (Micael ou Miguel) é um Filho Criador, soberano do Universo Local de Nebadon, que ele criou em associação amorosa com o Espírito Materno do Universo, uma filha direta do Espírito Infinito. Em torno do Universo Central de Havona, giram Sete Superuniversos evolucionários do espaço-tempo, cada qual formado por cerca de 100.000 Universos Locais e governados pelos Anciãos dos Dias. Existem, pois, além de Jesus, outros 699.999 Filhos Criadores, cada qual o Caminho, a Verdade e a Vida de suas próprias criações. O número de seres de diferentes classes, funções e natureza existentes tanto na Ilha, quanto em Havona e nos sete Superuniversos tende ao infinito. Existem seres pessoais, pré-pessoais e apessoais, ascendentes (como nós) e descendentes (como Jesus), materiais, moronciais, espirituais, e assim por diante. Cada Superuniverso é constituído de 10 Setores Maiores; cada Setor Maior, de 100 Setores Menores; Cada Setor Menor, de 100 Universos Locais; cada Universo, de 100 Constelações; cada Constelação, de 100 Sistemas de Mundos (que não é o mesmo que um sistema solar); e cada Sistema, de 1000 mundos habitáveis. Essas subdivisões não são exatamente astronômicas, mas administrativas. Cada Superuniverso possui, pois, cerca de um trilhão de mundos habitados.</p>
<p>O papel do ser humano, na Criação, ainda segundo o Livro, é sobreviver à morte física, ascender de mundo em mundo, de esfera em esfera, até atingir a presença pessoal do Pai Celestial, tornando-se então um Finalista, um ser de função ainda não revelada. A vida em Urântia (o planeta Terra, o &#8220;planeta da cruz&#8221;) surgiu como em qualquer outro planeta habitado, ou seja, sob a direção do Filho Criador, um grande número de seres espirituais &#8212; incluindo aí os Arquitetos Mestres do universo e os Portadores de Vida &#8212; iniciam a criação de formas primitivas de vida que, animadas pelo Espírito Materno, passam então a evoluir sozinhas. O objetivo da vida animal num planeta é, um dia, chegar a produzir um ser com cérebro capaz de abarcar a mente volitiva autoconsciente. Existem planetas nos quais, por uma razão qualquer, os humanos evoluíram de animais completamente diferentes dos da Terra. O mortal filho de Deus não depende da evolução de uma espécie específica, mas apenas da capacidade mental do cérebro. Os mortais ascendentes, portanto, são classificados segundo o número de cérebros: humanos com um cérebro, com dois e com três. Nós, terrestres, temos dois cérebros, o esquerdo e o direito. A partir do momento em que uma espécie animal, por mutação repentina e espontânea, dá à luz seres volitivos, o planeta recebe o status de planeta habitado, sendo designado, para ele, um Príncipe Planetário, um ser descendente invisível aos seres materiais. Acompanham-no um séquito de cem voluntários que são materializados no planeta e que constroem a primeira cidade universitária, para a qual convidam os membros proeminentes das mais diversas tribos então existentes. Esse séquito consegue ver e se reunir com, no caso de Urântia, Caligástia, o Príncipe Planetário. Sendo belos, gigantes e &#8212; graças a uma conexão especial com os circuitos do Espírito &#8212; imortais, passam a educar, sem envelhecer, gerações e mais gerações das mais diversas raças locais. Apesar de desestimular tal comportamento entre os humanos, são vistos como deuses, o que, na Terra, deu origem às mais diversas tradições e mitos. Em Urântia, tudo corria bem, até que o soberano do Sistema de Mundos Habitados, Lúcifer, emitiu uma Declaração de Liberdade. Acusou ele aos Anciãos dos Dias de estrangeiros invasores e declarou que não acreditava que seu Senhor, o Cristo, se reunia pessoalmente com a personalidade de Deus. Caligástia, o Príncipe de Urântia, aderiu à rebelião, levando o séquito a uma dissensão, o que, por sua vez, botou as tribos humanas em pé de guerra umas contra as outras, segundo suas afinidades com os mestres. Como efeito dessa rebelião, o Sistema foi isolado em quarentena, a qual permanece até hoje. Encerraram-se as comunicações e os intercâmbios mais ostensivos em quase 1000 planetas. Com isso, o séquito do Príncipe perdeu seu status de imortalidade. Quando Adão e Eva chegaram &#8212; eram Filhos Materiais da raça violeta &#8212; encontraram um planeta em estado de caos. Despreparados, sucumbiram às suas próprias idéias, atentando contra o mandato da Constelação, o que os fez perder também a imortalidade. Desde então, shit happens atrás de shit happens. Nesse entretempo, Melquisedec &#8212; cujo estandarte contém os três círculos concêntricos azuis &#8212; veio então ao planeta e, após instruir um grande grupo, enviou-os em pequenos grupos aos quatro cantos do mundo, fato esse que deu origem às mais diversas religiões. No entanto, a rebelião só foi finalizada quando da vinda de Jesus, que experimentava a forma de vida material, etapa necessária para assumir sua soberania plena. A narrativa completa de sua vida na Terra é um dos textos mais tocantes que já li. Hoje, Lúcifer está preso e o sistema está sendo pouco a pouco reconectado. O Livro de Urântia supostamente faz parte desse processo.</p>
<p>Sim, eu sei que tudo parece uma imensa loucura. Mas não creio que o universo seja bobo e sem Graça como querem os céticos sistemáticos. (&#8220;Ah, o cosmos surgiu com o Big Bang.&#8221; Ok, ¿e de onde veio o <em>Big Bang</em>?) Algumas pessoas me dizem que toda essa cosmologia e hierarquia celeste é muito humana para ser real. Mas ¿e se o que chamamos de humano for apenas uma cópia imperfeita dessa organização divina? Sim, isso nos leva a uma antinomia sem solução satisfatória. É preciso aqui dar aquele salto chamado &#8220;fé&#8221;. Hilda Hilst, Bruno Tolentino, Bruno Galas e Olavo de Carvalho me ensinaram pessoalmente que a fé não apenas não atrapalha a inteligência e a criatividade como, muito pelo contrário, as estimula e fortalece. Eu sei que não necessito d&#8217;<em>O Livro de Urântia</em> para chegar a tal conclusão e para finalmente aceitar o convite divino. Eles não precisaram dele e, quando lhes falei sobre esse livro, encararam-no com grande reserva. (Na verdade, ainda não falei a respeito com Bruno Galas.) Mas, sinceramente, desconfio que ao menos o planeta Terra necessita desse impacto &#8220;tlöniano&#8221;.</p>
<p>Chegamos a um ponto da História humana em que uma grande mudança se faz não apenas necessária, mas inevitável. A Era do Caos preconizada por Harold Bloom através de Vico, vai dando seus últimos frutos. Essa era do Caos seria o que, na <em>Teoria Geral de Sistemas</em>, se chama &#8220;constelação&#8221;: um momento em que os elementos de um sistema dado se encontram dispersos por não haver mais um &#8220;princípio dominante&#8221; que dê conta de influenciar e guiar o todo. É uma fase de transição, porque, sem o advento de um novo princípio dominante, ocorrerá a morte dos elementos remanescentes. Nos sistemas conhecidos como &#8220;Cultura&#8221; ou &#8220;Civilização&#8221;, tal princípio dominante seria, como já disse, uma intuição espiritual original. E, se toda Cultura nasce duma intuição nova e mais abrangente, duma visão cósmica mais universal, fecunda e cheia de sentido, creio que jamais se viu outra visão mais estimulante que a apresentada nesse Livro. Jesus cumpriu sua missão no tocante ao indivíduo, que é o principal, mas a narrativa completa de sua vida e de sua obra &#8212; assim como a descrição dos seres, da estrutura e das regras que regem as demais &#8220;moradas&#8221;&#8211; poderia, digamos assim, por &#8220;ressonância&#8221; e influxo idealista, orientar a organização desse nosso variegado e caótico mundo. Pela primeira vez na história, nosso &#8220;mundo conhecido&#8221; se confunde com todo o planeta. &#8220;Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Deus quis que a Terra fosse toda uma. Que o mar unisse, já não separasse.&#8221; (<em>Mensagem</em>, Fernando Pessoa.) Os remanescentes das Culturas outrora pujantes &#8212; Ocidente Cristão, Islã, Oriente hinduísta, budista, etc. &#8212; não se sentem à vontade uns com os outros e temem ser sobrepujados e engolidos pelos demais. Não há como imaginar que, agora que esses sistemas distintos se tocam, que o princípio dominante de um deles sobrepujará aos demais sem derramamento de sangue. Na Europa, o avanço do islamismo é patente, pois uma civilização irreligiosa, como a do ocidente tardio, é sempre mais fraca que uma religiosa. (Sem falar que, enquanto um casal europeu dá à luz dois filhos &#8212; um ateu e outro agnóstico &#8212; os muçulmanos dos subúrbios dão à luz nove ou doze islâmicos, metade radical, metade meramente crente.) E apesar de o Livro de Urântia estar mais próximo daquilo que entendemos por cristianismo, ele talvez tenha vindo não apenas confirmar tudo o que este tem de positivo e verdadeiro, mas também purificá-lo de seus erros e malentendidos, o que, por isso mesmo, poderia levá-lo ainda mais longe e torná-lo mais palatável aos demais povos. Ele não revoga a Bíblia, os Evangelhos e demais livros sagrados. Não. Ele os alarga, esclarece e amplia. Também apresenta muitas questões polêmicas passíveis de gerar conflitos, isto é, se lidas isoladamente do restante da obra. Mas creio que, dum modo geral, os efeitos do livro poderiam ser positivos e duradouros a longo prazo. Tlön era uma obra falsa, conforme diz Borges, um mero trabalho de &#8220;enxadristas&#8221;, mas, no conto, dominou todo o mundo. ¿Ocorrerá o mesmo com o Livro de Urântia? É bem provável que, da mesma forma que o Império Romano não conseguiu se livrar do &#8220;imperativo cristão&#8221; &#8212; e que o Oriente Próximo não conseguiu evitar o Islã &#8212; tampouco o planeta Terra conseguirá evitar tornar-se&#8230; Urântia. Eu estou me lixando para o que meus amigos, familiares e desconhecidos possam achar dessa minha posição. Eu apenas não consigo deixar de imaginar um outro futuro menos ruim do que esse e, como dizia a Clarice Lispector, &#8220;imaginar é adivinhar a realidade&#8221;. ¿Que culpa eu tenho se algumas coisas nascem mesmo póstumas e impossíveis de serem provadas agora? Uma revelação só se prova como revelação no correr dos séculos, quando então funda uma nova Cultura. Quem escreveu esse livro sabia disso e nem se deu ao trabalho de assiná-lo. ¿Foi apenas um transmissor? ¿Criou todos aqueles &#8220;heterônimos&#8221; fantásticos que assinam os capítulos? Eu não sei. Tal imprecisão autoral não impediu que o Pentateuco fundasse uma nação (Cultura) avançadíssima ou que o tribal Islã alimentasse e ressuscitasse a então complexa e decadente Pérsia. Meu maior temor em relação ao Livro era que ele fosse mais um gnosticismo. Mas quanto mais o estudo, mais me convenço de que não é. Mas, bem, essa é uma outra história.</p>
<p>Enfim, a revelação é uma forma de conhecimento possível e legítima da qual o homem é digno. (Vide <em>&#8220;O Homem Perante o Infinito&#8221;</em>, de Mário Ferreira dos Santos.) ¿As pessoas se acham vermes rastejantes abandonadas pelos Céus? Já não me sinto assim. Deixei isso para trás. Agora sou, após muitos percalços, capaz da fé. Vale lembrar que, quando algo ocorre na Europa, não há como nós, aqui na América do Sul, termos acesso a tais fatos senão através do que nos é revelado pelos meios de comunicação. Eles nos transmitem as notícias ou novas. Vivemos mergulhados em informações. ¿Como confiamos nelas? ¿São verdadeiras? ¿São falsas? ¿Em que medida? Um cético sistemático absoluto certamente não acreditaria sequer que o Saddan Hussein foi derrotado, afinal, são tomé que é, não o tocou com os dedos através das grades duma prisão iraquiana. Muita gente mais paranóica que eu acha que o próprio Bush atacou o WTC. É preciso confiar nas fontes, ¿não é? E as novas nem sempre são &#8220;boas novas&#8221;, que é, aliás, a exata tradução de evangelho: a &#8220;boa notícia&#8221;. Depois de mil e um livros sagrados escritos por inspiração, algum maioral lá de cima teria decidido usar um repórter anônimo, afinal, parece que só Maomé é profeta. Os islâmicos não precisam se chatear com o <em>Livro de Urântia</em>. Nenhum profeta reivindicou sua autoria. São talvez apenas notícias que nos alcançam dos confins do Cosmos. Eu não tenho mais medo de apostar nisso. ¿Você tem?&#8230; ¿O quê? ¿E se Lúcifer estiver certo e os Anciãos dos Dias forem imperialistas cósmicos opressores?! ¿E se a difusão desse livro fizer parte de uma conspiração universal?!! Entonces, amigo mío, estamos todos jodidos!</p>
<p>Yuri Vieira, 36 anos, paulistano, é escritor e cineasta.</p>
<p>________</p>
<p><strong>Die Freude (Ode to Joy &#8211; Ode à Alegria)</strong></p>
<p>Ode à Alegria de Friedrich von Schiller, tradução do original, tal como se canta na Nona Sinfonia de Ludwig Van Beethoven.</p>
<p>Ouça e acompanhe a letra deste trecho no You Tube.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" src="http://www.youtube.com/embed/4pbMUEHvoAo" frameborder="0" width="480" height="390"></iframe></p>
<p>(Barítono)</p>
<p>Oh amigos, mudemos de tom!</p>
<p>Entoemos algo mais prazeroso</p>
<p>E mais alegre!<br />
(Barítonos, quarteto e coro)<br />
Alegre, formosa centelha divina,</p>
<p>Filha do Elíseo,</p>
<p>Ébrios de fogo entramos</p>
<p>Em teu santuário celeste!</p>
<p>Tua magia volta a unir</p>
<p>O que o costume rigorosamente dividiu.</p>
<p>Todos os homens se irmanam</p>
<p>Ali onde teu doce vôo se detém.</p>
<p>Quem já conseguiu o maior tesouro</p>
<p>De ser o amigo de um amigo,</p>
<p>Quem já conquistou uma mulher amável</p>
<p>Rejubile-se conosco!</p>
<p>Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,</p>
<p>Uma única em todo o mundo.</p>
<p>Mas aquele que falhou nisso</p>
<p>Que fique chorando sozinho!</p>
<p>Alegria bebem todos os seres</p>
<p>No seio da Natureza:</p>
<p>Todos os bons, todos os maus,</p>
<p>Seguem seu rastro de rosas.</p>
<p>Ela nos deu beijos e vinho e</p>
<p>Um amigo leal até a morte;</p>
<p>Deu força para a vida aos mais humildes</p>
<p>E ao querubim que se ergue diante de Deus!<br />
(Tenor solo e coro)<br />
Alegremente, como seus sóis corram</p>
<p>Através do esplêndido espaço celeste</p>
<p>Se expressem, irmãos, em seus caminhos,</p>
<p>Alegremente como o herói diante da vitória.</p>
<p>(Coro)</p>
<p>Alegre, formosa centelha divina,</p>
<p>Filha do Elíseo,</p>
<p>Ébrios de fogo entramos</p>
<p>Em teu santuário celeste!</p>
<p>Abracem-se milhões!</p>
<p>Enviem este beijo para todo o mundo!</p>
<p>Irmãos, além do céu estrelado</p>
<p>Mora um Pai Amado.</p>
<p>Milhões se deprimem diante Dele?</p>
<p>Mundo, você percebe seu Criador?</p>
<p>Procure-o mais acima do céu estrelado!</p>
<p>Sobre as estrelas onde Ele mora.</p>
<p></p>
<p>_____<br />
Leia também: <a href="http://textos.yurivieira.com/terceiros/qual-a-origem-do-livro-de-urantia/">Qual a origem do Livro de Urântia?</a></p>

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