O eterno retorno ao Centro

28/09/2005
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Minhas peregrinações pelo centro de São Paulo começaram em 1985, quando eu ainda ia completar 14 anos de idade. Eu e meu amigo Dante estávamos sempre inventando uma missão — comprar uma peça de reposição de autorama (Mabushi, Estrela, etc.), o disco de uma banda punk (Cólera, Inocentes, Garotos Podres, etc.), um relógio com joguinho, um tênis ou qualquer outro badulaque importado da Galeria Pajé, etc., etc. — o que sempre nos levava a perder todo um dia em mil e um becos e cenários decadentes da capital paulistana. Às vezes, sem mais nem menos, pegávamos o trem na Estação da Luz e íamos até Ribeirão Pires ou qualquer outra cidade, apenas porque no trem era possível fazer o que não se pode no metrô: passar de um vagão para o outro durante a viagem. (Na verdade, nossa primeira grande epopéia foi a travessia de boa parte da Zona Sul, a pé, em 1982 ou 1983, apenas para comprar um ioiô Super da Coca-Cola, que aliás foi mais difícil de encontrar que o Graal, já que nos bares e lanchonetes do percurso só havia o modelo Profissional. Eu teria ficado satisfeito — como de fato fiquei, pois adquiri mesmo um Profissional — mas nããããããão, o Dante nãão, claro que não, era o Super que ele tinha de comprar. Por conta disso, eu, que via minha querida rua Mariana Calache como centro do universo, me vi jogado num mundo hostil, alheio e interminável, cheio de “maloqueiros” tentando nos tomar a grana do ioiô e, mais tarde, o próprio ioiô. Mas essa é uma outra história…)

Pois é, de tempos em tempos volto a compreender o significado místico da expressão “Eterno Retorno”. Na verdade, isto rola cada vez que me vejo novamente em peregrinação pelo centro de São Paulo em companhia do… Dante! Hoje, por exemplo, passamos toda a tarde em busca das partes ideais para montar um computador “Super”, pois um “Profissional” jamais iria satisfazer o cara. Processador AMD Athlon 64 – 3500, placa de vídeo ATI Radeon X800 (PCI Express x16), placa mãe ASUS A8N-SLI Deluxe, fonte Seventeam Profissional, etc., etc., tudo o que se exige de um compuador para manipular imagens, já que o cara é hoje um requisitado fotógrafo publicitário. E é um tal de entra e sai das galerias da rua Santa Ifigênia, da rua Aurora, aquele verdadeiro mercado persa eletrônico-informático, com gente se acotovelando pelas calçadas e tomando parte das ruas, andando sem parar, até doer os pés, aliás gelados por esse frio pentelho que não larga a cidade nem nesse início de primavera. (Acabo de me lembrar que nossa primeira peregrinação pela Santa Ifigênia, ainda nos anos 80, foi para comprar um certo diodo e dois “jacarés” desses de metal. Com esses “jacarés” conectávamos o tal diodo atrás dos orelhões para fazer chamadas interurbanas gratuitas, saca?, coisas de cyberpunk.)

Depois da Santa Ifigênia, eis que nos mandamos para o Bom Retiro, um bairro próximo, onde deveríamos buscar uma câmera digital que fora locada a um fotógrafo X. Com a ajuda de um legítimo, típico e grisalho descendente de italianos — por acaso na rua dos Italianos — nos livramos de uma improdutiva circulação labiríntica — inevitável quando se anda em São Paulo — e chegamos ao objetivo. Então, ali na rua Aimoré e adjacências, me dou conta de dois fatos muito interessantes: 1) Na Santa Ifigênia a multidão é constituída por 99% de homens e, na Aimoré, por 99% de mulheres, afinal, o Bom Retiro é a meca brasileira das lojas de roupas e calçados femininos a preços módicos e, por isso, quando ali se vê um homem, trata-se na verdade de um sacoleiro de outra cidade; 2) Nas adjacências da Santa Ifigênia as fachadas são feias, sujas, decadentes e, nas da Aimoré, as fachadas são pintadas, com vitrines decoradas e um quase ar de shopping center. Retirei daí uma única conclusão: mulheres tem realmente tudo a ver com beleza e os homens, com mulheres. Explico. Não é que as mulheres não gostem de computadores. Gostam. Mas preferem gastar seu tempo atrás de roupas bonitas, deixando a montagem de seus computadores a encargo de seus pais, maridos, namorados e irmãos. E são esses pais, maridos, namorados e irmãos que saem ganhando, afinal, um homem prefere uma hacker ou uma gata? Apesar do Lula, do José Dirceu, do Maluf, do PT, do MST, das FARC, do terrorismo islâmico, etc. e tal, as coisas ainda estão nos eixos aqui em São Paulo. Graças a Deus.

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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