O dia em que a Terra parou

27/06/2006
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Toda invenção humana não almeja outro fim senão a vitória sobre as limitações impostas pelo tempo e pelo espaço. E sei que não preciso citar muitos exemplos para provar tal afirmação. Uma simples meditação sobre os artefatos tecnológicos que nos cercam já constitui uma fonte de indícios demasiado ampla. Até mesmo uma lâmpada não faz outra coisa senão permitir um maior campo de visão em meio às trevas (mais espaço) e mais tempo de vigília noite adentro. E, sem abandonar este raciocínio, vale dizer que muitas supostas novidades tecnológicas não passam de aperfeiçoamentos de técnicas e engenhos já existentes. A internet, por exemplo, é como uma biblioteca de periódicos e livros — somada à função de correio — estendida por todo o planeta. E digo isso por experiência própria: no começo dos anos 1990, morei cinco anos no alojamento da Universidade de Brasília, onde me tornei um freqüentador assíduo da sua Biblioteca Central. Não possuindo televisão ou rádio em meu apartamento, ignorando completamente os jornais e revistas do dia, passei todo aquele período universitário tendo apenas os corredores da biblioteca como ponto de contato com os conteúdos do mundo. Ora, qualquer rato de biblioteca sabe: todo livro contém seus invisíveis hyperlinks, esses dados que levam a outro e mais outro e ainda outro livro ou documento. O hyperlink pode ser o nome dum novo autor, o título de outro livro, um comentário de rodapé, etc. O problema é que, conforme Borges tão bem expressou em suas obras, a possibilidade de se perder da realidade num desses labirintos do encontro e do conhecimento é bem grande.

Lembro-me de um dia em especial. Segundo as anotações que ainda guardo, passei horas seguidas selecionando alguns livros que pretendia ler durante as semanas seguintes: Henry Miller voltou minha atenção a Elie Faure (eu estudava Artes Plásticas – habilitação em Teoria História e Crítica de Arte) e a Oswald Spengler, cuja Decadência do Ocidente me levou a Goethe, que, por sua vez, e graças à introdução dum estudioso alemão cujo nome agora me escapa, acabou por me introduzir Mikhail Bulgakov. Tanto este como aquele utilizaram o diabo e um sabá – no Fausto e em O Mestre e Margarida, respectivamente – para tratar dos caminhos coincidentes da perversidade e de certos prazeres humanos. Detalhes. Bem, o fato é que, quando naquela tarde cheguei à biblioteca, as salas de estudo estavam abarrotadas de estudantes. Visto que o final daquele semestre se aproximava, as mesas para estudos em grupo estavam completamente tomadas, inclusive por aqueles que preferiam estar numa das piscinas do Centro Olímpico ou paquerando no Ceubinho. Nesse ambiente, o burburinho incomodava aos que, assim como eu, preferiam entregar-se à leitura introspectiva. Por isso, a cada livro colhido voltava a me dirigir para o meu “caixote”, ou seja, tornava à minha mesa de leitura individual que, por ser fechada pela frente e pelos lados por placas de compensado, dava essa impressão de se estar dentro duma caixa de madeira cujo “interior” transformava o tempo num fardo dos mais leves. Quando me cansava de um desses livros – eu os folheava de cabo a rabo antes de iniciar de fato a leitura – me entregava à exegese dos rabiscos e “frases de banheiro” gravados a estilete no interior do caixote: “Porque Nada existiu, portanto, todas as coisas existem” (Poe); “Quanto menos fatos houver, mais teorias haverᔠ(Shu Shehyu); “Deus, se você existe, me dá um diploma” (Bruno); “Estudar o cacete, eu queria é estar comendo a fulana” (Júnior), e assim por diante. Nos anos que ali vivi, foram inúmeras as vezes em que, voltando subitamente à realidade, percebia que já se aproximava a meia-noite e que, caso não fosse embora, corria o sério risco de passar a noite trancado naquele labirinto de papel. Meu mergulho nos livros era em geral tão pleno que a sirene a anunciar o encerramento do expediente costumava passar desapercebida. E eu tampouco levava um relógio comigo. Daí meu susto ao notar, naquela noite, que eu devia ser o único habitante daquele andar da biblioteca.

Deixando parte dos livros sobre a mesa, caminhei em direção às escadas. Não havia vivalma, certamente já seria muito tarde. Ao chegar ao átrio, dei com um balcão estranhamente deserto: não havia ninguém para registrar o empréstimo dos novos livros recrutados. E o mais esquisito: de acordo com o relógio da parede, mal acabara de anoitecer!! Onde estariam todos? Olhando na direção da roleta, vi que não havia um segurança sequer para revistar minha mochila na saída. O prédio aparentava estar completamente abandonado. Teria ocorrido um incêndio? Um assalto? Um tiroteio? Alguma emergência semelhante? Comecei a me lembrar daqueles episódios sinistros da série Além da Imaginação. Talvez eu tivesse passado através dum “buraco de minhoca” quântico e estivesse noutra dimensão. Parecia uma idéia engraçada a princípio. Mas… e se eu estivesse morto? Tal pensamento me causou um calafrio. Fui até os banheiros. Nada. Fui à ala oeste. Ninguém. Ao regressar ao átrio, comecei a suar frio. Silêncio absoluto. O que estaria acontecendo? Atordoado, caminhei de um lado ao outro sem conseguir atinar com as causas do fenômeno. Súbito, ouvindo um leve murmúrio numa das escadas, me dirigi ao subsolo. Ninguém no xérox ou nas salas de estudo do subterrâneo. Comecei instintivamente a desviar o fluxo de energia do meu módulo de senso de humor para o meu módulo de pânico. A coisa parecia séria. E, então, vi de relance que a lanchonete estava aberta. Esbaforido, corri até lá. Para meu alívio, havia um grupo de oito pessoas em volta duma televisão e um homem atrás do balcão.

“Nossa”, comecei, “pensei que eu tinha entrado dentro daquela música do Raul Seixas, aquela ‘O Dia em que a Terra parou’…”

Ninguém me dirigiu sequer um olhar. Insisti: “O que é que vocês tão assistindo aí com todo esse interesse?”, e, em seguida, fui fulminado por nove pares de olhos indignados.

“Cê tá falando sério, cara?”, perguntou o dono da lanchonete.

“Tô, por quê?”

“Vai me dizer que você não sabe que estamos no finzinho da semifinal da Copa do Mundo?”

“Não, não sabia”, respondi com a maior inocência do mundo. “Quem é que tá jogando?”

Pra quê… Fui observado com o maior desprezo que jamais enfrentara em toda a minha vida. Os olhares pareciam dizer “seu louco!”, “seu idiota!”, “seu demente!”, “seu nerd!”. E então me informaram que o Brasil (o Brasil?!) estava jogando com a Suécia e que… “Gooooooool!!!” – começaram a berrar – estávamos na final!!!! Romário, de cabeça. Saí dali zonzo, afinal, eu fizera tudo de novo, tal como na ocasião da morte do Ayrton Senna, da qual só me dei conta na manhã seguinte. Já fora da bilbioteca, a caminho do alojamento, através de rojões e morteiros que espocavam sobre o lago Paranoá, finalmente o mundo se revelou. E eu nem me dera conta daquela silenciosa angústia que antecedera uma vitória apertada de apenas um a zero. O mais irônico é que eu não era uma dessas pessoas que saem por aí dizendo odiar futebol. Eu simplesmente – do alto dos meus então vinte e três anos de idade – havia retirado do meu campo mental a possibilidade de ver, ainda nessa vida, o Brasil ganhar mais uma Copa. Afinal, a última vitória havia ocorrido em 1970, isto é, um ano antes do meu nascimento. As demais Copas haviam sido um sem fim de tristezas e decepções, meras provas de que o Brasil já não era mais aquele. (Nada mais triste para um garoto do que não ver seu time campeão do mundo.) Na verdade, minha última esperança havia morrido na Copa de 1990, que assistira no Equador com minha família de intercâmbio. Se o Brasil não conquistara a taça ali, onde eu vivia o auge da minha brasilidade, jamais voltaria a ter chances reais de vitória. Mas nossa seleção, para meu espanto, tornou-se campeã em 1994. E eu, graças a meu isolamento de biblioteca, só assisti a um pedaço da semifinal e à horrorosa final. Juro.

Em 1998, de volta a São Paulo, continuava sem televisão em casa. Nem me lembro dos jogos iniciais. Mas assisti à fatídica final Brasil X França no Empório Cultural (Vila Madalena), a convite do dono do estabelecimento, uma vez que era ali que, três meses mais tarde, iria ocorrer o lançamento do meu livro. O que eu não sabia é que o consulado da França havia escolhido o mesmo local para exercer sua torcida. Felizmente, meu zen budismo me tornara um desapegado da vitória pela vitória e do sofrimento por motivos fúteis. Eu era agora um suposto amante da estética, do “futebol arte”. Se nosso time jogasse feio, tanto pior, que ganhasse o dono do jogo mais bonito. Sancta simplicitas… Enfim, pelo menos tive uma ótima conversa com um dos membros do consulado – transformada posteriormente numa crônica – na qual discutimos sobre um futuro hipotético em que as contendas entre as nações viriam a ser decididas através de jogos de futebol. Ah, esses franceses. Mais uma vez: santa simplicidade…

E, finalmente, foi apenas em 2002 que me inteirei da Liga Brasileira Contra o Futebol, criada pelo Lima Barreto. Em suas crônicas, travou o consagrado escritor verdadeiras batalhas contra o esporte nascedouro que, se lidas hoje, por mais que um ou outro leitor possa com ele concordar, soam cômicas, quase patéticas. O fato é que, conforme escreveu Goethe, no Fausto, “quem deseja ter razão de certo a terá com o mero fato de possuir língua”. Veja alguns trechos do Lima Barreto:

“O football é uma escola de violência e brutalidade e não merece nenhuma proteção dos poderes públicos, a menos que estes nos queiram ensinar o assassinato.” (Careta, Rio, 03/06/1922)

“Tudo tem um limite e o football não goza do privilégio de cousa inteligente.” (Careta, 01/07/1922)

“(…) estou convencido, como o meu amigo Süssekind, que o sport é o ‘primado da ignorância e da imbecilidade’. E acrescento mais: da pretensão. É ler uma crônica esportiva para nos convencermos disso. Os seus autores falam do assunto como se tratassem de saúde pública ou de instrução. Esquecem totalmente da insignificância dele. Um dia destes o chefe de polícia proibiu um encontro de boxe; o cronista censurou asperamente essa autoridade que procedera tão sabiamente, apresentou como único argumento que, em todo o mundo, se permitia tão horripilante cousa. Ora, bolas! Certa vez, o governo não deu não sei que favor aos jogadores de football e um pequenote de um clube qualquer saiu-se de seus cuidados e veio pelos jornais dizer que o football tinha levado longe o nome do Brasil. Risum teneatis? O meu caro doutor Süssekind pode ficar certo de que, se a minha liga morreu (a Liga Brasileira contra o Football), eu não morri ainda. Combaterei sempre o tal de football.” (Careta, Rio, 08/04/1922)

Diante disso, torna-se incrível a aparição entre nós, poucos anos mais tarde, do dramaturgo e cronista Nélson Rodrigues, autor de textos deliciosos sobre os jogos do Fluminense e da seleção brasileira. Se Barreto tivesse razão, e o futebol não fosse mesmo mais valioso que um cisco, mais significativo que uma sujeirinha, então Rodrigues provaria que a arte da escrita equivale tão somente à gênese duma pérola: duma porcaria de nada faz-se uma jóia de nácar. A questão, no fundo, é que qualquer crítica ao magnetismo do futebol sobre as massas não passa de cabotinismo. É verdade que esse esporte não passa duma versão recente dos antigos desportos de competição presentes na história de qualquer civilização. É transitório? Sim. Mas, conforme dizia Spengler, “todas as coisas transitórias são símbolos”. E ninguém irá negar que o futebol, tal como um hyperlink, levou sim para bem longe o nome do Brasil. Ou seja, ele ajuda a vencer os limites impostos pelo espaço. E pouco importa o risum teneatis?, isto é, o “reprimireis o riso?” do Lima Barreto. Além disso, o fato de eu ser um brasileiro ajudou a reduzir, na minha experiência pessoal, o tempo necessário para fazer novos amigos no Equador: todos me convidavam para jogar futebol. Logo, ele ajuda a vencer o tempo. É preciso, pois, ver as coisas dentro de sua perspectiva correta. Platão, Paulo de Tarso, Agostinho, Dostoiévski, Spengler, Mário Ferreira dos Santos, Hilda Hilst, e até Nietzsche – e, hoje, Harold Bloom – sabiam que apenas o páthos religioso é capaz de criar o duradouro e o fecundo. Por mais que se finja, futebol não tem nada disso, trata-se de mero jogo, brincadeira, relação transitória. É um instrumento de conexão entre pessoas, grupos, nações. Se eu, que só dou atenção ao dito cujo de quatro em quatro anos, sei disso, por que o povo, suposta voz de Deus, não o saberia? Ao contrário do que pensava Lima Barreto, futebol não é obra dum diabo. Seus prazeres não são necessariamente perversões. O único perigo é o cegar-se com a bola a ponto de se perder em meio a labirintos gramados e cheios de redes e traves. Que o diga Lula…

Nota: Esta crônica foi publicada no Digestivo Cultural.


 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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