Negócio da China: como funciona

21/06/2006
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Antônio C. Veloso, irmão do meu cunhado, é empresário do ramo de autopeças. Recentemente participou de um encontro, em São Paulo, com representantes de indústrias chinesas interessadas no mercado brasileiro. Passadas as formalidades e o grosso da reunião, sentou-se a conversar com um desses negociantes. A certa altura veio à tona a observação, corrente entre nós, a respeito da baixa qualidade dos produtos importados da China e o impacto destruidor de seus baixos preços.

“Uma esferográfica chinesa, por exemplo”, dizia Antônio, “não custa sequer 10% de uma caneta Bic, mas tampouco dura 10% do tempo desta última”. (Cá entre nós, ele quis dizer que as canetas deles são vagabundas mesmo.) O corolário desse processo é que, mais cedo ou mais tarde, a Bic e demais similares nacionais irão quebrar e nós só teremos canetas chinesas de meia tigela para consumir. (Aliás, tudo isso foi previsto por Oswald Spengler em O Homem e a Técnica, livro este que previa a quebra geral das empresas ocidentais pela inundação de produtos orientais e terceiro-mundistas muito mais baratos.)

Mas o chinês retrucou: “Não é assim que nós vemos as coisas. Nossa política não é a de empurrar produtos baratos de baixa qualidade para vocês. Nós fornecemos apenas o que nos é solicitado. Não damos preços. Muito pelo contrário. Vocês é que ditam o preço. Perguntamos: ‘Quanto vocês querem pagar por uma caneta?’ Se vocês disserem dez reais, tudo bem, fabricaremos canetas que valem dez reais. Mas se vocês disserem dez centavos, não esperem que lhes entreguemos canetas de dez reais no lugar delas…”

Huuummm. Então é isso. Os figuras são muito espertos mesmo. Nunca perguntam: “Vocês querem canetas ótimas, boas ou ruins?” Não, porque assim não funciona, isto é, não funciona para eles, pois não venderiam tanto. A essa pergunta a resposta seria: “Ora, queremos produtos excelentes!” A questão é que bons produtos made in China iriam lutar no mínimo de igual para igual com os autóctones. A invasão vermelha seria refreada. No entanto, qual seria a resposta a essa outra pergunta: “Querem produtos caros, baratos ou baratíssimos?” Pô! Quem é que quer pagar caro pelas coisas? Ninguém. Pelo menos ninguém que pare pra pensar uma só vez antes de comprar.

Enfim, a gente acha que é brincadeira mas eles realmente leram a Arte da Guerra do Sun Tzu: o melhor general é aquele que vence a guerra sem disparar um único tiro. Afinal, cem toneladas de canetas ordinárias não são vistas como agressão. Ao menos por enquanto…

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Adendo de 22 de Maio de 2007:

Já havia comentado neste blog a respeito de certa tática sui generis dos capitalistas chineses. Semana passada, tomei conhecimento de outra. Amigos recém chegados da França e da Espanha trouxeram a confirmação de algo que já tinha ouvido por alto aqui no Brasil. É o seguinte: um cidadão chinês vem ao nosso paiseco — ou à França ou à Espanha ou a sei lá qual buraco deste mundo — encontra um imóvel numa área adequada para instalar um comércio e, então, cheio de “boas” intenções, entra em contato com o governo de seu país. (Lembre-se: o capitalismo chinês é do pior tipo, um capitalismo de Estado. E, sendo a China comunista, nem é preciso esclarecer uma vez mais este ponto: ao contrário do socialismo, o capitalismo é menos um sistema que um instrumento. Ou ainda: é menos um sistema operacional que um mero sofware. Sacou a analogia?) Enfim, ele recebe do governo chinês a verba necessária para adquirir o imóvel e iniciar uma empresa. Em outras palavras: ele se torna apenas um pau mandado daquele governo. E sua contrapartida não é senão o compromisso de vender apenas produtos fabricados e importados da China….

Se as pessoas se chateavam tanto com o capitalismo americano e europeu — que ao menos trazia a indústria para cá, fornecendo-nos empregos e retirando tão somente parte dos lucros (merecido, vale dizer) — agora sim irão ver o que que é bom para a tosse. E pensar que Spengler previu tudo isso em seu livro “O homem e a técnica”, publicado em 1931…

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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