Libertários, estatistas, Friends, Jivago e Islã

21/06/2006
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Aaah, então o Daniel Christino, colaborador do meu blog O Garganta de Fogo, também tem crenças absolutas: “o indivíduo é pura ficção”, diz ele, num comentário ao texto do Paulo Paiva, também colaborador. A autoconsciência humana e o livre-arbítrio são, portanto, segundo essa perspectiva, desvios virtuais da nossa existência absolutamente animal e coletiva: não temos individualidade, somos meramente a “espécie humana”. Interessante mais essa confissão do nosso amigo, com a qual discordo. Mas ele tem razão em certo aspecto. No estágio em que estamos, sem um fiozinho sequer de Estado, cairíamos mesmo na barbárie, e como prova disso basta uma greve da polícia, que aliás já experimentamos.

Eu, porém, considero o Estado um tipo de gesso sobre o esqueleto fraturado da sociedade. Por quê? Ora, o que torna as relações viáveis numa sociedade é a confiança mútua entre os humanos. Presentemente ainda há ruptura, não há nexo pleno entre os indivíduos, somos quase todos, em graus diversos, estranhos um ao outro – muitas vezes dentro da própria família – daí a desconfiança geral. Ninguém confia o suficiente no próximo a ponto de deixar seu carro passar todas as noites na rua com a chave na ignição. (A não ser em algumas cidadezinhas de primeiro mundo, né, onde a delinqüência juvenil, advinda da perda de significado das relações familiares, ainda não tenha fincado raízes. Acho que a Rosa aí pode confirmar: em algumas cidades da Nova Zelândia, só ocorrem invasões de casas por parte de adolescentes bêbados, entediados e sem maiores necessidades materiais. Pura arruaça.) Mesmo os índios não gostam quando um branco chega na aldeia e fica pelado, pois não confiam naquele zé-mané doidão, vai saber, o cara pode avançar sobre a primeira adolescente que lhe cruzar o caminho. E aqui começa a diferença entre quem crê no indivíduo, não meramente como um ser plenamente realizado – do tipo, ah, se é gente é do bem – mas sim no indivíduo enquanto potência, e entre quem não crê de modo algum na realidade e no valor da individualidade humana. (Isto é, entre mim – e talvez o Paulo – e o Daniel, que acha o indivíduo uma “pura ficção”.)

Eu creio que o desenvolvimento do caráter individual, passível de ser detectado pelo grau de autodomínio demonstrado nas relações com o próximo, é sim um fato. Somos como centauros, se temos pulsões e tendências animalescas, instintivas, temos também a autoconsciência definidora do ser humano: sabemos que sabemos e, por isso, tomamos decisões, dentre elas decisões morais, a saber, aquelas que levam em conta os limites do nosso próprio bem-estar e o do próximo. Infelizmente, esse grau de autoconsciência e autodomínio não é uniforme na sociedade e por isso há ruptura e tensão. Eu, por exemplo, tenho certeza de que, ao passar por um carro estacionado na rua com a chave na ignição, e dentro duma situação completamente rotineira (ou seja, sem terremotos, explosões de bombas atômicas ou tsunamis), eu jamais me meteria dentro dele para levá-lo comigo. Meu autodomínio chegou a esse ponto, assim como também me controlo no que se refere a alguns possíveis vícios que já experimentei e que não se tornaram vícios de fato (ou crônicos), a saber, o jogo, o sexo e as drogas. Mas isto não é uniforme na sociedade – daí a necessidade de uma instância que possa mediar e assegurar as relações (o Estado), mas que, conforme haja multiplicação do número de pessoas de caráter, possa ser paulatinamente enfraquecida e retirada, tal como o gesso dos membros convalescentes. Isto é, a proposta libertária (ainda não cheguei no liberalismo), a meu ver, é um processo a ser efetuado aos poucos, conforme o “mínimo múltiplo comum” do caráter de uma determinada coletividade. Se a população for muito numerosa, mais tempo será necessário, no caso do Brasil, séculos. Mas atenção: este período de séculos é necessário para se atingir um libertarianismo relativo, já que um pleno englobaria todo o planeta. Na toada em que estamos, a Terra levará milênios para abdicar do uso da polícia.

Já o liberalismo apresenta a mesma proposta de redução do estado, só que ligada essencialmente às questões econômicas. Aqueles que não crêem no valor do indivíduo (nem me refiro aos extremistas, esses que não acreditam sequer na realidade do indivíduo) esses acabam por adotar o gesso social ad aeternum, o Estado: são os estatistas, hoje em dia, representados claramente pela ideologia de esquerda. Não há ideologia esquerdista que não veja o Estado como tendo maior valor que o indivíduo. E o Estado defendido pelas esquerdas é o oposto completo do Estado tendente a zero do libertarianismo: o Estado, no estatismo, tende a infinito. Quanto mais se crê no humano como mero animal desprovido do status de criatura, mais se concluirá que o controle precisa ser mais profundo, eficaz, detalhado, enfim, total: eis o totalitarismo. Para que o Daniel, discípulo da Hannah Arendt, possa entender, fiz uma tradução daquela frase com a qual ele tanto implica na terminologia e, por isso, não capta o conteúdo. A frase é: “o totalitarismo é a politização de todas as relações humanas”. Quando a utilizo, ele vem e me diz que política é toda ação humana feita pelo discurso (Arendt), logo, não tem vínculo necessário com o Estado. Deste modo, até mesmo “discutir a relação” com a namorada seria fazer política. Por isso agora traduzo para ele: “o totalitarismo é a estatização de todas as relações políticas”. (Observe que uso o termo “política” no sentido da Hannah Arendt.) As pessoas andam tão embriagadas com a idéia de Estado que até os estudantes – que deveriam ser o último bastião dos libertários – estão lutando, na França, para que o Estado controle ainda mais a relação deles com as empresas. Em uma palavra: ridículo.

O Daniel sabe que sou, por assim dizer, um “reducionista religioso” e, no fim das contas, sempre levo esses problemas mais complexos ao âmago da consciência humana, que é onde Deus se esconde em nós. (Religião, para mim, não é uma instituição, uma doutrina, templo ou livro, mas minha relação pessoal com o Pai.) Por isso falei que, para se crer no Estado como necessidade absoluta, é preciso perder de vista nosso status enquanto criaturas, enquanto filhos de um Criador. O livro “O Doutor Jivago”, de onde meus pais tiraram meu nome, não é um romance de amor romântico. É a história do médico-poeta Yuri Andreievich Jivago que, em meio ao caos da revolução russa, vê todos os fundamentos espirituais e cristãos do mundo que conheceu desabarem, deixando em seu lugar apenas a sanha estatista de reformar o homem como quem reforma um objeto. A Hannah Arendt mostra convincentemente que a industrialização está entranhada com a violência: produzir é essencialmente exercer violência sobre uma matéria-prima para transformá-la em outra completamente diferente. Tenha certeza de que, se um chumaço de algodão tivesse consciência, sentiria dor ao virar tecido. Daí a validade dos protestos contra a industrialização de alimentos de origem animal, anteriormente tão saudáveis quando fruto da produção familiar, e agora focos de doenças e crueldade. O estatismo toma para si não o “controle dos meios e modos de produção” de objetos de consumo, mas o controle dos meios e modos de produção de uma suposta “gente melhor que a gente”. Há violência no estatismo. Ao lutar contra os empresários e industriais, os estatistas transformam toda uma nação numa indústria de gente obediente, civilizada e homogênea. Numa granja, os pintos muito diferentes são jogados vivos numa trituradora – para criar ração. Num Estado totalitário, o mesmo é feito com os humanos: são torturados, mortos e transformados em alimento de mais ódio à única coisa que vale a pena neste mundo, o desenvolvimento duma personalidade livre, sadia e consciente do seu potencial de participar de toda uma estrutura cósmica que está a nos esperar. Na Criação há muitas moradas, mas para indivíduos.

A questão da religião, ao contrário de certas objeções que certamente surgirão a este texto, é de suma importância. Como sugeri no segundo parágrafo, o Estado Nacional – sim, Nacional – surge devido à desconfiança mútua entre os indivíduos e povos. O Estado Nacional há muito ultrapassou aquele estágio da cidade estado da República (Platão), que surge para que cada qual encontre sua própria função e para que a organização social, sendo justa, possa beneficiar a todos. A República de Platão não é uma entidade burocrática, não é dissociada da sociedade. Tampouco é perfeita. Porque, no fundo, nós só conseguimos confiar realmente é naquele que consideramos nosso irmão, nosso “bróder”. O que há, por exemplo, no seriado Friends de tão significativo? O que há naqueles personagens que os mantém dentro da simetria descoberta por Aristóteles na comédia, a saber, que a comédia é a imitação (mímese) de pessoas piores que a gente? Conscientemente não os vemos como “piores” que a gente. Muito pelo contrário, costumamos, sim, é nos identificar com eles, pois algo naqueles seis indivíduos nos faz sentir que são nossos amigos. Mas imaginemo-nos dentro do seriado tentando adentrar a casa da linda e divertidíssima Mônica Geller. Certamente seremos olhados com desprezo e colocados para fora com um pé na bunda, conforme já ocorreu com diversos coadjuvantes. Se não soubermos o inglês fluentemente então, rirão da nossa cara antes do chute. Porque os Friends são fraternais apenas entre eles, sua ética só tende ao absoluto entre eles mesmos. Quando ficam com a namorada do outro friend, quase morrem de culpa cristã. Mas se a namorada é de alguém de fora do grupo, estão pouco se fudendo. Eis a inferioridade deles. Porque nós, mesmo quando irreligiosos, crescemos numa sociedade que não existiria tal qual é sem o cristianismo. Sabemos que é necessário um mínimo de ética fora do nosso círculo mais próximo, caso contrário, o mundo desaba sobre nós, afinal, não somos as insubstituíveis estrelas do nosso próprio seriado. Apenas os Friends podem mentir para o mundo todo e só dizer a verdade entre si mesmos.

A confiança, enfim, torna-se um exercício de investigação: há quanto tempo conheço tal pessoa? Quanto eu a conheço? Se ela for um parente ou amigo de infância com quem crescemos juntos, não será difícil delinear os traços do caráter dela. Saberemos se ela é capaz ou não de respeitar nossa carteira, nossa geladeira, nossa casa, nossa namorada. Mas… e se acabei de conhecer alguém? Em geral, depende de quem o apresentou. A confiança é uma teia de relações muito mais resistente. Tudo se constrói sobre ela. “Esse é meu bróder, nele você pode confiar”. O problema desse grau de confiança é que depende muito do espaço e do tempo. Sim, vivemos no espaço e no tempo, mas nossa consciência – traduzindo ligeiramente Santo Agostinho – é como um surfista na crista da onda: a água que ficou para trás e a que vem pela frente só fazem sentido em relação à atual posição da minha prancha. Percebemos o passado e o futuro sempre da perspectiva desse meu eterno agora. A autoconsciência humana é a ponta do iceberg da vida eterna. Por isso há, na confiança, o germe da descoberta da divindade. Feliz é aquele que conhece um “fi-di-Deus”, nele confiando como um irmão, mesmo sem nada saber do passado dele, e não se vê nunca traído. Coitado daquele que abusa da fé alheia – falando de Deus, dos santos ou da água do Rio Jordão – para em seguinda levar vantagem sobre seu semelhante. Em verdade vos digo: tá fudido. Não porque será castigado, mas porque precisará provar em ações futuras que é digno de voltar a participar da rede de confiança, essa internet cósmica. E é só dentro dela que a prosperidade e a felicidade fluem. Contratos são alianças. O contrato mais perfeito é aquele feito apenas “de boca” e ainda assim nunca violado. O papel, a rubrica, o selo, o registro são frutos da desconfiança burocrática, do estatismo. Desconfiar é apanágio do Estado. Se sou um libertário que adora meter o pau no Estado e no atual governo, eu o sou porque creio que nosso povo merece mais confiança do que tem recebido. Conforme imagino ter ficado claro, não é necessária a extinção imediata do Estado. Deus nos livre disso, seria mesmo a barbárie. Mas, puts grila, por que tantas amarras de um lado (impostos altíssimos, regulamentações trabalhistas contraproducentes, leis absurdas, sistema jurídico demasiado complexo, excesso burocrático, mercantilismos) e tantas pseudo-liberdades de outro (fim do crime hediondo, arbitrariedades do MST, dos políticos, corrupção, cabides de emprego no serviço público)?

Sempre acho muito curioso alguém ler O Envangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago, mas se recusar a conhecer a vida IN-TEI-RA de Jesus narrada pelo Livro de Urântia. Ali fica claríssimo o significado do que Jesus dizia quando lhe pediam para provar que era quem afirmava ser, o Filho-Criador: “vocês me conhecem, sabem de toda minha vida, sempre fui um homem justo”. E foi também belo e bom. Uma árvore boa não dá frutos ruins. Sabendo que mesmo no espaço-tempo deveria agir segundo sua divindade – deixando estampada no espaço e no tempo a sua conduta perfeita -, nunca se desviou. Foi tentado, sentiu todas as pulsões e impulsos, mas provou ter autodomínio absoluto e consequentemente ser um Homem completamente confiável. Daí o valor da sua palavra. A saudação Namastê, do sânscrito, traduz exatamente o ponto de conexão através do qual se estabelece o link da confiança. Namastê significa: “Curvo-me perante ti” e, por extensão de sentido, “O Deus que vive em mim saúda o Deus que vive em você”. É essa a pedra fundamental da confiança.

Em vista de tudo isso é que digo: o poder do Estado é inversamente proporcional ao alcance espiritual de seus cidadãos e à redução da ameça externa de seus inimigos. A Nova Era Teocrática, prognosticada por Harold Bloom na literatura e por Spengler nos ciclos históricos, já está se aproximando. Taí o Islã que não me deixa mentir. O uso político – isto é, estatista – da religião é um mal terrível, pouco importando qual doutrina religiosa seja a vítima travestida de vilã. Os islâmicos politizados atacam nossas democracias visando implantar seu califado mundial. Não adianta enfrentá-los com ideais democráticos e humanistas. Isso é inócuo para quem crê numa transcendência filtrada por uma visão pervertida de Deus e da vida eterna. O Ocidente só sairá bem dessa se cada um de nós abraçar os ideais de sua religião original, muito mais universais que o conceito maometano, que nunca chama, em ponto algum do Corão, Deus de Pai. Logo, se Alá não é Pai, nós humanos não somos filhos e muito menos irmãos. Isto é um perigo enorme. Ou aprendemos rapidamente qual a origem real da confiança ou futuramente deixaremos para trás um Estado mundial milhões de vezes pior que os nossos estados nacionais seculares, um Estado em que Alá é que é o Ditador. O conceito “Alá” é, em certo sentido, mais limitado que o conceito cristão “Deus”, porque, para o cristão, Deus além de ser “A Divindade”, “A Primeira Fonte e Centro”, também é capaz de se manifestar como Pessoa, e só uma pessoa pode ser “o Pai”. Mas isso obviamente não significa que um Estado teocrático com o “conceito correto” de Deus seria um bem. Não. Religião, tal como fica subentendido nesse neste segundo conceito, é o nome que se dá à relação pessoal da criatura com o Criador, não tem nada a ver com estatismo. E, infelizmente, a outra opção ao hipotético califado não é muito melhor: uma ONU tornada Estado mundial e com o mesmo papo fidelista e chavista que visa tão somente nos amedrontar diante doutro império, seja ele americano ou islâmico, apenas para aumentar seu poder sobre nós. (Vide George Orwell.)

Enfim, o indivíduo existe e tem necessariamente um centro fixo, em sua consciência, através do qual estabelece uma conexão com a Criação, na qual quem impera é o amor e a confiança. Em quem você irá confiar? No temporal ou no Eterno?

 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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