Jesus de Nazaré e Che Guevara

18/03/2004
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Em um desses inúmeros blogs abarrotados de absurdos, li um post no qual seu autor compara Jesus a Che Guevara. Claro, tudo porque este último usou da retórica mais safada: hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás. E isto quer dizer: hay que matar o lo que sea, todo para que venga la revolución y los pobres tengan lo que comer, tadinhos. Puro auto-engano. O mais louco é que, segundo a Quinta Revelação de Época (informe-se), Barrabás não era senão a versão temporã do Che Guevara: assaltava, roubava e matava para financiar a luta contra o Império Romano. (O pessoal da luta armada nos anos 60 e 70 — adeptos da retórica guevariana — não diziam roubo, mas expropriação. Um eufemismo que supostamente os livrava do mal.) Diz ainda a Revelação que os dois ladrões, crucificados com Cristo, eram comparsas dele, Barrabás. Aliás, seria bastante plausível afirmar que Judas Iscariotes é que era o “santo padroeiro” de Che Guevara e de Barrabás. ¿Não foi ele quem disse, ao ver Maria de Betânia ungir a cabeça de Jesus com alabastro, “Por que é este desperdício? Pois este ungüento podia vender-se por grande preço, e dar-se o dinheiro aos pobres”?

Eu sei que é difícil — para alguém que não crê na possibilidade da vida eterna — perceber o erro de tal comparação. Para tal pessoa Jesus e Che não são senão dois idealistas, dois revolucionários, dois rebeldes. Ambos lutaram contra certa opressão e pereceram nessa luta. Mas se o Che foi um cara bem intencionado — e acredito que, no início, até fosse — isto não significa que sua percepção do mundo era correta. Junto a Fidel, ele combateu a ditadura de Batista em nome de uma ideologia centenas de vezes mais sanguinária, repressiva e escravizante que qualquer outra derivada do capitalismo, que, aliás, é um fato e não uma idéia. Na verdade, nenhuma ideologia matou mais que o socialismo do século XX. Milhões de pessoas foram presas e executadas na União Soviética, leste europeu, China, Coréia do Norte, Vietnã, Laos, Camboja e Cuba. E executadas de modo organizado, planejado, em nome da melhoria da sociedade, em nome do bem comum, da maioria. Sem falar nos milhares que morreram na América Central, do Sul e África em guerras civis provocadas por quem defendia a mesma causa: a distribuição das riquezas. Mas não adianta: o estado natural desse mundo é o de escassez. Nada se consegue sem trabalho, de graça, as coisas não caem do céu e não existem rios de leite e mel. Não há pés de eletrodomésticos, de remédios, de roupas, trens e navios. E, infelizmente, os homens não são física e intelectualmente iguais, há gradações. Logo, ¿qual critério usar para se dividir o bolo? Eis o princípio das dores. Uma vez tomado o poder, a elite política socialista simplesmente não pode mudar a realidade, a natureza das coisas. Mas tenta, tenta, tenta. O psicólogo Oto Rank afirma que tal afã é o próprio fundamento da maldade. Querer excluir do mundo o acaso e os acidentes é, na verdade, torná-lo insuportável.

O capitalismo, por sua vez, não é exatamente uma ideologia, mas um nome dado a uma realidade, a um instrumento que, se estiver aliado à iniciativa privada mediante relações de livre mercado, resultará em prosperidade e no bem estar dos participantes. Aliás, quanto maior o número de participantes melhor. Já uma empresa não é um monstro, mas uma técnica de organizar indivíduos visando determinados objetivos produtivos. E mercados sempre existiram. Variam segundo o grau de abstração e complexidade, mas são sempre pessoas e grupos em ação de troca, harmonizando necessidades e interesses. Que também haja injustiças nesse esquema é inegável. Mas decorrem de fatores morais individuais, não de uma vontade de recriar a natureza humana do zero, de cima pra baixo, com as graças do Estado. (Na verdade, todo regime socialista não é senão capitalismo na coleira estatal servindo a uns poucos dirigentes.) No socialismo, César quer ser Deus. E era justamente isto que Che Guevara defendia e foi por este ideal que morreu. Para um revolucionário político, os fins justificam os meios. Mesmo que seja preciso pegar em armas e lutar contra pessoas que supostamente são agentes inconscientes de um império X qualquer. E Che queria “mudar o mundo” a qualquer preço.

É preciso lembrar que Jesus não foi apenas um homem, como Che, mas o próprio Senhor do Universo experimentando a vida na matéria. Enquanto ele estava aqui, milhões e milhões de seres, em moradas mais aprazíveis, acompanhavam seus passos através de transmissões universais. Foi uma espécie de Big Brother cósmico, um Show de Truman divino (vide Livro de Urântia). Cristo esteve aqui para revelar o Pai a milhões de mundos, materiais ou não, e não apenas para pregar uma utopia irrealizável. Ele também provou que é possível ser um mortal e, ao mesmo tempo, cultivar um caráter perfeito. Jesus não queria tomar o poder do Império romano ou se sentar no trono do estereotipado Messias judeu. Ele era — e é — o Poder, seu Reino não é deste mundo. Tudo o que ele veio nos dizer é que um “fragmento” de Deus — do Pai eterno — reside em nossas mentes, dando realidade às nossas almas, e que, pela autoconsciência moral e pela bondade, aumentamos o nosso potencial de sobrevivência à morte física. Ele veio, enfim, nos convidar a fazer parte deste projeto cósmico de avançar de plano em plano até alcançar a presença do Criador. E ponto final. Nada de olhares penetrantes retratados por Alberto Korda ou de retórica política justificando o injustificável: o assassinato de inocentes em nome de uma pretensa sociedade perfeita. Cristo veio pregar a liberdade do espírito por meio da própria experiência individual de conhecer o Criador. Che lutava para libertar a ideologia coletivista de seus detratores, entre eles, e principalmente, os capitalistas Estados Unidos da América. Em seu coração ele até podia sentir verdadeira ternura pelo povo sofrido, mas escolheu o caminho errado e tornou-se uma figura trágica. Jesus também teve uma morte violenta, mas interiormente nunca se desviou um milímetro da Verdade. A rebeldia de ambos não possui qualquer equivalência. Uma vinha de um falso orgulho intelectual; a outra de legítima Autoridade espiritual que, aliás, só desafiou aqueles que insistiam em deturpar as realidades divinas. A revolução de Che era a revolução das armas. A de Jesus, a da Verdade Viva contra a tradição morta.

É por esses motivos que afirmo ser um absurdo, tal como fez esse blogueiro cuja identidade não vem ao caso, comparar Che a Jesus. Um, como Barrabás, não sabia o que fazia; o outro sabia completamente. E, no entanto, a massa de manobra, ontem como hoje — instigada pelos sacerdotes da palavra morta — continua preferindo Barrabás a Jesus. Se o idealismo do Che era uma utopia irrealizável, o ideal de Jesus — revelar o Pai celestial aos humanos — foi totalmente efetivado. 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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