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Gimme Shelter: brincando com o fogo do inferno

Imagine a cena: numa região distante da civilização, um sedutor Mestre de Cerimônia de ar andrógino e cabotino sobe ao palco e — protegido por anjos infernais que se põem à sua volta — berra à assistência formada por milhares e milhares de pessoas, algumas para lá de Bagdá, outras para cá de Psychedelic Land, algumas nuas de corpo, outras de cérebro, berra a toda essa gente que ele, o beiçudo e sexy Mestre de Cerimônicas, morre de simpatias pelo demônio. ¿Qual o resultado? Ora, um sacrifício humano, é óbvio, providenciado por um dos anjos do inferno que ocultava uma oportuna adaga sob seu casaco de couro. Toda a cena é real. E o pior: foi devidamente registrada no documentário Gimme Shelter [1], de 1970.

Eu já ouvira essa história antes, mas — puts! — o Mick Jagger foi muito, mas muito mais ingênuo do que jamais sonhou minha vã filosofia. Porque, afinal, ¿quem disse que há diferença entre encenar um sabá e realizar um? Os caras criaram, literalmente, uma egrégora dos diabos! Ora, por definição, todo ritual é uma encenação, pois uma encenação não é senão um conjunto de gestos, atos e palavras de cunho simbólico, através dos quais se transmite determinado sentido à nossa afetividade. Deu no que deu: além de Meredith Hunter [2] — que fazia aniversário no mesmo dia que eu (24 de Outubro) — morreram outras três pessoas no evento. Mick Jagger, pois, acabou protagonizando a ironia das ironias, o mico, o king-kong dos anos 60: no início do documentário, que acompanha toda uma turnê da trupe, declara diante da câmera que aquele show coletivo — o maior até então — iria provar que a nova geração podia, sim, prescindir do establishment, que eles, os jovens, é que sabiam o que era viver e se divertir em paz e com amor, sem necessidade de policiamento e do controle dos velhos caretas… Tomou papudo! (Daí o porquê de os caras andarem com tantos leões-de-chácara hoje em dia.)

Ainda bem que os anjos do inferno, isto é, os Hell’s Angels — que protegiam o palco naquele dia fatídico –, não serão os responsáveis de improviso pela segurança do show dos Rolling Stones hoje, em Copacabana. Pelo menos não no plano material… 

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