Um papo estranho

06/08/2015
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"Meus velhos amigos estão no Facebook, mas nunca conversam comigo."

"Os meus tampouco, na verdade, nem respondem minhas mensagens diretas."

"Os meus respondem no máximo com um ‘sim’, um ‘não’ ou um ‘talvez’."

"Por que será?"

"Ah, deve ser por causa de política ou de religião. Com o tempo as pessoas vão notando as diferenças de opinião e vão se afastando. Cada macaco no seu galho."

"Muito chato isso."

"Nem me fala."

"Mas acho que comigo isso acontece por outras razões…"

"Por exemplo?"

"Ah, a maioria parou de falar comigo depois que entrei numa festa armado, atirando em todo mundo."

"Como é?!"

"Sério, mas não matei ninguém não. Era um revólver de espoleta."

"Ah, bom…"

"Mas ninguém achou graça. Com a paranóia geral, ficaram foi putos, pensando que era de verdade. Teve gente que se jogou debaixo da mesa; muito engraçado. A namorada de um amigo meu me xingou pra caramba, aí chamei ela de puta e tal."

"Credo."

"Ah, mas era uma vagabundinha mesmo. Já tinha dado pra todo mundo, só ele não sabia. Até aquele momento, claro. E sobrou pra mim: o cara me encheu de porrada."

"Puts…"

"Pelo menos não foi como numa outra festa, onde servi um space cake pra galera."

"Que que é isso?"

"Um bolo feito de maconha, porra."

"Ah, tá…"

"Aí sim quiseram me matar… Todo mundo alucinando e tal. Chamaram a polícia, imagine. Esse pessoal careta, quando finalmente fica louco, perde as estribeiras…"

"Você parece ser meio psico, né."

"Psico? Só eu?"

"Bom, eu nunca fiz esse tipo de coisa. No máximo declaro abertamente minhas posições sobre política, religião…"

"E só eu sou psicótico?"

"E o que há de psicótico em assumir minhas idéias numa rede social?"

"Bom, nisso não há nada de psicótico, mas, se você já se esqueceu, estamos ambos com o pau de fora conversando no Chatroulette.com…"

"Hum, é verdade. Já tinha até abstraído. Mas é que, caramba, só tem pau de fora aqui e as garotas nunca conversam com a gente."

"Tá, mas é injusto, numa situação como essa, eu ser o único psicótico…"

"Ok, ok, me desculpa."

"Pelo menos a gente consegue conversar, ao contrário do que ocorre com nossos antigos amigos."

"Isso é verdade."

"A gente podia se adicionar no Facebook…"

"Tá louco, meu! Você acha que vou adicionar um cara de quem só vi o pau! Tá achando que sou bicha? Vai se ferrar, cara!"

"Ah, vai você, seu idiota!"

E então ambos apertaram no "Next".

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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