Teologia da maconha (um conto BASEADO em fatos reais)

26/11/2015
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— Paulinho! Vem cá pra você ver o que foi que eu achei!

Quando ouviu o chamado da mulher pelo vão da escada, Paulo César estava no segundo andar daquele sobrado geminado do município de Diadema. Estava entretido no quarto principal, retirando sapatos, botas e tênis de uma caixa de papelão e ocupando o pouco espaço que ela lhe deixara no armário. Haviam acabado de mudar-se — eram recém casados — mas ele já a conhecia o suficiente para saber que, sempre que o tratava pelo diminutivo, algum fruto proibido viria por aí. Ele tinha certeza de que Eva, ao oferecer o fruto da árvore que estava no meio do Jardim, o teria oferecido ao Adãozinho, jamais ao Adão.

— Já vou, Anita! — respondeu altissonante, imaginando que lá embaixo iria vê-la debruçada sobre uma caixa cheia de apetrechos eróticos, provavelmente com um par de algemas nas mãos ou, quem sabe, já vestida com corpete e cinta-liga. Aquela amiga que a esposa arranjara na igreja parecia ter lido apenas o famigerado Cinqüenta Tons de Cinza. Novo Testamento? Que Novo Testamento? Não que ele não gostasse das brincadeiras — gostava muito — mas isso era dica de leitura para se ouvir após um culto?

Paulo César saiu pelo corredor, pé ante pé, desviando-se como podia das muitas caixas ainda fechadas. Mudança era uma coisa divertida nos primeiros dois dias, depois virava um martírio. Onde iriam meter tantas coisas? Anita parecia uma curadora de museu ou uma colecionadora viciada no eBay. “Eu sou aquariana!”, repetia sem parar, defendendo suas inúmeras posses. Ele, que esteve tantas vezes no quarto dela, enquanto ela ainda morava com os pais, jamais imaginou que a então namorada escondia tantas bugigangas em outros aposentos.

— O que foi, Bonita? — indagou ao descer o último degrau e vê-la ajoelhada diante de uma caixa. Não, ela não estava de corpete e muito menos com algemas.

Anita virou o rosto para ele, sorrindo: — Eu tava revirando os bolsos dessa mochila que a gente usou na viagem pra Chapada e olha só o que encontrei — e, erguendo o braço, mostrou-lhe um baseado roliço, branco e teso, como se ela o tivesse acabado de bolar.

Ele fez uma careta cheia de desconfiança: — Tá brincando que você achou isso…

— Sério, amor!

— Bonita, Bonita… — censurou-a.

Ela se levantou, ofendida: — Você acha que vou mentir pra você na nossa primeira semana de casa nova, Paulo César?

Quando ela o tratava pelo nome completo, não havia por que duvidar do que dizia.

— Desculpa, Bonita. É que essa viagem pra Chapada já tem quase três anos e o beque está inteirinho. Olha aí!

— É porque ele tava dentro desse tubo que você mesmo comprou no DealExtreme, lembra? Olha — e lhe indicou um tubo metálico, rosqueado, que se abria ao meio para guardar trecos. Parecia um supositório de presidiário de dez centímetros (dez centímetros o tubo, não o presidiário), mas era apenas um chaveiro bastante útil. Paulo inclusive se lembrou de lhe ter dito à época: “Papillon, lá na Ilha do Diabo, teria adorado guardar sua grana no fiofó com isto aqui”. Mas ela não sabia quem era Henri Charrière, nem tinha lido o livro ou visto o filme. Por isso tampouco se lembrou agora dessa referência que teria devolvido ao marido, logo de cara, a culpa pelo tráfico involuntário.

— Tá certo, gata. Mea-culpa. Mas e daí?

— Uê! Vamos fumar!

Ele arregalou os olhos: — Tá maluca?! Depois de tudo o que a gente já passou?

Era verdade. Em anos pregressos, ambos tiveram graves problemas com drogas. Paulo nunca foi um verdadeiro viciado, desses que são fiéis a uma substância específica, mas havia experimentado de quase tudo: chá de cogumelo, chá de lírio, ayahuasca, mescalina, ácido lisérgico, special K, ecstasy, skank, freebase, haxixe e, claro, a simples e ordinária maconha. Tudo envolvido numa frágil aura de misticismo e de busca interior que apenas o levaram ao solipsismo e às portas do suicídio. Cada viagem era uma aventura existencial: “É como pegar uma onda”, dizia aos amigos. “Você só precisa deixar o ego de lado, relaxar e dropar. É assim que os surfistas sobrevivem”. E mais tarde ele descobriu que é buscando ondas cada vez maiores que os surfistas finalmente morrem… Já Anita, com a lealdade das amantes, contentou-se em cheirar cocaína anos a fio, tendo depois experimentado, graças a ele, durante as festas a que acorreram juntos, ecstasy e ácido. E, sim, também a maconha, que mais tarde ela passou a comprar e a lhe fornecer porque gostava de ouvi-lo viajar na, conforme diziam, “maionese cósmica”. Ele, que tinha pais evangélicos, crescera ouvindo sobre Deus e Jesus, substituindo-Os, na adolescência, pelo cientificismo do século e, mais tarde, pelo agnosticismo psicodélico-eletrônico do tipo que, durante a dança, espera ver Shiva baixar a qualquer momento — contanto, é claro, que se tome a droga certa na dose certa com o DJ certo… Faltou pouco para ele escrever sua própria versão de Ecce Homo e, como Nietzsche, chegar à conclusão de que não era outro senão o próprio Deus. Aliás, faltou pouco apenas para escrever o livro, porque, de fato, Paulo César chegou à conclusão de que era — assim deixou escrito em nota de despedida — o “Deus Supremo” e de que se matava para, mediante seu próprio sacrifício, trazer de volta à Terra a Era de Ouro. Felizmente, o tiro da Beretta .22 não lhe atingiu o coração e ele despertou, dias depois, numa cama de hospital. Nessa mesma época, ele e Anita estavam separados havia vários meses e ela, alternando depressões com episódios de síndrome de pânico, abandonou a faculdade e já não saía de casa. Ela, que sempre vira na convivência com os amigos o sentido da vida, já não podia encontrá-los, pois todos mantinham o vício e poderiam levá-la de volta ao pó. Por fim, debilitada e vazia, a garota resignou-se e aceitou a proposta dos pais. Ambos voltaram, pois, e sem qualquer premeditação, a encontrar-se numa clínica de reabilitação para drogadictos. Foi lá, de mãos dadas, que Paulo César e Anita, após vencerem grande resistência, finalmente entenderam o significado da Vida Eterna e o valor da lealdade ao Pai Celestial. Um ano e meio depois, estavam casados.

— Mas você mesmo disse outro dia, Paulo: Deus também fala com a gente através das coincidências. Esse vai ser nosso beque de despedida!

— Anita, você tá cansada de saber que eu posso ficar paranóico e ter uma carrada de flashbacks e badtrips.

Ela riu: — Deixa de ser besta! A gente tá na nossa casa. O que pode acontecer de errado?

……

ATENÇÃO: Devido a contrato assinado com a Editora Record, você leu apenas o trecho inicial deste conto, que poderá ser lido integralmente no livro “A sábia ingenuidade do doutor Pinto Grande”, a ser lançado em breve. Obrigado! (07/05/2017)
 

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Arquivado sob: Contos

  • Melwin Pardo

    Caro Yuri,
    Só ontem tive o primeiro contato com os seus textos e já virei fã. A sua abordagem para assuntos tão sérios tratados com tamanho humor me agrada muito.
    Parabens!!

  • Obrigado, Melwin.

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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