Piptadenia peregrina

22/09/1996
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Naquela primeira semana de aula já haviam ocorrido dez mortes. As vítimas eram professores de dois diferentes departamentos e institutos da Universidade de Brasília. O primeiro assassinato foi o de um professor de Física, estrangulado, durante uma reunião do colegiado, pelo chefe do seu departamento. Este alegava que o tal professor não tinha uma produção acadêmica condizente com sua qualificação curricular. Chamou-o de inadimplente e, por fim, de canalha. Quando o professor, que a tudo escutava impassível, ameaçou dar outro bocejo, teve seu pescoço enlaçado pelo fio do telefone. O chefe foi impiedoso. Os outros professores nada fizeram em defesa do colega. Concordavam com o chefe. Aquela sinecura tinha que acabar.

Quando outros doze professores, dessa vez da Letras (Teoria Literária), foram vitimados num atentado à bomba, Andrade, professor de botânica e taxonomia vegetal, começou a andar armado. Ele também enfrentava problemas na relação com o colegiado do seu departamento. Os professores da letras haviam caído numa astuciosa armadilha. Receberam uma convocação falsa para uma reunião extraordinária. Inclusive o chefe do departamento fora enganado. Quando todos ainda esperavam o professor Armando Guerra para poder dar início à reunião, a bomba explodiu. Estava dentro do bolo de chocolate. Claro, todos desconfiaram do professor Armando Guerra, pois já conheciam seu inveterado desejo de ocupar a chefia do departamento, além de seu indefectível talento na cozinha: adorava fazer bolos e tortas. Mas como não puderam provar nada, ele tornou-se chefe. De si mesmo, pois agora era o único professor vivo do departamento.

O professor Andrade, da botânica, também era chefe do seu departamento. Mas já não temia atentados à bomba. Após a chacina da Letras, um famigerado esquadrão anti-bombas da polícia vasculhava a universidade inteira, inclusive os carros que entravam no campus, todos os dias sem exceção. Por este lado não tinha com o que se preocupar. Problema mesmo eram aqueles professores egressos do sertão nordestino, com os quais tinha divergências metodológicas. Eles haviam encomendado sua morte a dois jagunços importados do interior de Sergipe. Estes lhe estavam sempre armando tocaia. Outro problema era a Associação das Mães da Praça dos Três Poderes. Elas criaram essa associação para pressionar o governo a tomar providências no sentido de encontrar seus filhos que, durante as aulas de campo do professor Andrade, haviam desaparecido no cerrado vizinho à UnB. Os alunos temiam essas aulas. O Andrade andava rápido demais.

“Que merda, cara, cadê o Andrade?!”

“Acho que ele foi por ali.”

“Não, não… Foi por ali.”

“Meu Deus! Estamos perdidos…”

O professor Andrade não comentava nada, mas era notório que se satisfazia ao perder por aí todos aqueles alunos que pouco ou nenhum interesse dedicavam à sua disciplina. Na sala, antes de partir para o campo, dava uma longa sugada na bomba do chimarrão e observava a turma:

“Hoje é aquela loirinha quem vai dançar…”, pensava.

Mas foi numa manhã de sexta-feira, do mês de Agosto, quando se registrava uma umidade relativa do ar de 13%, que o professor Andrade se viu realmente em maus lençóis. Ao entrar na sala da chefia do seu departamento, encontrou o professor Aureliano sentado em sua mesa. Aureliano era um baixinho de bigode extremamente petulante.

“O que é que tu fazes na minha mesa?”, perguntou Andrade indignado.

“Não é mais a sua mesa não, Andrade. Agora EU tô no comando.”

Era um golpe. A primeira reação de Andrade foi levar a mão à arma, que agora sempre trazia consigo. Antes de sacá-la do coldre, porém, foi admoestado pelo professor Aureliano:

“Eu não faria isso se fosse você”, e no mesmo instante apareceram os dois jagunços, ambos armados com peixeiras e submetralhadoras Uzi. Andrade desfez o gesto. Pensou um pouco.

“Vou dar minha aula”, começou, “e se na volta eu te encontrar aqui… Ai, ai, ai, tu verás uma coisa.”

Aureliano deu um sorrisinho mofador e fez sinal para que um dos jagunços abrisse a porta para o professor Andrade.

“Boa aula”, disse.

Os alunos, para poder acompanhar o professor Andrade, nunca tiveram que correr tanto como naquele dia. Ele estava fora de si.

“Ele deve ter comido uma daquelas plantas narcóticas que sempre mostra pra gente”, disse um aluno antes de desmaiar de sede, pois esquecera seu cantil em casa.

É verdade, Andrade pertencia à confraria daqueles que leram todos os livros do Carlos Castañeda. Havia feito intercâmbio nos EUA, no auge dos anos sessenta, e, certa feita, dividiu um ácido com um maluco metido a poeta que conhecera num bar de Los Angeles. Quando voltou a si, no dia seguinte, na casa do maluco, descobriu que este se chamava Jim Morrison.

Andrade, que já estava quase correndo pelo cerrado, estacou de repente. Lá estava uma Piptadenia peregrina, uma espécie de angico — o paricá — do qual os índios extraiam a semente para fabricar um rapé alucinógeno, que utilizavam em rituais de metempsicose. Sempre quisera mostrar essa árvore para os alunos. Mas quando olhou em volta, estava sozinho.

“Nossa!”, sussurrou. “Desta vez, perdi todo mundo.”

E no entanto, após examinar a situação mais acuradamente, descobriu horrorizado que ele é quem estava perdido. E assim ficou por quase três dias, quando percebeu que estava sendo seguido pelos jagunços. Ficou, pois, esperto e só andava com o revólver à mão. Mas não adiantou.

“Ah, rá!”, fizeram os jagunços ao surpreendê-lo, apontando as submetralhadoras para sua cabeça.

“AH, RÁ!”, fez toda a tribo guerreira, constituída por alunos desaparecidos, ao render tanto Andrade quanto os jagunços, com seus arco & flechas e tacapes e bordunas e coquetéis molotov e camisetas com a cara do Che.

Os prisioneiros foram levados até a taba. Andrade foi amarrado na coluna central da Grande Oca. Os jagunços flanqueavam-no amarrados em estacas. Um dos alunos-selvagens, que parecia ser o cacique, colocou uma placa sobre a cabeça de Andrade com a inscrição: INRI – Índio Não Reage Injustamente.

“Agora nóis derreter seu cérebro”, disse o aluno-cacique, que, mais por falta de televisão do que de leitura, parecia esquecer o português. Tinha um tubo de bambu na mão. “Aqui dentro ter pó de semente de Piptadenia peregrina“, disse brandindo selvagemente o tubo. “Você lembrar, professor?”

“Se tu soprares esse rapé no meu nariz”, começou Andrade, “eu vou virar bicho. Olha lá, hem? Tu podes te arrepender…”

“Qualé, professor? Nóis derreter seu cérebro.” E para o resto da tribo: “Galera, mim quer ver todos cantando”, e começaram a cantar Lucy in the Sky with Diamonds.

O aluno-cacique aproximou a extremidade do tubo do nariz de Andrade e assoprou. Andrade,  arfando, jogou a cabeça para trás. Depois começou a soltar gritos terríveis, lancinantes. Os jagunços estavam apavorados.

“Se você vai virar bicho, podia soltar a todos nós”, murmurou um deles.

Andrade não deu ouvidos:

“Pai”, disse, “perdoa-os porque não sabem o que fazem.”

E transformou-se numa onça-pintada enorme, que, com um simples movimento do corpo, derrubou a coluna que sustentava a oca matando a todos, à exceção de si própria. Quando a Associação das Mães da Praça dos Três Poderes descobriu o ocorrido, reivindicou, junto ao governo, verba para construir um memorial no local. O memorial foi projetado por Oscar Niemeyer e se constituía de dois elementos principais: o Monumento aos Alunos Desaparecidos no Cerrado — que para ser feito precisou-se cobrir metade do cerrado com concreto — e o Auditório Dois Jagunços.

Quando a onça emergiu dos escombros da oca, serviu-se de seu faro para retornar ao Instituto Central de Ciências da UnB. Uma vez lá, atrapalhada por seu cérebro irracional, teve que devorar todos os baixinhos de bigode que encontrava, pois dentre todos, não conseguia distinguir qual era o professor Aureliano. Infelizmente, entre os cinqüenta e três baixinhos de bigode devorados, nenhum era o Aureliano. Hoje, a onça está lá no zoológico, triste, coitada, com cara de quem perdeu a chefia do departamento.

____

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau.)

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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