Doutor Pinto Grande e o pedinte do metrô

17/05/2015
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Metrô

(Atendendo a pedidos, eis mais um conto com o personagem Doutor João Pinto Grande.)

Doutor João Pinto Grande desceu as escadas da estação Conceição do metrô, na zona sul de São Paulo, e se dirigiu até a área de embarque. Era um domingo claro, de poucas nuvens, mas fazia muito frio — nada incomum para uma manhã de fins de Junho. Levava consigo o livro que prometera ao amigo que ora ia visitar: “O Critério”, de Jaime Balmes, editado pela mítica Livraria Editora Logos. Tomás Casarini, o amigo, um escultor de temperamento tipicamente artístico, certamente não abordaria a obra de maneira sistemática, sisuda, como o faria um intelectual comum, mas, conforme lhe era costume, retiraria do texto interessantes insights. Claro, o doutor permanecera um bom tempo em dúvida sobre tal empréstimo: ora, aquele cretino vivia perdendo seus livros! Emprestá-lo ou não emprestá-lo — eis a questão que o afligira antes de sair de casa e que, volta e meia, ainda o fazia retorcer os lábios.

— Não corre na minha frente, filho! — dizia um homem, ao deixar a escada rolante, buscando a mão de um garoto e trazendo o advogado de volta à realidade.

Em menos de um minuto, a composição, vinda do Jabaquara, adentrou a estação e as poucas dezenas de pessoas ali presentes se aproximaram da faixa amarela. Os vagões pararam, as portas se abriram, e calhou de o doutor Pinto escolher um vagão com a maioria de seus assentos desocupados. Entrou, sentou-se de costas para a janela e, num assento perpendicular ao seu, à direita, deixou-se desabar com visível cansaço um senhor de seus oitenta anos de idade. Do outro lado do corredor, sem parar de falar um segundo, ambas com grossos cachecóis, sentaram-se ombro a ombro duas mulheres de meia-idade: criticavam duramente o andamento de uma telenovela. Após o aviso sonoro, as portas se fecharam e o metrô partiu.

Distribuídas ao acaso, havia naquele vagão outras doze pessoas e, à exceção do doutor Pinto, todas as demais já mantinham ou os olhos baixos, perdidos algures, ou vidrados em seus celulares, ou então fixos em seu próprio reflexo à janela do metrô, tudo com o fito inconsciente de evitar o constrangedor contato direto com as janelas das almas alheias. O companheiro de viagem mais próximo, além de cansado, parecia particularmente infenso à presença de seus semelhantes. Não parecia uma boa idéia introduzi-lo num diálogo. Pelo jeito, pensou o doutor, o melhor a fazer era também alhear-se. Sem querer, pois, ferir susceptibilidades com sua curiosidade natural, abriu numa página ao acaso o livro que tinha em mãos. E leu: “Concluamos. Seria portanto contra a razão e a justiça acreditar no mal sem razões suficientes, e em nossos juízos tomar nossa malícia como garantia da verdade”. E então conferiu o título daquele que era o sétimo capítulo: “A lógica de acordo com a caridade”.

“Ah, Tomás…”, pensou o doutor. “Eu o proíbo de perder mais este livro! Estou confiando em você. Se perdê-lo, meu amigo, eu nunca mais lhe emprestarei nada!” e sorriu.

Na estação São Judas entraram novos passageiros e, assim que a composição retomou o movimento, postou-se à frente dos dois homens um rapaz vestido humildemente, a roupa e o par de tênis já bastante gastos, um casaco de nylon bastante fino que mal devia protegê-lo de uma brisa. Estranhando aquela excessiva proximidade, visto que o vagão ainda não estava cheio, o doutor olhou para cima, encarando-o.

— O senhor pode me arranjar dez reais? Ainda não comi nada hoje — apressou-se o sujeito.

— Claro — respondeu prontamente o doutor Pinto, levantando-se ligeiramente para retirar a carteira do bolso de trás das calças. Abriu-a, encontrou duas notas de cinco e as entregou ao homem que, aparentemente surpreso com aquela atitude desprovida de hesitação, agradeceu com um silencioso e exagerado gesto da cabeça. E logo se retirou, colocando-se à frente da porta mais próxima.

O vizinho de assento do doutor Pinto, realçando sua aparência de poucos amigos, começou a resmungar. Parecia indignado com o que havia presenciado.

— O senhor está se sentindo mal? — indagou o doutor.

O velho lhe atirou um olhar cínico, um sorriso que mais parecia um esgar:

— Se estou me sentindo… — e desistiu da frase, irritado. — Ai ai… — e, antes de prosseguir, deu um longo suspiro. — Pra ser sincero, depois de ver você agir feito uma mocinha simplória do interior, sim, eu tô me sentindo mal. Muito mal.

O rapaz, que ainda se mantinha diante da porta, alcançou ouvir uma ponta da conversa e, visivelmente envergonhado, baixou a cabeça. O velho, que estava de costas para a porta, não o viu, mas doutor Pinto não perdeu a cena.

— Desculpe — disse o doutor, tornando a retirar a carteira do bolso. — Eu devo ter me enganado. Não tinha percebido que esta carteira lhe pertencia.

— Como é? — fez o velho, confuso.

— Na verdade… — tornou o doutor, revirando os documentos ali encontrados. — Sim, é minha carteira mesmo. Esquisito, não? Pensei que tivesse dado seu dinheiro para o garoto — e sorriu.

O outro rebolou no assento, virando-se para o interlocutor:

— Olha, você pode bancar o engraçadinho comigo, mas continua sendo um simplório, uma vítima ideal para trapaceiros. E o pior é que não percebe estar estimulando essa gente! Eu pego este metrô quase todos os dias e esbarro nesses tipos o tempo inteiro. É por existir otários no mundo que os safados continuam aparecendo aos montes. Muito obrigado!

O advogado lembrou-se do trecho que havia acabado de ler no livro de Balmes e sentiu um discreto arrepio: alguém lhe dissera certa vez que coincidências podem ser mensagens do Espírito. Seriam mesmo?

— Espero que o senhor desculpe minha boutade — tornou o doutor, com segurança e simpatia na voz. — Mas… será que posso lhe fazer uma pergunta?

— O que é? — indagou o velho, ainda de mau humor.

— Como o senhor sabe que aquele rapaz é apenas um golpista? — e doutor Pinto aplicou à sua expressão a mais ingênua curiosidade. Seus olhos eram como os de um menino de seis anos de idade a buscar os segredos de um adulto.

— Uê — exclamou o velho, coçando a cabeça, sem saber se seu interlocutor estava ou não a lhe pregar alguma peça. — Eu apenas sei. Tenho experiência com essas coisas. Já me passaram para trás muitas vezes nessa vida.

— Hum, entendo. Pelo menos não foi porque o rapaz embarcou na estação São Judas, né. O senhor há de saber que não se trata de Judas Iscariotes…

O velho voltou a sorrir cinicamente: — Você já está bem grisalho, amigo. Não é mais uma criança. Mas, pra mim, apesar de falar difícil, é como se fosse: faz piadinhas e acredita em qualquer um! Ah, vá!

— Vou. Vou para Santana rever um velho colega de colégio. Volto ao final da tarde — atalhou o doutor, sorrindo. O velho, como se realmente lidasse com um garoto, limitou-se a sacudir a cabeça. — Se o senhor não for descer antes de Santana — prosseguiu o advogado, após alguns segundos de silêncio —, talvez possa me explicar melhor seu método para ler a verdade nas pessoas.

— Não tenho nenhum método — contestou de pronto o velho, coçando o pescoço vermelho. — Eu simplesmente sinto cheiro de velhacaria de longe! E não interessa ao senhor aonde irei descer.

Ao ver-se tratado pela primeira vez como “senhor”, doutor Pinto resolveu levar adiante aquela investigação. Certamente, algum grau de confiança havia sido estabelecido ali. Esse “senhor”, dito sem qualquer tom de chacota, era muito mais sincero do que aquele “amigo”. À volta deles, apesar do silêncio — as duas mulheres já não falavam sequer da novela — muitas pessoas demonstravam discreto interesse naquela conversa: pequenos sorrisos, olhadelas furtivas, cochichos…

— E se eu lhe dissesse — voltou à carga o advogado, quase num sussurro — que eu estou mancomunado com aquele rapaz?

O velho arregalou os olhos: — O quê? Então vocês dois… estão agindo juntos?!

— Sim. Ele pede dinheiro e eu lhe dou uma boa quantia, quebrando assim o gelo do coração dos demais, que acabam abrindo a própria carteira. E, mais tarde, dividimos o montante.

— Rá! Eu sabia!! — riu-se o velho e, num átimo, agarrou-se ao braço do doutor. — Quando a gente chegar à próxima estação, vou chamar a polícia e te entregar. Que bando de pilantras! Eu sabia!! Tinha certeza!

Foi a vez de o doutor dar uma boa risada: — Então o senhor já sabia que eu sou um pilantra?

— Claro! Esse seu jeitão… É óbvio que estão aprontando juntos.

— E se eu lhe disser agora que estou blefando? Eu e o garoto não estamos juntos.

— Hã? Como é?!

— Não estamos. Eu só queria verificar se seu faro é realmente infalível. Vejo agora que, de fato, não é. Sou inocente. E, embora não tenha certeza, tampouco acredito que aquele garoto esteja passando os outros para trás. Ele realmente me parece muito faminto.

— Não acredito no senhor — tornou o velho, indignado.

— Não acredita em qual parte?

— Que o senhor seja inocente.

Doutor Pinto sorriu: — Talvez o senhor esteja sentindo o cheiro da minha profissão, a qual, infelizmente, não vive de boa fama na nossa sociedade — e colocou a mão no bolso do paletó. — Eis o meu cartão.

Sem soltar o braço do doutor, que já segurava sem muita convicção, o velho tomou o cartão com a outra mão. Apertou os olhos, fazendo um tremendo esforço para enxergar.

— Use meus óculos de leitura — disse o doutor.

O velho fez um muxoxo, largou o braço do interlocutor e aceitou os óculos. Voltou a apertar os olhos, desta vez, sem muito esforço.

— Então o senhor é um advogado — disse afinal. — Isso explica muita coisa. Mas… O quê?! Isto é alguma piada?

— Não, sou mesmo advogado. O senhor pode guardar o cartão, caso precise de um.

— Não me refiro a isso. Quero dizer… O seu sobrenome é… Pinto Grande?!

— Sim, é o meu sobrenome, muito prazer.

— Prazer…? Isso não é possível. Seus pais…

— O senhor há de convir — disse o doutor, interrompendo-o — que é um nome bem melhor do que Pinto Pequeno ou Caio Pinto, não?

O velho deu uma gostosa risada e, por fim, engasgou. O cartão tremia em sua mão, enquanto lutava para conseguir respirar. Ficou roxo e o doutor teve de lhe dar umas palmadas nas costas. Ao fim de meio minuto, recuperou-se e, ainda resfolegante, deixou-se afundar no assento, o tronco arqueado, mantendo o olhar fixo no doutor Pinto.

— O senhor… é uma figura, sabe? — comentou finalmente o velho, quase sorrindo.

— Não é a primeira vez que me dizem isso.

— Imagino.

— Mas — insistiu o advogado — podemos retomar nosso assunto? Gostaria de lhe contar uma história.

O velho ficara tão cansado com aquele engasgo súbito que parecia ter entrado em estado alfa. Seu olhar traía também um certo embaraço.

— Ainda estamos no Paraíso — disse ele. — Vou descer em Tucuruvi. Se quiser, o senhor pode me contar umas três histórias.

— Certo, certo. Primeiro — começou o doutor — quero me desculpar e lhe explicar por que o enganei dizendo que estava mancomunado com o rapaz… E veja só! Ele, o nosso suposto trapaceiro, está descendo agora, no Paraíso. Espero que tenha boa sorte.

O velho apenas franziu os lábios, sem nada dizer ou sequer olhar para trás.

— Enfim… Minha história… — prosseguiu doutor Pinto. — No início dos anos 1990, eu trabalhava num escritório de advocacia na Vila Olympia. Um dia, ao final do expediente, e carregando uma caixa de papelão enorme cheia de documentos, eu peguei um ônibus que me levaria a Pinheiros, onde vivia com minha esposa. Eu estava trabalhando num caso de divórcio bastante complicado e pretendia ler aquela papelada em casa. Os ônibus que circulam por esses bairros centrais, o senhor deve saber, são muito mais confortáveis e nunca ficam tão lotados quanto os que se dirigem à periferia. — O velho assentiu com a cabeça. — Por isso, apesar do horário — continuou o doutor — consegui me sentar ao fundo do ônibus. Lá pelas tantas, quando seguíamos pela Faria Lima, surgiu junto ao cobrador, ainda do lado de lá da roleta, um sujeito magérrimo, o rosto macilento, de ar extremamente doentio. Parecia um espantalho vivo. E ele começou a bater palmas e a chamar a atenção dos demais passageiros. Pensei: lá vem mais um pedinte, talvez um vendedor, porque ele trazia uma sacola enorme nas mãos, como essas que vemos na feira. Quando a maioria silenciou, porque há sempre uma minoria que não se importa com nada e rejeita dar atenção a quem quer que seja, o moço começou a descrever sua terrível situação: ele e a esposa tinham aids, haviam perdido seus empregos, não tinham dinheiro para comprar remédios ou sequer mais fraldões, que era exatamente o que ele tinha naquela sacola. Ele disse que sua mulher não controlava mais os intestinos e, retirando o pacote de fraldões da sacola, mostrou-o aos demais. Eu ouvia aquilo tudo com o coração na mão, como se houvesse corvos invisíveis empoleirados em seus finos braços de palha. E me sentia ainda pior ao notar que muitos passageiros desviavam o olhar, talvez porque, desconfiando que pudessem se sentir tocados caso o fizessem, preferiam ignorar aquele pedido de socorro, que era muito mais visual que sonoro. E o moço encerrou dizendo: “Pelo amor de Deus, meus irmãos. Eu não tenho dinheiro sequer para pagar esta passagem de ônibus”. Para mim, foi o bastante: sem pensar duas vezes, num impulso, eu me levantei, pedi licença à pessoa que estava ao meu lado, e caminhei pelo corredor até o pobre rapaz. Lembro que, naquele instante, senti o mais vívido horror, pois imaginei a mim mesmo e à minha esposa naquela terrível situação. Então, ao chegar à roleta, abri a carteira, retirei tudo o que tinha, que infelizmente nem era muito — e o advogado deu de ombros — enfim, eu lhe entreguei aquelas notas com carimbos de URV. Lembra-se disso? Eram Cruzados Novos tornando-se Unidades Reais de Valor, o Real de hoje.

— É, eu me lembro.

— O moço estendeu as mãos e mal podia acreditar nos seus olhos. O senhor, por favor, perceba: não estou me gabando do meu gesto. Nunca o contei sequer à minha mulher. Juro! O que a mão direita dá não precisa chegar aos ouvidos da esquerda, e coisa e tal. Entende?

— Talvez.

— Bem… — e, olhando rapidamente em torno, o doutor notou quantas fisionomias novas havia ali. — A questão é que a perplexidade do rapaz me deixou perplexo — prosseguiu. — Então, pensei comigo, quer dizer que uma caridade tão súbita e generosa é algo raro? A sociedade está tão doente assim?

— A sociedade tá moribunda — resmungou o velho. — Além do mais, o governo já tem todos os meios pra ajudar essa gente, um monte de projetos sociais, que custam em impostos os olhos da nossa cara. Por que esses pedintes não procuram ele? Tão com medo do governo? São criminosos? Devem algo à Justiça e por isso têm receio de se mostrar às autoridades?

Doutor Pinto sorriu:

— O senhor costuma pagar todos os seus impostos sem chiar?

— Claro, sou um cidadão honesto, não devo nada a ninguém. E é por isso que essa gente me irrita tanto.

— Pagar os impostos é correto, mas, se são demasiado altos ou mal utilizados, chiar também o é. Mas, se o senhor não vê motivo para tal… — e doutor Pinto deu uma piscadinha — então suponho que seu faro não deva encontrar nenhum demérito em nossos governantes… Não é? São todos honestos, diligentes, verdadeiramente preocupados com a população, todos prontos a nos defender das injustiças e a lutar pela nossa liberdade e pela nossa prosperidade. Nenhum deles desvia o dinheiro dos pagadores de impostos para fins escusos, nenhum deles é um trapaceiro, tal como nosso rapaz…

O velho, que vinha ouvindo de cabeça baixa, ergueu o rosto e voltou a encarar o advogado:

— Já entendi aonde você quer chegar — disse, muito seco. — Já terminou de contar o seu caso?

— Ah, me perdoe. Tenho essa mania de tergiversar. Ainda não cheguei aonde queria.

— A gente tá quase na estação Sé. É melhor o senhor se adiantar, doutor Pinto.

— Vejo que o senhor já está se acostumando com o meu nome — disse, bem humorado. — Se, no final das contas, o senhor não gostar da minha história, poderá ao menos dizer a seus amigos e parentes: “Sabe em quem esbarrei hoje? No Pinto Grande”. Ou então: “Vivi todo esse tempo sem saber da existência do Pinto Grande, mas, hoje, eu o vi, até falei com ele”.

O velho sorriu melancolicamente: — Por favor, doutor, continue.

— E o seu nome? Qual é?

— Miguel.

— Muito prazer, seu Miguel! — e o velho apertou a mão que o advogado lhe estendera. — Como eu dizia… Ah, sim. Eu entreguei o dinheiro para o rapaz e me dirigi à porta dos fundos do ônibus, pois estava perto do meu ponto, no início da Teodoro Sampaio. E aí algo estranho aconteceu: o rapaz parece ter pensado o contrário do que pensei! A saber: que a caridade não é rara. E, após pagar sua passagem, cruzou a roleta e, cheio de empolgação, voltou a contar e a dar mais detalhes de sua triste história. A mosca azul o mordera! O coitado contou até mesmo que ele é que havia contaminado a esposa. E o pior: levantava as barras da calça de moletom para mostrar as feridas horrorosas que tinha na perna! Eu olhava em volta e percebia o constrangimento geral. Além de mim, apenas uma senhora, de ascendência oriental, deu-lhe mais alguma coisa. Os demais estavam quase saltando pelas janelas ou, o que seria mais provável, estavam quase levantando-se e atirando o homem pela janela! Se aquele ônibus fosse uma sala de visitas, os passageiros o teriam enfiado sob o tapete.

— Entendo.

— Aquela cena me pôs o sangue a ferver. A represa de adrenalina abrira as comportas. Enrubesci, comecei a tremer e, assim que apertei o botão para solicitar minha parada, e sem qualquer cálculo, comecei a esbravejar: “Rapaz, você não tem vergonha? Tenha um pouco de dignidade! Não percebe que essas pessoas, se ainda têm algum dinheiro, já não têm coração? Quem podia ajudá-lo aqui, já o ajudou. Não se humilhe assim! Peça a Deus para lhe dar forças e não fique fazendo tanta propaganda do seu sofrimento. Isto não é uma feira! O coração é atingido com poucas e boas palavras, não com muitas. Vá com Deus e procure por gente que não esteja envolta nessa casca de insensibilidade”, e tendo dito isso, pisando duro, desci as escadas, pois chegara ao meu destino. E o ônibus partiu levando em seu interior um silêncio atroz.

— Certo — disse o velho, entediado. — Mas por que você tá me contando essa história, doutor?

— Ainda não terminei, seu Miguel.

O velho fez um gesto impaciente com a mão, como quem diz: então prossiga.

— Interessante foi o que aconteceu no dia seguinte, seu Miguel. Ao pegar o mesmo ônibus, no mesmo horário, cruzei meu olhar com aquela senhora oriental, a mesma que também havia dado dinheiro ao rapaz. Ela me reconheceu e me fez um sinal, convidando-me a sentar ao seu lado. E sabe o que ela me disse? Que, assim que desci do veículo no dia anterior, uma adolescente, nitidamente tocada por minhas palavras, se levantou para contribuir com o moço doente, mas outros passageiros ergueram a voz, dizendo: “Sua tonta, eles estão combinados! É um golpe! Aquele que saiu e esse aí estão juntos, só querem enganar os trouxas”. E a menina, envergonhada, devolveu o dinheiro ao próprio bolso, deu as costas ao coitado do moço, indo em seguida sentar-se num local mais ao fundo.

— Eu teria pensado a mesma coisa!

— Sim!! E é por isso que estou lhe contando isso, seu Miguel. Quando a senhora de ascendência oriental, acho que japonesa… enfim, quando ela me disse isso, bati a mão na testa e pensei: “É claro! É óbvio que eu parecia estar em conluio com o tal doente!”. Ela mesma me confessou ter ficado em dúvida. E eu então lhe contei que era advogado, dei-lhe meu cartão, falei do que eu havia sentido no dia anterior e assim por diante. E ela então comentou: “Só existem dois tipos de pessoas que usam o nome de Deus da maneira que vocês usaram ontem: as que vão para o Céu e as que vão para o Inferno” — e o doutor perguntou quase num sussurro:

— O senhor, seu Miguel, sabe o que diferencia, no presente caso, esses dois tipos de pessoas?

— Não preciso saber. Tá na cara que o senhor vai me dizer.

Doutor Pinto Grande sorriu: — A sinceridade, seu Miguel. A adequação exata ou inexata do discurso aos fatos. Não é boa coisa usar o nome do senhor Deus em vão.

— Eu não acredito em Deus. Quer dizer: já acreditei. Mas dê só uma olhada neste mundo…

— Sim, sim. É uma antiga questão que vive a assombrar os teólogos e a produzir inúmeras heresias, incluindo as modernas, como o socialismo.

— Pois é — disfarçou o velho, estranhando a observação.

— Mas não entremos nesses detalhes. O resumo da coisa toda é: dei dinheiro a esses dois rapazes, ao do ônibus e ao de agora há pouco, de boa vontade. E Deus sabe disso! Tanto quanto conhece a verdadeira razão de mo pedirem.

— Sei… — retrucou o velho, desgostoso com aquele “mo pedirem”, que lhe pareceu afetação de advogado. — A velha história da onisciência, aquela que diz que Deus vigia a nossa cabeça… Também fiz o catecismo.

— O senhor sabe o que é um blog, seu Miguel?

— Um jornal da internet?

— Sim, mais ou menos isso.

— O que que tem?

— Certa vez, minha esposa, que por pura diversão vive procurando blogs curiosos, me pediu para ler um que havia encontrado: um sujeito, que parecia muito sério, insistia mediante vários textos que a internet não existia, que era uma ilusão. É claro que só podia ser a opinião ou de um personagem humorístico ou de um psicótico, uma vez que todo blog é acessado exatamente pela internet e fica guardado nela.

— Mas que mudança de assunto!

— Não estou mudando de assunto. É como um índio que meu pai hospedou em nossa casa quando eu era criança: ele achava que a lâmpada produzia a energia elétrica, quero dizer… que a lâmpada produzia a luz, não conseguia imaginar todo o gigantesco aparato que há por trás dela. Ele tirava a lâmpada do soquete e ficava indignado quando ela se apagava. ¿Como explicar para ele que aquela luminosidade vinha de um rio represado a milhares de quilômetros de distância? Impossível. Ele talvez estivesse acostumado com lanternas, não sei. Mas precisaria passar no mínimo uns dois anos conosco para entender de onde vinha a energia daquela lâmpada.

— O senhor mudou de assunto de novo!

Doutor Pinto Grande riu:

— Não, seu Miguel. Só estou lhe dizendo que um dedo é incapaz de tocar a própria ponta.

— Danou-se! — soltou o velho, indignado. — O senhor está é tentando me confundir! O que essas coisas têm a ver umas com as outras?

O doutor juntou as mãos e pareceu meditar por um segundo. Ficou sério:

— O senhor está me dizendo que já não acredita em Deus tanto quanto aquele blogueiro não crê na existência da internet. Mas, dentro Dele, de Deus (e não do blogueiro), nós nos movemos, pensamos, respiramos, vivemos e morremos. Percebe? É dentro da internet que o blog “vive” e “morre”. É provável que o senhor, algumas vezes ao longo da vida, tenha parado e pensado: “Onde está esse Deus de que tanto falam? Não O vejo”. E, com sua mente, tenha tentado encontrá-Lo, tal como o índio procurava, na própria lâmpada, a fonte da energia. Podemos dizer: uma lâmpada não energiza a si própria! Em suma: a questão da onisciência não está na suposição de que Deus tenha grampeado todos os cérebros do universo. Não significa que ele espione nossas mentes. Na verdade, nossas mentes são dotações do Espírito Infinito, do Espírito Santo, a personalidade responsável pela Mente Universal. Imagine que sua mente é um dedo. Como já disse: um dedo não pode tocar a própria ponta! Da mesma forma, a mente pode tocar tudo o que vê pela frente, mas não pode tocar a si mesma. E o que é esse “si mesma”? É a Mente Universal, o Espírito Santo, é, enfim, Deus.

— Meu Deus… — suspirou o velho Miguel.

— Ele mesmo! — riu-se o doutor Pinto. — Nós, portanto, só temos uma mente autoconsciente porque Ele nos emprestou um, digamos assim, um pedacinho da mente Dele, um terminal, exatamente como qualquer computador em relação à internet. Nosso cérebro é apenas um receptor. Bem, eu não entendo de softwares e hardwares, mas compreendo muito bem o princípio subjacente à informática. Trata-se sempre de linguagem. Não podemos encontrar Deus mediante a linguagem simplesmente porque, em relação a ela, Ele é linguagem pura, o Logos universal.

— Que loucura! — resmungou o velho. — O senhor me desculpe, mas você é louco.

— O senhor conhece o mito de Hanumân, o Mono Gramático?

— Chega de histórias! — gritou finalmente o velho, atraindo a atenção geral. — Não quero ficar maluco! Era só o que me faltava… Se Deus existisse e conhecesse todos os meus pensamentos, todas as minhas memórias, eu estaria condenado! É claro que eu jamais escaparia do inferno! Jamais! — e seu Miguel deu um meio-sorriso dos mais amargos.

Doutor Pinto Grande colocou a mão no ombro do velho:

— O senhor não precisa se preocupar com isso. Eu tive uma juventude muito atribulada, sabe? Usei drogas. E foi usando certas drogas que, a certa altura, adquiri uma terrível paranóia: Deus está de olho em mim o tempo todo! Em minhas crises, eu me escondia embaixo da cama, dentro do armário, acreditando que, assim, eu me livraria da sensação de ter alguém atrás de mim. A sensação era física! Tinha certeza de que Deus olhava por cima do meu ombro. Eu morria de medo Dele. Quando comecei a notar que esse “estar atrás” se referia ao próprio pensamento, e não ao meu corpo, entrei em pânico. Porque, sabe como é, eu também mereceria o inferno e Deus não iria me perdoar jamais. Mas então…

— Então?

— Então o Filho de Deus encarnou na Galiléia e nos revelou que Deus é amor. O amor é capaz de perdoar tudo e jamais poderia nos ameaçar.

— Ah! — exclamou o velho, irritado. — Mais um roqueiro grisalho que virou crente! Um Baby Consuelo! E eu pensando que o senhor fosse uma pessoa instruída. Bom, minha estação é a próxima, com licença — e, agarrando-se onde podia feito uma aranha desajeitada, levantou-se.

Doutor Pinto manteve-se sentado, sereno, e acompanhou o velho com o olhar. Notou que ele, ao descer do vagão, ainda movia os lábios, como quem resmunga para si mesmo. Não conseguiu distinguir se Miguel estava tomado pela pura e simples ira ou se estava meramente escandalizado, isto é, com sua fé niilista abalada. O doutor lembrou-se do conselho da esposa: “Não tente dar água para quem não tem sede”. Na ocasião, ele lhe respondera: “Não é o que faço, Bia. Quem sou eu? Não me tenho em tão grande consideração. Em geral, tento apenas mostrar a certas pessoas que o desconforto existencial que experimentam é sede. Sim, é isso: não lhes dou água: eu lhes revelo sua própria sede”.

Doutor Pinto Grande voltou a abrir o livro de Balmes e, minutos depois, desceu na estação Santana. Passou o restante da manhã e toda a tarde com o amigo Casarini, com quem almoçou e teve longas, engraçadas e profundas conversas. Ao relatar seu diálogo com o velho Miguel, Casarini lhe disse:

— Eu também ficava irado com seus papos sobre Deus, sobre nossa futura peregrinação através do Universo, de Morada em Morada, e toda a pasmaceira resultante. Tudo isso me deixava realmente puto. Mas naquela visita que te fiz dezessete ou dezoito anos atrás, quando você me disse que o que me faltava era simplesmente imaginação… ah, aí, sim, você meteu o dedo na minha ferida. Um advogado acusar um artista de falta de imaginação? Que ousadia… “Por que um artista ou escritor pode se colocar dentro de sua obra, representado-se mediante um personagem-avatar, e Deus não o poderia?”, você me disse na ocasião. “Um artista é mais poderoso do que Deus?” Que golpe! Lembro que peguei o metrô e vim pensando em todas as nossas conversas dos anos anteriores, nos livros que você me emprestou ou me deu. Eu não sabia, mas já havia reconhecido minha sede. Estava atormentado e desci na Sé. Fui até a Catedral e passei ao menos uma hora admirando os vitrais, que são magníficos. Fontana, Quentim, Max Ingrand… Gênios! E, apesar de toda aquela beleza, não tirava minha falecida esposa da cabeça! Eu a amei tanto… Foi tão difícil encontrar alguém que me despertasse aquela ternura, aquele tesão, aquela… Enfim, eu estava parado diante de um desses vitrais e uma senhora, do nada, me tocou o braço. Olhei na direção dela e ela me disse: “Você ainda irá revê-la”. Foi um choque! Qual era a probabilidade? Como sabia? Não respondi nada. Apenas voltei a olhar a imagem de Jesus naquele vitral e, dentro de mim, eu O xinguei. Não acredito! Não acredito! Não acredito!, pensava. Então me sentei num banco e fiquei lá quieto, observando as pessoas a caminhar pela nave. Não pensava em nada, não rezei, não fiz porra nenhuma. Meia hora depois, voltei à estação Sé e tomei o metrô. Quando embarquei, não acreditava em Cristo, quando desci em Santana, acreditava: e até hoje não sei em qual trecho da viagem, em qual estação — Luz? Tiradentes? Tietê? — se deu minha conversão.

Mais tarde, depois de admirar as novas esculturas do amigo — e a mais interessante era a que ele chamava de “Serafim de Transporte” (uma mistura de anjo com nave espacial cuja função seria nos levar até o outro mundo após a morte) — Doutor Pinto Grande se despediu e caminhou até a estação Santana. Estava contente: passados tantos anos, o amigo finalmente encontrara e lhe devolvera o livro “Meditações Sobre os 22 Arcanos Maiores do Tarô”, de autor anônimo, editado pelas Edições Paulinas. Era uma raridade: as edições estrangeiras não traziam o prefácio de Hans Urs von Balthasar! Quando se dirigia à roleta, ouviu atrás de si:

— Doutor?

Olhou para trás e reconheceu o rapaz a quem havia dado os dez reais.

— Ué, meu caro… Como me encontrou?

— Eu ouvi o senhor dizendo àquele velho que voltaria no final da tarde desta estação.

— Ah, sim. Entendo. Conseguiu almoçar?

O rapaz estava embaraçado:

— Era sobre isso que queria falar com o senhor. Na verdade, vocês dois estavam certos: eu realmente estava “faminto” (foi o que o senhor disse, né?), mas também estava te enganando. Minha fome não era de comida, era de crack.

Doutor Pinto franziu a testa, surpreso:

— E… você saciou sua fome de crack?

— Não, doutor. Vim te devolver o dinheiro — e o rapaz lhe estendeu os dez reais.

— Pode ficar com o dinheiro, rapaz. Compre comida.

— Não precisa, doutor. Vou voltar pra casa dos meus pais. Eu estava dormindo na rua há dois meses. Mas vou voltar. Em casa vou poder comer. E, se eu ficar com esse dinheiro na mão, por pouco que seja, vou acabar caindo na tentação. O senhor não faz idéia de como foi difícil hoje. Fiquei quase todo o dia aqui, os seguranças até me botaram pra fora, achando que eu estava querendo assaltar alguém. Só voltei quando te vi entrando na estação.

Doutor Pinto aceitou o reembolso e sorriu:

— Para sair dessa, confie em quem é mais forte do que você, meu caro.

— Pode deixar, doutor — e o jovem devolveu o sorriso.

— Você tem como chegar em casa?

— Ainda tenho um unitário do metrô. Moro perto do Carandiru.

— Certo. Boa sorte então. E obrigado por ser sincero comigo.

— Eu é que lhe agradeço… doutor Pinto Grande! E se segurou para não rir.

Doutor Pinto sorriu, despediu-se com um gesto da cabeça, deu-lhe as costas e passou pela roleta. “Meu Pai”, falou dentro de si, “obrigado por me oferecer mais um dia extraordinário”.

(Fim)

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O primeiro conto está aqui (não é preciso lê-los na seqüência!).
 

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Arquivado sob: Contos

  • Henrique

    Yuri, há alguns meses li uns contos que você havia escrito no final dos anos 90 e início dos anos 2000, e lendo agora os mais recentes vejo que houve uma clara evolução!
    Meus parabéns!
    Fico no aguardo da publicação d´ “A Segunda Vida”.

  • Obrigado, Henrique. :^)

  • Yuri Oberlaender

    O doutor Pinto Grande lembra-me Sócrates. Especialmente na parte em que fala de auxiliar uma pessoa a descobrir sua sede. Gostei da leitura. Grato!

  • Obrigado a você, xará. :^)

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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