Doom!! Doom!! Doom!!

18/07/1996
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Franzsepp Heller e Carlos Alberto dos Santos eram irmãos gêmeos, nascidos no Rio de Janeiro. Eram órfãos. Um foi adotado, quando ainda de colo, por uma família alemã. O outro permaneceu no orfanato até os onze, quando um casal que não podia ter filhos o adotou. Carlos não fora adotado junto com o irmão devido a entraves burocráticos no processo de adoção de brasileiros por estrangeiros. Não tinham conhecimento da existência um do outro.

Franz viveu em Dresden até os dezoito anos. Depois mudou-se com o pai adotivo, que se separara da mãe, para Heidelberg. Embora fosse bem dotado intelectualmente e tivesse, graças ao pai – rico herdeiro de uma abastada família e tranqüilo professor universitário – uma educação privilegiada, Franz prescindiu da vida acadêmica e decidiu dedicar-se aos esportes. Tentou a ginástica olímpica mas preferiu a natação. Por influência de uma namorada italiana aderiu ao snowboard, conquistando, nessa modalidade, vários prêmios em diferentes estações dos Alpes. Numa viagem aos EUA, onde participaria de um campeonato no Colorado, Franz apaixonou-se por uma mountain-climber mexicana naturalizada canadense. Começou, então, a escalar montanhas. Suas primeiras ascensões ocorreram nas Rochosas, sobre a neve que tão bem conhecia. Foi somente dois anos mais tarde, em Yosemite, na California, que Franz começou a escalar paredes de granito. Claro, tudo por influência de sua mais recente namorada: uma carioca que viajara aos EUA para enfrentar a mais vertiginosa das escaladas em rocha – El Capitán.

Nesse entretempo, no Brasil, Carlos também já dera mostras de uma inteligência privilegiada. Desde sua adoção, aos onze anos e meio, até pouco antes de completar dezessete, Carlos tentou fugir de casa doze vezes. Não suportava os pais adotivos. Estes lhe jogavam na cara, pelo menos uma vez por dia, o favor que lhe haviam feito ao retirá-lo do orfanato. Faziam-no sutilmente. Mas Carlos não era bobo, dava-se conta de tudo. Quando forçadamente diziam “meu filhinho”, Carlos enlouquecia, saia de casa e só voltava quando os pais já haviam registrado nova fuga. Aqueles dois eram muito artificiais, temerários e demasiado gosmentos para ele. Era assim que ele os chamava: os gosmentos.

Nas suas fugas, Carlos retirava-se para a casa de um ex-colega de orfanato, três anos mais velho e boca num bairro da zona sul carioca. Carlos temia e admirava a vida do amigo. Vez por outra, ajudava-o fazendo avião, mas nunca portava grande quantidade da droga. Aquilo era uma espécie de brincadeira, sentia-se um agente secreto em missão especial. Não temia a ação da justiça. O que o assustava eram os acertos de conta entre os próprios traficantes ou entre estes e os policiais envolvidos no tráfico de entorpecentes. Conhecia muitas histórias, algumas heróicas e apaixonantes, mas a maioria era simplesmente sórdida. Não fosse tanta sordidez, ele já teria se metido por completo naquela vida. O pouco que havia experimentado da vidinha pequeno burguesa parecia ter-lhe contaminado.

*

Franz nunca se interessou em descobrir suas origens. Sabia apenas que nascera num país subdesenvolvido que só ocupava o noticiário com eventuais novas de chacinas, fome e devastação ecológica. Nem mesmo do carnaval tomara maior conhecimento. Era uma pessoa pragmática, não lhe interessava desviar a atenção para fora do seu próprio contexto. Por isso, quando Geovana, a carioca alpinista, o convidou para ir ao Rio de Janeiro escalar o Pão de Açúcar, nem sequer se tocou de que aquela era a cidade onde havia nascido. Afinal, ele era alemão.

*

Aos dezessete anos, Carlos abandonou de vez a casa dos pais adotivos. Surpreendeu-se ao perceber que, em todos aqueles anos de fugas reiteradas, esta era a primeira em que sentira pena daqueles dois gosmentos. Tal fato pareceu-lhe confirmar a inexorabilidade dessa última escapada. E realmente jamais retornou.

Carlos passou a viver ora na casa de Didi, o antigo companheiro de orfanato, ora na casa de Dona Cleide, mãe de um conhecido traficante da cidade. Ela apoiava a ocupação do filho, não pelo tráfico em si ou pelo dinheiro, mas pelo respeito que o filho impunha na região onde morava. Seus oficiais – era assim que ela denominava os capangas do filho – eram os mantenedores e defensores da paz naquele morro. E ali, a polícia não entrava, ou seja, não havia confusão.

Quando Didi foi preso, Carlos mudou-se definitivamen-te para casa de Dona Cleide. Ali, Carlos, por sua sincera dedicação, conquistou a confiança de todos. Quando Maimô-nedes César, o filho de Dona Cleide, pousava na casa, Carlos servia-lhe como ordenança. Com os anos, Maimônedes passou a imputar serviços de maior responsabilidade a Carlos. Aos dezenove, Carlos matou seu primeiro homem – um idiota que quis intrometer-se nos negócios de Maimônedes sem nem ao menos pedir licença. Após o episódio, Carlos ficou taciturno por alguns dias.

“Matei meu primeiro boneco quando tinha quatorze anos”, disse-lhe Maimônedes. “Teu problema foi começar um pouco tarde.” Carlos suspirou. Maimônedes riu e sacudiu-lhe a cabeça: “Não te preocupa, rapá, isso passa.”

Era verdade. Com o tempo Carlos voltou ao seu costumeiro bom humor – agora com pitadas de humor negro – e prosseguiu com seu novo trabalho. Aos vinte e dois, Maimônedes já lhe confiava a chefia de alguns homens. E o principal: já dispunha de dinheiro pra gastar com as mulheres.

*

Quando Franz voltou a pisar o solo carioca já tinha vinte e quatro anos nas costas. Seu pai também já o havia lembrado de que aquela era sua terra natal. No caminho para o apartamento de Geovana, Franz contemplara, além da pobreza estampada nos morros e nas ruas, a magnífica paisagem natural da cidade. Que ele havia nascido ali, parecia mentira. Sempre fora avesso a climas quentes e talvez também por isso, fora a influência feminina, tenha se afeiçoado às montanhas. Oxalá as encostas do Pão de Açúcar não fossem tão quentes.

Geovana queria que ele permanecesse ali até o carnaval. Ele já havia perdido o reveillon, não podia perder agora logo o carnaval. Franz, sistemático, disse que mais tarde pensaria nisso. No momento, a prioridade era o Pão de Açúcar.

“Ah, seu alemão!”, disse Geovana.

*

Aos vinte e quatro anos, Carlos conheceu Manga-rosa, um professor de capoeira que dava aula pros meninos do morro e que se tornara o mais novo protegido de Maimônedes César. Manga-rosa havia impedido a prisão de três dos melhores homens de Maimônedes sem disparar um único tiro, tal como nos tempos das saudosas maltas de capoeiras. Os policiais, pegos de surpresa, tampouco acionaram suas armas.

Manga-rosa era um punguista sem grandes ambições no crime. A capoeira quase o retirara da vida de delitos. Montara, anos atrás, uma pequena academia, mas não pode manter-se e fechou. Claro, antes de levar a capoeiragem a sério, chegou a utilizá-la para matar dois desafetos. Um dos homens que estavam sendo arrestados pela polícia era seu irmão caçula. Manga não pôde conter-se. Sabia que o xadrez transformaria o irmão num animal insensível. “Animal sim”, dizia, “mas insensível não”. Frente às ofertas de Maimônedes, Manga-rosa ficou desnorteado. Depois de fechar a academia, voltara a praticar pequenos furtos, mas não queria envolver-se com coisas muito sérias. Ainda tinha esperanças de reabrir a academia. Portanto, não quis participar diretamente das atividades do tráfico, mas prometeu contribuir eventualmente na segurança ou em qualquer assunto no qual pudesse usar seus talentos.

Carlos simpatizou com Manga-rosa, mas achou-o covarde. Quem se recusasse a trabalhar com Maimônedes só podia ter duas razões: ou não gostava de dinheiro, ou era mesmo um grande covarde. E Manga-rosa queria dinheiro para reabrir sua academia de capoeira. Ele mesmo vivia dizendo que estava cansado de ser explorado pelos donos de outras academias. Era respeitado como capoeirista, afirmava, mas dinheiro que é bom, necas.

“Tu tá é com medo”, disse Carlos.

Manga-rosa sorriu: “E tu sabe lá o que é ter coragem, rapá?”

*

Franz se apaixonara pelo Pão de Açúcar. E que escalada memorável: clima ameno, linda vista e brigas e trocas de impropérios com Geovana até o cume. Não conseguiu entender por que ela ficou tão nervosa. Ela já não havia escalado o El Capitán, na California? Novecentos e poucos metros de parede vertical e adrenalina? Pra que ela queria tanta segurança aqui no Pão de Açúcar, uma escalada tão mais fácil? Tudo bem, ele quase caiu no começo, mas foi apenas quase. “Sujeito avoado, nem parece alemão”, ela dissera. Mulher mais maluca aquela.

Uma noite, após mudar-se prum hotel, Franz perambulou pelos bares da zona sul. No Baixo, conheceu uma baianinha linda, de olhos e cabelos claros. Ela, a princípio, não acreditou que Franz fosse realmente um alemão. Ele era moreno, mas também não parecia descendente de turcos. Tinha cara é de brasileiro mesmo. Ela até achava que já o conhecia de algum lugar… Mas não, ele contestou, ele não a estava enganando, ela podia ficar tranqüila. Conversaram e riram, então, por muito tempo. Falavam em inglês, embora Franz se esforçasse por aprender a língua de sua terra natal. Vez por outra, soltava alguma exclamação em alemão. A baianinha ria.

“Vamos beber”, ela disse.

Franz adorou a caipirinha. Bebeu uma atrás da outra. A baianinha rindo. Ela perguntou se ele conhecia aquele jogo pra computadores, o Doom. Ele disse que já vira mas que não gostava muito de jogos eletrônicos. O corpo quase não se movimenta, o tempo voa e mesmo que se queira parar não se consegue. Puro vício. Ela, para agradá-lo – pois era fanática por esses jogos – concordou, mas só queria dizer que ele se parecia com o rosto do personagem, o Doom, só que mais moreno. Ele riu e disse que já lhe haviam dito aquilo, mas que ela não se preocupasse, matar e estourar os corpos dos outros, como no jogo, não era um esporte que ele gostaria de praticar.

“Nem virtualmente?”, ela perguntou.

“A única diferença entre fazer isso no jogo ou na vi-da real é que na vida real a gente pode ser preso.”

Depois, foram fumar um baseado com alguns amigos da baianinha e dançar nalgum lugar. Ela tinha ecstasy, se ele quisesse…

*

No ponto de ônibus. Noite.

“Tu é um maldito animal insensível!”, bradou Manga-rosa indignado.

Carlos ria: “Eu não vou aprender essa porcaria de dança, sou mais uma doze cano-serrado. É neguinho começar a dançar na minha frente, sou eu arrebentando a cabeça dele com um balaço.”

“Tu não vai entender mesmo, né rapá? Não é a coisa da luta que eu tô te dizendo. Claro, se tu tiver com uma escopeta, tu estraçalha dez capoeiras, me’rmão. Isto é claro, eu sei, mas é a coisa da mandinga, da malandragem, que tu aprende no jogo, que vai te fazer ganhar a guerra. Com ou sem armas. Tu ganha equilíbrio, me’rmão.”

Carlos fez cara de sério e encarou Manga-rosa como se tivesse compreendido um mistério. Olharam-se profundamente por dois segundos. Sérios. Depois caíram na gargalhada.

“Neguinho é foda mesmo”, desabafou Manga-rosa, en-quanto Carlos, fazendo cara de debilóide, macaqueava-o jogando capoeira.

*

Carlos e Manga-rosa pegaram um ônibus pra zona sul. Carlos já tinha carro, mas estava na oficina. Batera na traseira dum Land Rover. O Land Rover quase nem se arranhara. O Fiat de Carlos, no entanto, necessitava de uma lanternagem completa na dianteira, que ficara muito amolgada.

“Equilíbrio, rapá. Equilíbrio…”, comentou Manga-rosa na ocasião.

“Hunf…”, fez Carlos.

Foram dançar num lugar de bacanas. Carlos achou que Manga-rosa gostaria dali. “Um tal de som tecno”, disse-lhe. “Parece que estão todos sendo fritos no inferno dentro duma frigideira gigante.”

“Meu irmão, num gosto nem de funk…”

“Calma, Manga, da mulherada tu vai gostar. Parece coisa de sonho.”

“Parece pesadelo”, disse Manga depois que entraram sem serem revistados. Mas Carlos não o ouviu. O som era muito alto.

Carlos entregou o pacote de cocaína prum homem no balcão do bar.

“A bebida é por conta”, disse o homem.

Carlos pediu um whisky importado. Não queria saber de pobreza. Manga-rosa tomou vários Gin-tônicas. Depois disse a uma mulata com cara de andróide:

“Isto aqui não parece a frigideira do diabo fritando os condenados pelo Juízo Final?”

Ela riu, disse que realmente parecia. Manga, que já estava ébrio, voltou a olhar e só então sentiu que o que dissera era a pura verdade. O som penetrava fundo em sua cabeça. Parecia a circulação sanguínea de um computador. As luzes eram frenéticas. Sim, aquilo era mesmo o fim do mundo.

“Você não quer ser frito comigo?”, perguntou a mulata.

“Quero”, respondeu Manga. E foram dançar.

Carlos já dançara ali outras vezes. Nas três últimas tentou, sem sucesso, aproximar-se de uma loira que dançava langorosamente, como se estivesse num tépido vídeo-clip. Suas caras e bocas despertavam a cupidez de Carlos. Não que ela o evitasse, senão que parecia estar sempre distante, em transe. Da última vez, chegara a beijá-la, mas, em seguida, ela desapareceu na multidão. Ele agora a procurava. Quando finalmente a viu, teve uma surpresa desagradavel. Um homem a abraçava e a beijava com a mesma volúpia que Carlos vinha guardando para ela. Sentiu-se traído. Aquela vaca, ela ia ver só.

Carlos sentiu um puxão na manga da camisa. Era o Manga-rosa.

“Meu irmão, vem conhecer a amiga da minha garota.”

“Manga, eu vou queimar duas figuras hoje. E tu vai me ajudar.”

O rosto de Manga-rosa anuviou-se: “Qué isso, me’rmão, relaxa e vem conhecer a gata. Tu vai gostar dela.”

“Não quero saber de outra vaca. Preciso acabar com a raça daquela ali e com a do macho dela”, gritou Carlos no ouvido de Manga, enquanto apontava o casal.

“E o que foi que eles fizeram?”

“Não interessa. Tu vai ajudar ou não vai, seu punguista de merda?”

“Olha aqui, seu puto”, começou Manga irritado, “se tu quer procurar merda, tudo bem. Não vou sair do teu lado. Tenho que proteger o neném…” e deu umas pancadinhas na cabeça de Carlos. “Mas eu não vou mexer uma palha pra te ajudar”.

“Tu não me disse que adorava assaltar os bacanas só pelo prazer de apavorar eles? Me ajuda então a pirar os dois, a gente não toca na alma deles. Lembra de Jó?”

Manga saiu sem responder. Isto significava que, embora a contragosto, iria ajudar.

A baianinha não percebeu que Carlos a vigiava. Estava muito ocupada ocupando o tempo daquele gringo. Em momento algum Franz deixou entrever seu rosto. Carlos esperava com forçada paciência.

*

Lá pelas cinco da madrugada, Franz saiu com a baianinha. Já não queriam ficar fechados ali dentro, com toda aquela gente. Resolveram procurar uma praia para andar e esperar pelo sol.

Quando chegaram no carro, Carlos e Manga se aproximaram. Fingiam estar entretidos numa discussão qualquer. Quando a baianinha desligou o alarme, Carlos deu um pulo e encostou um trinta e oito na cabeça dela. Manga mandou Franz ficar quieto e entrar no carro. Carlos foi na frente com a baianinha.

“Toca pra Barra”, disse.

Manga-rosa, num primeiro momento, apenas estranhou a semelhança daquele gringo, que não falava português, com seu amigo Carlos. Quando, num átimo, surpreendeu o olhar de Franz, ficou seriamente incomodado. Arrepiou-se. Eram parecidos demais.

“Meu irmão, esse neguinho aqui é tua cara cuspida e escarrada.”

Carlos não disse nada. A baianinha, que conduzia o carro, olhou-o de relance. Sua expressão tornou-se visivelmente perturbada. Voltou a olhar pra frente fixamente. O outro bandido tinha razão, eles eram muito parecidos. Apenas os dois irmãos pareciam não dar por isso.

No decorrer do trajeto, o silêncio tornou-se angustiante:

“O que vocês vão fazer com a gente?”, perguntou por fim a baianinha.

“Tu não devia ter perguntado isso, moça”, respondeu Carlos. “A gente tem uma regrinha: se a vítima faz a famigerada pergunta, ela recebe a pena máxima. No teu caso, antes, iremos te comer” e deu um sorriso.

A baianinha sentiu o sangue gelar. O coração pulsáva-lhe nas têmporas. Contudo, ficou estranhamente mais calma. Agora já sabia o que iria acontecer. Começou, pois, a maquinar algo. Franz continuava quieto. Apenas esperava.

“Franz”, ela disse, “Doom!”

“Cala a boca!”, gritou Carlos dando-lhe um tapa. “Entra naquela estrada.”

Pegaram uma estrada vicinal e seguiram em direção a umas praias desertas. O sol despontava.

“Mais rápido!”, ordenou Carlos.

Ela obedeceu. Aquilo estava de acordo com seus planos. Verificou que era a única que usava cinto de segurança. O carro tinha quatro portas e estavam todas travadas. Carlos era o único que tinha a janela aberta. Era preciso apenas virar bruscamente o volante pra direita. A velocidade faria o resto.

“Anda, sua puta, a gente vai pegar aquela estrada de terra lá na frente. Vamo entrar nessa praia.”

Era agora. Não haveria mais chances. Conhecia aquela gente, se chegassem na praia estariam mortos. A baianinha, então, deu uma guinada repentina no volante. Soltou um grito involuntário. O carro capotou quatro vezes antes de sair da estrada. Quando parou, de cabeça pra baixo, apenas ela e Manga-rosa estavam dentro do carro. Ele também estava usando o cinto. Equilíbrio.

“Sua vaca desgraçada!”, sussurrou Manga ainda atordoado. Tinha as pernas presas pelo banco da frente onde antes estivera Carlos.

A baianinha, não conseguindo sair pelo seu lado, rastejava na direção da janela oposta. Manga viu que ela trazia um revólver à mão, a desgraçada. Ele levou rapidamente a mão à cintura. Nada encontrou, nem mesmo o coldre. Aquele revólver era seu.

A luz do sol já inundava o interior do carro entrando por onde a baianinha tentava sair. Um vulto se aproximou vindo da praia. Estava em contra-luz, mas Manga reconheceu Carlos. Arrastava uma perna e segurava ainda o trinta e oito.

“Acaba com a raça da puta, Carlos!”, berrou Manga, “Queima a desgraçada!”

Carlos mal levantou a arma para fazer mira. A baianinha descarregou nele o revólver. Estava possessa. Gritava “Doom!”, “Doom!”, “Doom!” a cada disparo. Quando ela se virou para Manga, ele sorria, ela já havia usado os seis tiros.

“Tu furou o gringo todinho”, disse Manga com malícia. “Agora ele é uma peneira importada” e deu um forte golpe, com a mão aberta, no nariz da garota. Ela desmaiou. O nariz quebrado a empapou de sangue.

Com alguma dificuldade, Manga conseguiu sair do carro. Olhou novamente o rosto inanimado de Franz, caído ao lado do carro. Como se pareciam! Procurou, pois, Carlos e o encontrou na beira da estrada. Seu rosto estava sereno, muito pálido, mas a cabeça estava aberta por trás, os miolos no chão. Fora cuspido pela janela do carro. Manga suspirou.

“Olha aonde te levou tua coragem, seu babaca.”

Ficou olhando o amigo. Que animal insensível! Depois pensou que ainda podia fazer algo por ele.

“Tu vai conhecer a Europa, meu irmão!”

Levantou-se, tirou o casaco, as calças e os sapatos de Carlos. Trocou-os com os de Franz. Fez a troca dos documentos. Agora Carlos tinha passaporte. Podia viajar tranqüilo.

Antes de ir embora, lembrou-se do dinheiro que Carlos havia recebido pela cocaína. Foi buscá-lo no bolso de Franz. Enquanto retirava da carteira de Carlos o que era de César, percebeu espantado que Franz ainda estava vivo. Ele parecia querer dizer alguma coisa. Manga aproximou o ouvido.

“Das Ende”, murmurou Franz.

“O quê?”

“Doom!! Doom!! Doom!!”, gritou a baianinha disparando as balas que encontrara no coldre de Manga.

Manga-rosa ainda tentou se levantar. Mas o banho de chumbo que recebera nas costas o fez cair. Perdera o equilíbrio.

*

Quando deu entrada no hospital, a baianinha estava em choque. Já não se lembrava sequer da semelhança dos irmãos gêmeos. A perícia nem deu por isso. Aquilo era apenas uma estranha coincidência.

Carlos foi sepultado em Dresden, cidade onde supostamente passara a infância e onde ainda vivia a mãe adotiva de Franz Heller. Ela era muito apegada ao filho. Foi difícil, para ela, controlar-se no funeral.

“Eu sabia que essa mania de ficar atrás de mulher ainda ia dar mal”, desabafou o Sr. Heller ao ver o sofrimento da ex-mulher.

Franz e Manga-rosa foram sepultados pela polícia, após os devidos trâmites legais, numa vala comum, como indigentes. Ninguém reclamara os corpos.

Quando a baianinha saiu do hospital, comprou um trinta e dois, Taurus, cano-curto — mas não fez um curso de tiro. Mesmo assim, levava-o para qualquer parte do Rio de Janeiro. Andava como se estivesse dentro de um perigoso vídeo-game onde a qualquer momento pudesse ser atacada. Na primeira oportunidade que teve de usar o revólver, o assaltante, que usava apenas um canivete, conseguiu tomar-lhe a arma. Ela morreu com um tiro na testa. (O assaltante, além da vida, levou-lhe também a bolsa.) Trasladada para Bahia, foi sepultada em Salvador, onde nascera. “Não se preocupe”, dissera-lhe o homem que lhe vendeu a arma. “Ninguém é duro de matar…”

Das Ende

(Brasília-DF, Julho de 1996.) 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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