A volta dos que não foram

17/04/1997
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Werner estava a ponto de se graduar em Física e, por isto mesmo, angustiava-se ao extremo. Finalmente deveria se decidir se permaneceria ou não na vida acadêmica. Não conseguia, por mais que se esforçasse, antever o melhor caminho. Seu futuro era uma incógnita, um X numa equação incompreensível. No momento, o melhor a fazer seria sondar alguns amigos da pós-graduação. Talvez eles lhe dessem uma luz. Ou ao menos alguns fótons.

As salas dos pós-graduandos em Física da UnB localizavam-se no bloco intermediário do Instituto Central de Ciências, o Minhocão. De longe, Werner reconheceu dois de seus amigos, sentados no banco à entrada do corredor que dava acesso às salas. Isaac e Alberto estavam sempre por ali, observando o intenso movimento, principalmente o movimento das ancas e quadris. Aquele passadiço era um verdadeiro acelerador de partículas. Infelizmente, o que menos lhes ocorria era um encontrão com as alfas e betas que por ali passavam. Naquele instante, estavam ambos entretidos com algo acima de suas cabeças.

“E aí, moçada?”, saudou Werner, acomodando-se no mesmo banco que os amigos.

“E aí?”, responderam os doutorandos, baixando os olhos na direção de Werner, que sorriu.

“O que é que vocês tanto olham lá em cima?”

“É só uma casa de marimbondos”, disse Alberto. “Sabe como é, a gente precisa matar o tempo com alguma coisa…”

“Sei…”, disse Werner. “Mas não é perigoso? Esses bichos… num lugar desse…”

“Que nada”, fez Isaac. “Além de mansos ainda dão sorte.”

Ficaram em silêncio admirando o movimento dos laboriosos insetos.

Alberto: “E tu, Werner, já resolveu o que vai fazer da vida? Ou ainda tá no princípio da Incerteza?”

“Bem…”

“Por que não faz logo como a gente e escolhe a profissão de eterno-estudante?”, continuou Alberto. “Tu recebe uma bolsa de quatro anos, sendo que, se espremer esse tempo, não dá um ano de trabalho. É uma beleza!”

“Eu ainda nã…”

“Eu tava aqui contando uma história pro Alberto”, cortou Isaac, que não apreciava entrar naquele assunto esotérico com terceiros, “e ele tá achando que é piada. Diz que fiquei doido depois que aquela caixa de maçãs caiu na minha cabeça, lembra? Ela nem estava tão alta, a energia potencial era baixa…”

“E qual é a história?”, perguntou Werner, que, conhecendo Isaac, já esperava uma daquelas.

“Acho que já te contei sobre aquele velhinho maluco que conheci em Paris, não contei? Não? Então escuta. Eu tava fazendo mestrado na Sorbonne e, certo dia, chamaram meu orientador pra ajudar na identificação de um velho italiano, que fora preso sem portar qualquer documento. O maluco foi flagrado tentando quebrar – no museu do Louvre – o vidro que protege a Mona Lisa. Provido de fósforos e de um tubo de desodorante cheio de querosene, ele pretendia queimá-la. Gritava, em italiano, algo do tipo: ‘Não era pra ela viver tudo isto!!’ Bom, você poderia perguntar: E o que um professor de Física tem a ver com essa história? Vou te dizer. O Dr. Jean Louis, meu orientador, era o maior especialista em relatividade geral e restrita e, ao mesmo tempo, em quântica, sendo um grande defensor duma teoria unificada. A polícia, por mera curiosidade, queria que ele checasse as teorias estapafúrdias do velho louco, que dizia ser o próprio Leonardo da Vinci. Fomos juntos, eu e meu professor. Como não conseguimos ler os manuscritos do velho, que insistia em escrever de trás pra frente – com as letras ao contrário – resolvemos interrogá-lo com a ajuda dum intérprete… Do que é que vocês estão rindo?”

“Nada não”, disse Werner, contendo-se. “Pode continuar.”

“Só tô contando o que aconteceu, não tô inventando nada”, indignou-se Isaac. “A única a inventar algo foi a mente insana do italiano.”

“Tudo bem”, acrescentou Alberto. “Se é ou não simples piração depende de vários fatores. Isso é relativo. Agora vai, continua.”

“Bom, o Leonardo da Século Vinte – como o apelidamos – nos mostrou uns rascunhos esquisitos dum engenho, que supostamente o ajudaria a penetrar e sair dum buraco negro rotacional no tempo e lugar que quisesse. Vocês sabem que meu doutorado, hoje, é uma tentativa de desmistificar esses falsos autores que a gente vê por aí, seja de auto-ajuda ou misticismos similares, que usam e abusam de conceitos e teorias da física moderna pra defender uma idéia imbecil qualquer. Não entendem nada e abusam da ignorância equivalente do público pra bombardeá-lo com bobagens. Aquele pseudo-Leonardo era um exemplo típico. Não passava dum hippie que – após derreter o cérebro com todas as drogas possíveis – tentava protestar contra a massificação das obras de arte, as quais, segundo ele, já não são compreendidas por 99% das pessoas, a começar pelos próprios estudiosos do assunto. Ele dizia que preferiria queimar a Mona Lisa – ‘encarem como uma performance’, dizia – a vê-la enfeitando, através duma tosca reprodução, a geladeira duma dona-de-casa norte americana. ‘Meu quadro não é pingüim!!’, concluía ele.”

“E o que aconteceu com o cara?”, quis saber Werner.

“Calma, já vou dizer. Depois que o Dr. Jean Louis demonstrou pro cara, por A mais B, que seu delirante engenho era de existência improvável, mesmo hipoteticamente, o velho explodiu. Gritava dizendo que possuía uma máquina daquelas muito bem escondida e que a utilizaria para vingar-se de nós dois, interferindo no curso de nossa “ignorante e inútil vida”. Disse que com ela tinha poder sobre umas certas Parcas. (Nunca vi mais gordas.) E perguntou-nos ainda se sabíamos o que era uma antipartícula e o que ocorre quando esta se encontra com sua partícula correspondente. Claro que utilizamos esse seu comentário para confundi-lo, dizendo que da Vinci não tinha conhecimentos sobre tal matéria. “Isto é o que vocês pensam!”, grunhiu ele. Nós o deixamos e só depois ficamos sabendo, pela TV, que, após cumprir uma curta pena num hospital psiquiátrico, ele fora liberado. Nunca mais ouvimos falar do Leonardo da Século Vinte.”

“Bacana sua história”, disse Werner, irônico. “Agora vai ver se eu tô lá na esquina. Se você encontrar alguma aqui em Brasília…”

“Vocês são uns otários, uns incrédulos, não é?”

“Ei!”, interrompeu Alberto. “Olha como aquele cara que vem ali de olho arregalado se parece contigo, Isaac. É a tua cara!”

“Que ca…”, começou Isaac, sem concluir. A casa de marimbondos caíra na sua cabeça. Debatendo-se em desespero, levantou-se e saiu correndo na direção do antiIsaac. Este arregalou ainda mais os olhos, tentou dar passagem à vítima dos insetos, mas não foi rápido o suficiente. Chocaram-se de frente e formou-se, por frações de segundo, um intenso clarão. Logo, desapareceram no ar sem deixar vestígios.

“Meu Deus!!”, exclamaram Werner e Alberto ao mesmo tempo.

“Ah! Rá! Rá! Rá!”, gargalharam do alto do mezanino, logo acima do local onde antes estava a casa de marimbondos. Quando olharam viram um velho cabeludo e barbudo com uma vara na mão. Ele estava eufórico. Após mais algumas risadas, saiu correndo e desapareceu.

Os dois estudantes sentaram-se em meio a um mudo estupor. Além deles, ninguém parecia ter testemunhado o extraordinário acontecimento.

“Alberto…”, disse Werner, quebrando o silêncio.

“Hã?”

“O que é mesmo uma antipartícula?”

“Bem… é uma partícula elementar de massa igual, mas de carga oposta a uma outra correspondente.”

“Só isso?”

“Hum…”, coçou a cabeça. “Dizem que também pode ser a própria partícula percorrendo um sentido oposto no tempo. Ao invés de caminhar do passado para o futuro, caminha do futuro para o passado.”

“Interessante… E isso é comprovado?”

Alberto deu um sorriso amarelo: “Olha não me lembro bem disso, mas acho que tu viu o mesmo que eu.”

“E o que acontece quando as duas se encontram?”

“Acho que se anulam, não é?”, respondeu num esgar. “Sei lá, cara, tudo é muito relativo.” E levantando-se: “Até mais!”

“Falou”, fez Werner.

Naquele mesmo dia, um famoso quadro foi virtualmente roubado e um respeitado cientista francês desapareceu misteriosamente. Pelo menos Werner já sabia o que fazer do futuro.

_____

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau.) 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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