A Virada

29/03/1997
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Dédalo era estudante de arquitetura na Universidade de Brasília. Estava eufórico, aqueles dois dias seriam decisivos. O professor não adiaria mais — “Sem procrastinações!”, dissera categórico. Aquela palavra o assustou. De um jeito ou de outro teria que entregar o projeto final. Ou jamais se formaria.

Tivera a idéia no primeiro semestre de curso, há oito anos e meio, após quase ter sido atropelado dezessete vezes, numa só semana, dentro do próprio campus universitário. Planejaria um sistema reticular de túneis subterrâneos — para pedestres — que ligaria os pontos principais do campus. Nos trechos de maior distância — como do Instituto Central de Ciências até o Centro Olímpico — haveria carrinhos: como os da montanha russa que sua irmã conhecera, durante a lua-de-mel, em Orlando.

Na manhã do primeiro dia, Dédalo chegou cedo no ateliê. Pegara o primeiro ônibus que saíra da Ceilândia (Sim, existem estudantes de arquitetura que moram na Ceilândia.) Estava tranqüilo, trouxera tudo: régua paralela, esquadros, curva francesa, papel vegetal, papel manteiga, penas, nanquim, disquetes de computador — com o projeto já pela metade — e o principal: pó-de-guaraná, cafeteira elétrica, coca-cola e chocolates. Estava pronto para virar as duas noites, se necessário. Ocupou a mesma sala na qual dois amigos já se haviam instalado. Foi um primeiro dia de muita conversa, música, trabalho (sim, trabalhavam) e calibradores psíquicos.

“Passa a bola, Délado.”

Délado?!”

Risadas. Mais risadas. Muitas risadas. Passavam a bola.

O dia foi tão proveitoso, o trabalho ficara tão adiantado, que Dédalo resolveu ir dormir em casa. Deixou apenas os instrumentos no seu armário do ateliê, pois não conseguia se separar do projeto. Levou os disquetes e a papelada. Em casa, não conseguiu dormir. Ingerira muita cafeína. Passou a noite pensando no trabalho. Já podia ver todos aqueles túneis… Faltava pouco.

No dia seguinte levantou cedo e foi pra universidade. Estava sonolento. O sono que não chegara à noite, chegava agora. Dormiu no ônibus, os objetos no colo. Quando acordou, na rodoviária, estava sem carteira, sem mochila, sem projeto, sem nada. Ladrão desgraçado! Desesperou-se.

“E agora? e agora? e agora? e agora?”, e concluiu: “Merda! Merda! Merda! Merda!”

Pediu dinheiro na fila e pegou o ônibus pra universidade. Lá, mergulhado em enfurecido êxtase, trancou-se numa sala do subterrâneo, sozinho, com todo o material de desenho. Recomeçaria. Daria tempo. Sim, ele sabia, ia dar tempo. Os amigos apareciam periodicamente com o suprimento de pó-de-guaraná, café, coca-cola e incentivos.

“Fica tranqüilo, Dédalo, dá tempo.”

Ele fechava a porta: “Eu sei, eu sei”, dizia lá de dentro.

De fora, horas depois, ouviram-se sons estranhos vindos da sala. Papel rasgando. Madeira quebrando. Monólogos incoerentes.

“Tudo bem aí, Dédalo?” Ele abria a porta, o olhar perdido, pegava o café e voltava a trancar-se. Já não dizia nada. Os amigos preocupavam-se.

“Você não quer ir no banheiro, Dédalo?”, pausa. “Dédalo?”

Abriu a porta o suficiente para mostrar o rosto. Estava com um olhar iluminado de Jack Nicholson. Sorriu estranhamente. Trancou-se de novo.

“Relaxa, galera, ele tá legal.”

Agora ouviam-se risadas. Muitas risadas. Gargalhadas. Depois silêncio.

“Ele deve estar fumando”, disse alguém.

Mentira. Desde que quase fora pego pela polícia oito vezes num mesmo dia, dentro do campus, nunca mais carregara beque. Era do time do “semedão”.

O silêncio prosseguia. Depois mais gargalhadas. Então ficou em silêncio por mais de quatro horas. Não respondia aos chamados. Resolveram arrombar a porta. A sala estava com terra até o teto. Alguém foi buscar uma pá. Toneladas de terra. Encontraram um buraco no chão com uma mensagem na borda: “Digam ao rei Minos que eu voltei. Dédalo não mais existe”. Entraram no buraco e descobriram um imenso labirinto de túneis interligados. Três alunos se perderam e jamais voltaram a ser vistos. No dia seguinte, Dédalo não entregou o trabalho. O teórico.

Quando o limite de velocidade das vias internas do campus passou a ser de 120Km/h, resolveu-se usufruir as Vias de Dédalo. Foram iluminados e calçados apenas os túneis que uniam os principais pontos do campus. O GREGEO – um grupo de espeleologia formado por alunos da geologia – organizou uma expedição visando, além de mapear o labirinto, encontrar Dédalo e os outros alunos desaparecidos. Apenas um dos espeleólogos regressou. A roupa rasgada. O corpo cheio de escoriações e hematomas.

“Foi um louco com cabeça de boi”, disse antes de desmaiar.

Soube-se depois que o labirinto era muito maior do que se imaginava. Talvez ligasse todo o Plano Piloto.

“Talvez vá até Machu Picchu”, disse o aluno da geologia já no hospital. Um segurança do Centro Olímpico relatou que vira um monstro de chifres assistindo ao nascer do sol à beira do lago Paranoá. Quando o monstro o viu, correu e entrou num buraco.

“Procrastinação! Procrastinação!”, rugia o monstro. Devia ser ele.

Dias depois, na sala do Núcleo de Vídeo, apareceu um cabeludo sujo de terra e maltrapilho que fora assistir a um filme. Era um filme sobre o Minotauro da ilha de Creta. Dizem que o cabeludo trazia uma sacola na qual deixava-se entrever um par de chifres.

“É ele”, disse alguém.

“Não é não. É o Zeca da antropologia.”

“Olha…”

Numa das últimas aparições, foi visto ao lado da estátua de Dédalo — erguida pelo reitor ao lado da estátua do John Lennon em homenagem ao criador dos túneis. Dizem que chorava. Mas a última vez mesmo, foi numa foto. Era uma foto do Palácio do Planalto que saíra na primeira página da Folha de São Paulo.

“Olha ele aí.”

“Onde?”

“Atrás do presidente.”

“Que nada!”

“Ah, é? Então de quem são os chifres?”

Desde então, ninguém mais o viu.

_____

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau.) 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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