A Vingança de Piupiu

24/09/1996
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A Vingança de Piupiu

Já era hora de alguém propor uma mudança radical para os famigerados ritos de passagem conhecidos como “trote”. Os primeiros a lograr semelhante salto evolutivo foram os alunos veteranos da Química. Conscientes do valor medicinal da urina — cuja ingestão, segundo o famoso professor e urinólogo indiano Sri Auromijo, é essencial à manutenção de nossa saúde — passaram a obrigar seus calouros a ingerir um copo de suas próprias excreções urinárias todas as manhãs do primeiro semestre de curso. O próximo passo foi dado pelos veteranos da Educação Física. Aplicaram uma idéia excelente: extirpar, com o auxílio de uma tesoura de jardim, os inúteis dedinhos do pé dos alunos novatos. A princípio a dificuldade e os problemas para a execução de tal idéia foram tão grandes — pois os calouros usavam de violência para fugir — que foi necessário chamar a polícia para resolver a questão. Evidentemente, com os “bichos” algemados no pau-de-arara era bem mais fácil. Já os veteranos da Engenharia Florestal sempre faziam um sorteio entre seus novos companheiros. O vencedor ganhava um jantar pago num sofisticado restaurante japonês e, depois, noite adentro, bebia por conta dos colegas. No dia seguinte, aproveitando-se de seu coma alcoólico, os veteranos o enterravam vivo e plantavam uma árvore por cima. Não conheciam adubo melhor.

Ao testemunhar tantos avanços, efetivados por companheiros de outras áreas no campo do trote, os membros do Centro Acadêmico de Medicina decidiram abandonar as ingenuidades do tipo “tinta, batom, farinha de trigo e ovo”. Chegaram a um consenso após acatarem as sugestões de alguns membros do corpo docente: em cada leva de novatos, um seria escolhido para ser sacrificado e ter o corpo doado à ciência.

“Vocês são uns doentes, uns loucos!!”, protestou Aline, uma das veteranas. “Vou denunciá-los!” Todos riram, afinal a própria polícia havia oferecido seus serviços no que se referia à execução e traslado da vítima. Na ocasião, Tiago, presidente do Centro Acadêmico de Medicina, agradeceu amavelmente à força policial, mas recusou a oferta. Aquilo era um trabalho para os veteranos da medicina. E pouco lhe importava a opinião da Aline. Seus ataques não passavam de uma jogada política, pois, com certeza, ela pretendia se eleger presidente do C. A. de medicina com a ajuda dos corações moles do curso. Seria bom ficar de olho nela.

Bem, a princípio se supôs que não seria tarefa tão elementar escolher o tal calouro-vítima. Mas, no primeiro semestre de vigência do novo trote, toda dificuldade de seleção foi sublimada pela presença dum calouro de perfil um tanto sui generis para um estudante de medicina. Era alto, muito forte, a cabeça raspada, braços tatuados, muitos brincos em cada orelha, um body piercing no nariz, outro na sobrancelha e, como se tudo isso não bastasse, ainda se chamava Jason. Detalhe: com a pronúncia inglesa. Era, além disso, um sujeito muito mal encarado que só se comunicava por monossílabos.

“Ô careca”, disse Tiago armando a cilada. “Vem me ajudar a levar uns engradados pro C.A.”

“Só”, respondeu Jason.

Quando o calouro entrou no C.A. de medicina carregando dois engradados de cerveja, alguém, com extrema habilidade e rapidez, passou-lhe um laço pelo pescoço.

“Agora!!”, gritou Tiago.

E então, num átimo, outros cinco veteranos pularam na extremidade oposta da corda, erguendo Jason — que com o susto largara os engradados — até a altura da viga pela qual haviam passado a corda. Jason soltou uns ruídos feios, estertorou, balançou as pernas no ar e, por fim, expirou, colocando pra fora uma língua enorme, na qual se via um brilhante body piercing de prata.

“Uff! Tudo pela ciência…”, murmurou alguém, limpando o suor da testa.

Minutos depois, numa das mesas da sala de anatomia, Jason jazia nu e, como rezava a lenda, apresentava uma ereção peniana típica dos enforcados. Mas o que realmente surpreendeu o professor e seus alunos — todos ataviados para a dissecação — foi o body piercing — mais um! — que Jason trazia no pênis. Um grande anel metálico vazava-lhe a glande de cima abaixo, uma coisa espantosa. E o que era mais insólito: havia uma tatuagem do Piupiu — aquele dos desenhos animados — no dorso do pênis dele. Quando alguém brincou dizendo que aquilo se assemelhava a um souvenir da Warner Brothers, Tiago teve uma grande idéia. A pretexto de estudar melhor mais algumas “peças” da máquina humana, Tiago permaneceu na sala de anatomia após a aula. Logo, munido de um bisturi, privou o pobre Jason de sua falecida sexualidade, fazendo, em seguida, uma pequena sutura na base da “peça”. Após toda essa sórdida operação, introduziu-se sorrateiramente no laboratório de patologia clínica, onde Aline assistia a uma aula. Localizou, então, a bolsa da estudante sobre uma cadeira, retirou-lhe as chaves do carro e substituiu o chaveiro pelo “souvenir da Warner Bros.”, aproveitando-se inclusive da tesourinha chinesa ali encontrada para cortar um fiozinho solto, resquício da sutura. No trajeto para sua casa, Tiago não conseguia segurar as gargalhadas: “Ela vai ver só!”

Naquela noite, antes de dormir, o presidente do C.A. de medicina assistiu, na TV a cabo, a um filme trash um tanto perturbador. Algo sobre um artista plástico que, após vingar-se de um crítico de arte atropelando-o, passou a ser perseguido pela mão deste último, a qual havia sido arrancada no acidente. Aquele filme sinistro fez Tiago ter um sono meio agitado. Sonhou que alguém rondava a casa, tentando abrir as portas. Felizmente, pela manhã, foi acordado pelo ruído de um molho de chaves que caia ao chão. Provavelmente o vizinho.

Quando chegou na faculdade, recebeu uma notícia surpreendente: por volta das dezenove horas do dia anterior, Aline fora encontrada em estado de choque no estacionamento da faculdade. Embora ela não soubesse dizer como ou o quê a havia atacado, tudo indicava que fora vítima de estupro. Os únicos objetos roubados foram as chaves do carro e o celular.

“Minhas chaves… minhas chaves…”, foi tudo o que Aline sussurrou antes de entrar em estado catatônico.

“Essas burguesinhas!”, disse um policial. “Até mesmo nessas horas só pensam em suas propriedades.”

Espantoso e incompreensível foi o resultado do exame de corpo de delito: não houvera estupro, o pretenso violador havia extirpado com precisão cirúrgica o clitóris da menina. O fato estarreceu a todos. Quem teria feito uma coisa assim tão horrível?

Mas Tiago, não sem pavor, compreendeu imediatamente o que se havia passado. Logo, sem pensar duas vezes, correu pra casa sem assistir a uma aula sequer. Uma vez lá, trancou portas e janelas. Claro, talvez tudo não passasse de um surto paranóico, mas – em vista dos fatos – era melhor não arriscar.

O dia transcorreu sem sustos. Por fim, quem efetivamente arrombou as portas foi o tédio. Tiago refestelou-se, então, numa poltrona em frente à TV, com o controle remoto na mão. Apesar de ter pelo menos sessenta canais à sua disposição, contentou-se com manter o dial no canal da Cartoon Network. Quando a noite chegou, um princípio de ronco já lhe escapava dos lábios. Só foi acordar com o telefone do quarto ao lado.

“Alô”, disse com as pálpebras ainda coladas.

“Eu acho que vi um gatinho!”, foi a resposta.

“O qu…”, mas interrompeu-se arregalando uns olhos enormes. Largou o telefone, correu pela casa verificando as fechaduras e ainda teve a excêntrica idéia de passar a corrente da bicicleta, à guisa de cinto, pelos ilhoses da calça jeans que usava, fechando-a, em seguida, com um cadeado de segredo. Durante todo esse tempo jurava ouvir gargalhadinhas infantis e maquiavélicas. Por fim, regressou à sala tentando respirar profunda e pausadamente. Precisava controlar aquela taquicardia. Mas qual não foi sua surpresa ao perceber que, na TV, passava um desenho animado do Frajola e do Piupiu. Certamente toda aquela correria absurda não passava da reação de uma imaginação doentia a uma mente embotada pelo sono. Sentia-se ridículo. Ficou tão envergonhado que nem percebeu que havia um telefone celular desconhecido ao lado da TV. Era melhor tomar um chá, relaxar e estudar pra prova que teria na manhã seguinte.

Assim que a água do chá ferveu, o telefone celular começou a tocar. Tiago franziu a testa mas não conseguiu reconhecer aquele som. Caminhou até a sala apreensivo. Viu o telefone, porém não atinava em quem poderia tê-lo largado ali. O jeito era atender.

“Alô”, e ficou na expectativa.

“Quem fala?”, indagaram do outro lado.

“Tiago.”

“Tiago?!”, exclamou Aline. “O que é que você tá fazendo com o meu celular?”

“Seu…”, mas não pôde concluir. Alguma coisa — um rato talvez — havia entrado pela barra da sua calça e lhe subia pela perna esquerda. Aline ouviu Tiago soltar gritos terríveis, pedir socorro, mas estava impotente, não sabia como ajudá-lo. O rapaz sentia ainda o roçar frio e metálico de algum objeto preso ao invasor, como uma corrente arrastada por um fantasma. Ou… por um vermão! Lembrou-se da tesourinha chinesa!! Ficou apavorado. Enquanto tentava conter o intruso com a mão esquerda, com a direita tentava encontrar o segredo do cadeado que lhe prendia a calça.

“8-9-0… Não!! Esse é o meu R.G.!”

“Tiago! Tiago!”, gritava Aline no celular. E o bicho subindo.

“3-7-3-5… Não! Não! Esse é o código do meu cartão do banco… Pensa! Pensa!”

“O que é que tá acontecendo, Tiago!?”

“0-0-4-6… Aaaaaaaah!!!”

Tarde demais. Jason fora vingado.

Quando a polícia — avisada por Aline — chegou à casa de Tiago, este, em pessoa, recebeu os soldados à porta. Estava sereno, agradeceu à preocupação dos policiais, mas disse que nada havia ocorrido. Provavelmente tudo não passara de um delírio da coitada da Aline. Afinal, ela acabara de passar por uma experiência traumática. Quanto ao telefone celular, ele tampouco tinha um em casa. Satisfeitos, os policiais se retiraram e Tiago voltou ao seu cigarro e ao seu chá de frutas cítricas.

Realmente nada de anormal parecia ter ocorrido naquela casa. Não havia sangue, sinais de luta e Tiago parecia estar muito bem. Inclusive seus órgãos sexuais estavam intactos. A única coisa estranha foi ele, dias depois, abandonar a presidência do C.A. de medicina e anunciar seu desligamento da universidade. Dizem que foi visto apenas mais uma vez, pouco antes de se mudar pra San Francisco, nos EUA, onde — além de continuar o curso de medicina, no qual se especializaria em urologia — faria também um curso de decoração. Estava saindo da casa de um conhecido tatuador de Brasília. Segundo este, Tiago havia encomendado um desenho do Frajola com os dizeres: “I love Piupiu”. Mas o lugar da tatuagem… bem, era segredo profissional.

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau.) 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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