A Revelação

11/11/1996
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Ele alimentava uma inveterada paixão pela secretária do reitor. Desde que ingressara no curso de matemática, cinco anos antes, vivia inventando pretextos para, como quem se houvesse enganado, penetrar na ante-sala do gabinete do reitor.

“É aqui o Decanato de Pesquisa e Pós-Graduação?”

“Não”, ela respondia. “É em frente, no fim do corredor.”

Ele saia com o coração trincado. Em todos esses anos, ela nunca dera mostras de o haver reconhecido. Isso era muito pior do que um possível desprezo da parte dela. Para alguém ser desprezado, é preciso antes ter reconhecida sua existência. E ela simplesmente o ignorava.

Numa enfumaçada e depressiva segunda-feira, estava sentado na entrada norte do Instituto Central de Ciências, de frente para a biblioteca, quando foi interpelado por Chatud:

“Vejo que você também sente a decadência do mundo, não é verdade?”

Ele encarou Chatud timidamente. Não estava pensando em nada disso. Pensava na secretária. Mas seria melhor concordar. Os amigos diziam que aquele cara maltrapilho, sujo, descalço e provido de quipá acreditava ser a reencarnação de Cristo, e, em meio a discursos messiânicos, prometia riquezas extraordinárias para quem o ajudasse a combater e encarcerar Satanás por mais mil anos. Com todo esse currículo, Chatud podia ser perigoso.

“É verdade”, aquiesceu o estudante, “o mundo está tão podre, que o único que podemos fazer é dar um empurrãozinho pra que ele desabe mais rapidamente. Talvez só assim algo melhor possa nascer. Algo melhor que esse mundo de bestas.”

Chatud sorriu condescendente. Mundo de bestas… Sim, aquele ali era digno de ser um dos seus generais. Logo, principiando sua ladainha, segredou que a Revelação já fora iniciada, que os quatro cavaleiros – com seus cavalos branco, vermelho, preto e amarelo – já haviam sido invocados pela abertura dos quatro primeiros selos do Livro da Revelação, e que ele, Chatud, estava nos rastros da Besta e de Satanás. O estudante ouvia a tudo aquilo não sem espanto. Mas quando Chatud começou, sem mais nem menos, a lhe demonstrar um teorema complicadíssimo de matemática e a provar-lhe, por a mais b, que toda a nossa matemática não é mais que nosso anelo pelo Infinito, ficou muito impressionado. Se aquele cara era mesmo louco, sua loucura provinha de um excesso e não de uma falta de inteligência. De repente, Chatud tomou-lhe a mão direita e disse:

“Você agora é um dos meus generais e terá, quando estivermos na Nova Jerusalém, o direito de possuir cem concubinas, segundo sua própria escolha.” Então levantou-se e recitou: “Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus”, e tendo dito isto, saiu. Alguém o chamara para fumar um.

“Concubinas!”, pensou o estudante, lembrando-se da secretária do reitor e esquecendo-se da árvore da vida. “Isto sim seria demais!”

Em casa, após reler longos trechos da Bíblia, o estudante ligou a televisão. Assassinatos, catástrofes, guerras, revoluções, fome, doenças incuráveis – até aqui tudo normal – e banalidades, banalidades e mais banalidades – agora, sim, indícios do fim dos tempos… Lembrou-se, então, de Chatud. Lembrou-se da secretária. Esqueceu-se de si mesmo. Dormiu no sofá da sala.

Reencontrou-se num sonho. Estava sentado num trono ao lado dum cordeiro que o mirava com sete olhos.

“Como o reconhecerei, Mestre?”, perguntou o estudante.

“Eu lhe demonstrarei o teorema indemonstrável”, disse o cordeiro piscando-lhe a metade dos seus sete olhos.

Depois, viu a secretária do reitor aproximar-se, sorrir-lhe e sentar-se aos seus pés. Estava linda, coberta apenas com sete véus fosforescentes.

“Meu Deus…”, ele ainda murmurou.

Acordou transmutado. Não era mais um estudante de matemática, tornara-se outra coisa. Precisava de confirmação.

“Faz a demonstração desse teorema”, disse, já na UnB, ao entregar um caderno a Chatud.

Chatud pegou o caderno, olhou o teorema e, após uma veleidade de sorriso, pediu um lápis. Sentou-se e começou a garatujar qualquer coisa no papel. Aquele teorema seria a grande confirmação. Desde o século dezoito – quando foi elaborado pela primeira vez – esse teorema ficara sem uma demonstração completa. A demonstração, feita pelo matemático que o criara, perdera-se algures. Grandes matemáticos já se haviam rendido àquele desafio.

“Pronto”, disse Chatud, estendendo o caderno.

O estudante leu e releu a demonstração do teorema diversas vezes. Chatud explicou-lhe alguns trechos mais obscuros. É, estava correto. Os olhos do estudante brilharam:

“Mestre!”

Chatud pediu-lhe para que se calasse e ouvisse. Ele havia encontrado a Besta. Vira o 666 gravado na sua testa. Ela passaria por ali dentro de instantes. Deveriam agir. Chegara a hora. Seriam abertos os últimos selos do Livro da Revelação. Antes, porém, foram fumar unzinho.

Quando voltaram para a entrada norte do ICC, ficaram estarrecidos – a Besta já estava lá! Parecia um cavalo, mas tinha cabeça de leopardo, os pés de urso e sobre ela vinha montada uma mulher vestida de vermelho e dourado.

“Aquela é a mãe de todas as prostituições e abominações da Terra”, sussurrou Chatud. “Prepare-se!”

Quando se aproximaram, num átimo voaram sobre aqueles dois seres execráveis. Gritavam: “É seu fim, porca Babilônia!” A luta foi terrível. A mãe de todas as abominações da Terra tentava enganá-los dizendo que era apenas aluna do grupo circense do Departamento de Artes Cênicas. Mas não adiantou. Eles, o Mestre e seu General, foram impiedosos. No entanto, apareceram reforços. Alguns guerreiros-do-mal, de botas pretas e armados com bastões, conseguiram nocauteá-los e prendê-los com algemas. O estudante lembra apenas de ter visto, momentos depois, o céu tornar-se negro e fechar-se sobre o mundo, como se fosse a porta traseira de um camburão. Sim, foi o fim. De tudo.

Quando voltaram a si, já estavam na Nova Jerusalém. De um jeito ou de outro, haviam cumprido as profecias. Agora, usavam túnicas brancas e, engraçado, tinham a cabeça raspada. Chatud não se lembrava de haver lido sobre aquilo no Apocalipse, o Livro das Revelações. Almas carecas! Muito estranho. Apenas os anjos do Senhor tinham cabelo. Chatud passava os dias no seu trono, sob a árvore da vida – que muito se assemelhava a uma jaqueira. O estudante estava injuriado. Não havia recebido suas concubinas. Nem sequer a secretária do reitor. O mestre o enganara. Por isso, só voltou a dirigir-lhe a palavra quando ouviu um dos anjos referir-se a eles como “internos do sanatório”. Isto causou-lhe um surto de lucidez. Correu até a árvore da vida.

“Chatud!”, começou. “Preciso lhe fazer uma revelaç”, mas não teve tempo. Uma jaca se espatifou sobre sua cabeça.

“Falsos profetas não fazem revelações”, disse sabiamente Chatud, enquanto olhava o cadáver do seu general.

____

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do Terceiro Grau.)

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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