A menina branca

02/09/2014
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A menina branca

Edgar andava muito irritado com uma coisa: num país onde ocorriam cerca de cinqüenta mil homicídios ao ano, o que realmente atraía a atenção da famigerada “opinião pública” era essa espalhafatosa campanha, não apenas em defesa dos animais domésticos — mormente cães e gatos —, mas também em defesa dos animais silvestres, sobretudo desses seres que, a não ser talvez pelo YouTube, ele jamais veria ao vivo — tais como o Diabo da Tasmânia ou aquele bizarro Anjo da Tanzânia.

“Existe isso? Anjo da Tanzânia?!…”, indagava Edgar a seus botões, franzindo o cenho e tentando encontrar indícios de Photoshop naquela estranha imagem que parecia misturar uma girafa a um avestruz. “Contribua para a salvação do Anjo da Tanzânia!”, rogava a legenda da fotografia, que também trazia o número de uma conta num banco das Ilhas Cayman. E, na mesma cena, viam-se cinco cabeludos ajoelhados defronte do animal, como se adorassem um anjo de verdade. Muito suspeito.

Edgar, que sempre criara cães, hamsters, papagaios, tartarugas; ele, que na infância tivera até um mico-de-cheiro e um tatu (sim, até mesmo um tatu); enfim, ele, que com toda a sinceridade do coração sempre gostara de animais, achava um absurdo essa noção de que bichos são inocentes, de que são melhores e mais confiáveis que gente, e por aí vai. Não compreendia por que as mesmas pessoas que arrancavam os cabelos cada vez que um vira-lata era chutado na rua, por outro lado, pareciam não se incomodar com os vários genocídios ao redor do mundo, com a matança de comunidades cristãs inteiras na África, com o número enorme de homicídios anuais no país, com os milhões de abortos, e demais notícias terríveis a esse modo. Quando ele postava uma informação desse tipo no Facebook ou no Twitter, ninguém se interessava, o silêncio era implacável. Já as postagens sobre bichos — ah! — essas causavam grande impacto e comoção. Edgar chegava a se perguntar se seus amigos viam o sofrimento humano como algo merecido — como uma espécie de castigo inexorável por comermos salaminhos inofensivos e mortadelas indefesas — ou se, pelo contrário, esses mesmos amigos — pressupondo que todos os humanos são animais — já incluíam automaticamente nesses protestos a indignação pelo assassinato de tantos de nossos semelhantes.

“Será que o Green Peace também está preocupado com pessoas gordas quando fala em baleias?”, perguntava-se cheio de sarcasmo. E respondia: “Pois deveria! Eu fui gordo durante toda a minha infância e sofri mais bullying que a Orca, a baleia assassina!”

Naquela manhã, porém, percebeu que a primeira alternativa às possíveis causas do sofrimento humano, a do castigo, é que era a correta: num intervalo para o café, leu uma amiga comentar que devia existir pena de morte para quem pratica a caça desportiva, já que, ao praticá-la, os humanos estariam confirmando o fato de serem inferiores a qualquer outro animal. “Inferiores?! Ora”, pensou ele, “animais também não sentem prazer ao caçar? Ou será que apenas estudam medicina? Algum grupo de bichos já se juntou para abrir um hospital que apenas atendesse pessoas? Nós, humanos, compensamos todo esse suposto mal com clínicas veterinárias, com associações, fundações e institutos protetores. E eles? E os animais? Têm o quê? O que essas criaturas superiores fazem por nós além de nos morder, de nos picar e de nos comer pelas selvas, ou — na melhor das hipóteses — além de se deixarem comer, cativar e encher nossa roupa de pelos? Alguém ao menos já viu uma ONG fundada por bichos para proteger gente? Claro que não!”, discursava dentro de si mesmo. “Eles, os animais”, prosseguia numa crescente e silenciosa empolgação, “não podem fazer nada disso pela mesma razão que lhes obsta o estado de inocência: eles não têm consciência moral! Ou ainda: não são autoconscientes! Humanos erram, mas sempre podem se aprimorar. E é por isso que nós é que precisamos cuidar deles, decidir por eles, respeitá-los, até amá-los (se for o caso), mas não adorá-los! Seu cachorro gosta de você? Certo, todo cachorrinho petitico é um docinho para seu dono. Mas coloque-o a viver num canil com outros trinta cachorrinhos petiticos: iniciam-se imediatamente as antipatias e as agressões recíprocas! Isso é um fato, caramba! Para os cães, o inferno são os outros cães e, ao contrário de nós, eles não têm qualquer perspectiva ou mesmo necessidade de redenção, já que não possuem livre-arbítrio, já que não podem decidir pelo arrependimento. Meu avô teve um canil, observei essas coisas de perto. Mas isso tudo não significa que os bichos sejam maus — claro que não! Mas tampouco são moralmente bons e inocentes como querem esses spammers militantes! Bichos são pré-morais e ponto final, caramba… É tão óbvio: apenas alguém que pode ser culpado pode também — não em relação à mesma ação, claro — pode também ser inocente! Porque inocência e culpa implicam responsabilidade. E animais são animais! Não são responsáveis por seus atos! Não são livres, pois não podem frustrar voluntariamente seus próprios instintos! São escravos dos instintos! Quer defender os bichos? Defenda, mas jamais diga que eles são melhores do que a gente. Jamais! Uma época em que as pessoas já não conseguem entender essas coisas só podia mesmo se chamar Kali Yuga…”

— Olha a cara do Edgar — disse um colega, cutucando alguém. — Tá quase mordendo o monitor.

— Deve estar fuçando no perfil da Virgínia — e ambos riram. Mas Edgar continuava alheio, trepado num parlatório dentro de si mesmo, discursando para uma multidão de Edgares.

Sim, era verdade que boa parte dessas postagens em prol dos animais bonzinhos, e contra os humanos carnívoros malvados, vinha da sua própria noiva, Virgínia, uma vegetariana com fortes tendências veganistas, que não podia nem em sonhos descobrir que, longe dela, ele comia carne. Não, nem pensar! Ela ficaria menos abalada se ele se declarasse canibal! Como a maioria dos amigos dela, ela preferia Beagles a pessoas. Sim, ler postagens sobre o sofrimento humano mundo afora era algo que não apenas os amigos dela, mas também os dele, não toleravam, pois tais informações poderiam estragar a vibe do final de semana. Ademais, era demasiado angustiante notar que os poucos a se indignar com esse sofrimento sempre propunham falsas soluções, tais como as diversas formas de intervenção estatal — “Faça alguma coisa, governo! Faça alguma coisa!” —, como se tal sofrimento, em inúmeras circunstâncias, não tivesse sua origem exatamente naqueles revolucionários, burocratas ou endinheirados que, pretendendo “mudar o mundo”, apenas se intrometiam na vida alheia, impondo mais controle, mais leis, mais restrições, mais impostos, mais exigências e reduzindo as liberdades e iniciativas individuais. Isso quando não impunham mais mortes. Edgar estava cansado desses pregadores do Mundo Ideal burocraticamente controlado, esses fanáticos que se ajoelham cinco vezes ao dia para orar ao Estado. Já ele, ao contrário dessa gente, acreditava que a única revolução fundamental era revolucionar-se e ver o mundo tal qual é, sem o filtro de ideologias e politicagens. E como naquele dia não lhe passaram nenhum projeto cujos cálculos devesse conferir, permaneceu imerso nesse discurso eloqüente e introspectivo toda a manhã.

Depois do almoço, já a caminho de casa, continuava resmungando: — Até você, né, Virgínia…

Sim, não tirava da cabeça tudo o que havia lido no Facebook. A verdade é que ele estava cansado da má consciência daqueles que preferem bichos à gente — afinal, Edgar não tinha nada contra os pobres animais! Não tinha. Mas, ao mesmo tempo, já não possuía a mesma disposição de outrora para discutir, para participar dos mesmos debates desgastantes internet afora. E, por isso, não fez comentário algum às postagens desses amigos militantes. Ultimamente vinha optando por evitar conflitos inúteis, principalmente se esses conflitos o colocavam em oposição à namorada. Até mesmo quando juntos, Edgar se esquivava a discutir com ela tais assuntos. Atualmente, sempre que Virgínia iniciava essa velha conversa de que a humanidade não seria senão o câncer do planeta, Edgar simplesmente retirava o celular do bolso, acionava a câmera de vídeo e lhe apontava a lente: “Conversa com meu telefone”, dizia ele, provocando-a. “Depois eu vejo o que você disse.” Enfim, o fato é que ele, na falta de serviço, ao menos se distraíra com a rede social, chegando rapidamente ao fim de mais um tedioso meio expediente de sábado. Dali em diante, ficaria sossegado, longe do escritório e das chatices da internet.

* * *

Ao chegar em casa, Sol a pino, desceu do carro, abriu a estreita garagem, voltou ao carro, estacionou. Edgar morava num loteamento recente, desses que possuem mais terrenos baldios que residências. Um bairro novo, numa região acidentada, cheia de morros, ladeiras, mato. Tinha poucos vizinhos e vivia numa casa praticamente isolada numa das esquinas. Ele a comprara ainda por terminar — paredes sem reboco, muros sem caiar — e a estava completando aos poucos, tencionando dar os últimos retoques no correr dos próximos dois ou três anos, quando então a região certamente já estaria valorizada, e ele, perto de se casar. Virgínia, que ao menos em teoria gostava de animais, talvez se sentisse à vontade naquela pequena casa de quintal espaçoso e então, quem sabe, num futuro próximo, até mesmo viesse a abandonar as estapafúrdias idéias de superioridade dos bichos e finalmente decidisse criar cães, gatos, coelhos, pacas, tatus, cutias, enfim, o que bem entendesse. Tratava-se de um sobrado que acompanhava o declive do terreno, sobrado este que, quando visto por trás, dava ao observador a impressão de ser bem mais alto, pois abrigava, sob a cozinha, um vão, isto é, um terceiro nível, uma pequena área coberta, mas adjacente ao quintal, que o rapaz planejava fechar e transformar num novo aposento. Sentia mais urgência em ter esse quarto de despejo — talvez uma futura marcenaria, para ele, ou um ateliê, para Virgínia — do que em construir o muro dos fundos. Ora, os fundos da casa davam para um riacho ainda ao natural, ao contrário da insipidez dos córregos canalizados dos bairros mais desenvolvidos. O único problema, claro, eram os ladrões. Muros poderiam afastá-los, mas a verdade é que não havia nada a ser roubado fora da casa, pois o quintal era apenas um longo terreno vazio com algumas mudas plantadas nas laterais. Por outro lado, junto ao córrego, havia, sim, muitas árvores, uma pequena e dispersa mata ciliar, um gramado aqui outro ali, enfim, praticamente um parque natural onde as crianças costumavam brincar à vontade. Edgar não queria isolar a casa dessa paisagem. Por isso, nos fundos do lote, mantinha apenas a cerca de arame liso levantada pelo primeiro dono.

Nesse dia, porém, ao abrir a porta da frente, sentiu algo incomum no ar, um estranho e inquietante silêncio — sim, algo terrível acontecera!

— Que droga! — remoeu-se. — O filho-da-mãe do Valdemar entrou aqui!

Valdemar era o gato preto de dona Berenice, sua vizinha do outro extremo do quarteirão. O rapaz até gostava do gato, mas amava mesmo era seu sabiá-do-campo, um passarinho que adquirira não pela beleza da plumagem — porque de fato parecia bem comum —, mas por causa de seu impressionante canto. Edgar costumava chegar em casa, abrir a portinha da gaiola e deixar o animal à solta por ali, o qual, acostumado com a vida que o dono lhe proporcionava desde pequenino, nunca o abandonava, mesmo com as janelas da casa abertas. O rapaz tomara conhecimento dessa espécie de ave através duma biografia de Olivier Messiaen, compositor que admirava a capacidade desses passarinhos de literalmente samplear tudo o que ouviam, isto é, de imitar e mesclar, num mesmo trinado, os sons de outros pássaros e até mesmo os assovios de seu dono. Para Edgar, ouvir aquele bichinho era como apreciar um flautista mágico, um verdadeiro caleidoscópio sonoro, e de fato praticamente entrava em êxtase ao lhe dirigir toda a sua atenção. O problema era manter Valdemar longe daquele habitat. Desde que dona Berenice ajudara Edgar a tratar de sua falecida cadelinha, Marie Roget — na época, acometida de parvovirose — o gato, acostumado à presença do rapaz, perdera todo receio de enfrentá-lo. Ao chegar da rua, era muito comum encontrar o bicho rondando a casa. Edgar, pois, tinha sempre de verificar todas as janelas antes de sair, o que, infelizmente, não havia feito naquele dia.

Precipitando-se até a gaiola, que estava na cozinha, o rapaz crispou as mãos: o gato a havia derrubado da parede! Agora não havia senão uma gaiola aberta e algumas penas cinzentas, brancas e castanhas pelo chão. Sentiu a adrenalina lhe subir à cabeça. Aos poucos, seu próprio lado animal e irascível começou a dominá-lo. A revolta contra os defensores da superioridade animal, contida à custo durante a manhã, pareceu abrir passagem pelos seus nervos e descobrir finalmente um bode-expiatório. Ou melhor: um gato-expiatório. Olhou, pois, em torno, a testa porejando, ansiando por descobrir o pássaro, são e salvo, empoleirado em algum lugar. Mas, infelizmente, Nevermore havia desaparecido.

— Gato preto do inferno!… — finalmente rosnou entredentes. E, no mesmo instante, ouviu um baque leve e surdo no andar de cima: o bandido ainda estava em ação! Edgar arregalou os olhos: — Nevermore! — exclamou com a voz embargada, correndo para a escada, cujos degraus galgou de três em três. Lá em cima, ao caminhar lentamente pelo pequeno corredor, viu um vulto sair do banheiro e correr, com passos ágeis e silenciosos, até desaparecer na penumbra do quartinho dos fundos. Olhando para dentro do banheiro, viu que Valdemar havia derrubado um tubo de champu, provavelmente ao tentar sair pelo vitrô entreaberto: sim, o vilão talvez tivesse entrado por ali, como por um funil, mas, pelo jeito, sair era uma outra história. Não podia deixá-lo escapar. Respirou fundo, entrou no quarto, fechou cuidadosamente a porta e avançou dois passos. Firmando a vista, os músculos retesados, o coração aos pulos, pôde então divisar, logo no canto direito, o gato preto com o amado Nevermore entre os dentes.

“Piu”, fez o sabiá-do-campo, causando novo estremecimento em Edgar.

— Nããooo!!!! — rosnou ele em fúria, saltando sobre o gato que, de olhos esbugalhados, os pelos eriçados, permaneceu com o animalzinho na boca. Foi uma luta tremenda, brutal. De joelhos, o rapaz, agarrado ao gato, não lhe permitia a fuga. Contudo, quanto mais se esmerava Edgar por retirar sem danos o passarinho da bocarra do predador, mais este cravava as presas na vítima e as unhas no rapaz. O gato rosnava de um jeito espantoso, agressivo. Nevermore, com os olhinhos perdidos algures, numa expressão de transe, parecia cada vez mais próximo da morte. Edgar amava aquele bichinho que tantas vezes o enlevara com seu canto. Não iria deixar aquele gato preto inútil matá-lo assim. E então, cingindo o pescoço de Valdemar com ambas as mãos, colérico, tentou estrangulá-lo sem dó nem piedade. Mediante a força bruta, tencionava convencer aquele caçador a abandonar sua inocente vítima. Mas o sabiá não lhe saía da boca! Desesperado, Edgar, num movimento brusco, potente e instintivo, um movimento nascido na fronteira entre o animal e o humano, chocou o corpo do gato contra a parede, fazendo soar, à altura do pescoço, um ruído seco de osso que se parte — e Valdemar caiu morto aos seus pés. Conseguindo, pois, retirar definitivamente Nevermore das mandíbulas da morte, o rapaz se emocionou. Quase chorou. Preocupado com o passarinho, nem reparou nos arranhões profundos deixados pelo gato em seus braços.

— Meu cantorzinho… — suspirava, enquanto corria até o banheiro para fazer curativos no animal.

Em seguida, já aliviado, e vendo que Nevermore tinha uma chance de sobreviver, Edgar sentiu-se novamente racional. Voltou então ao quarto, observou aquele cadáver de pelúcia e pensou: “Coitado do Valdemar…” Respirou fundo, suspirou. E então caiu em si: “Coitada da dona Berenice! O que ela vai pensar de mim agora?… Ela e a filhinha me ajudaram tanto com a minha Marie Roget! E eu, idiota, acabei matando o gato delas”.

Ficou ali com Nevermore nas mãos, lutando contra o remorso, tentando convencer a si mesmo de que não houvera outra saída. Mas a imagem da bondosa dona Berenice e de sua filhinha não lhe saíam da cabeça. Lembrou-se novamente do zelo das duas ao cuidar da cachorrinha moribunda. Na época, sempre que saía para trabalhar, ele deixava Marie Roget na casa delas. Ao contrário da mãe, a menina — uma garotinha albina que devido a seu perene estado de espanto aparentava ser ainda mais branca — a menina parecia temê-lo, talvez por ele morar sozinho, usar bigode e por ser tão tímido e introspectivo. E apesar disso, Madeline — assim se chamava a assustadiça garota —, mesmo evitando a todo custo trocar palavras ou olhares com Edgar, também ajudara a cadelinha dele. Só deixara de fazê-lo quando ela estava na casa do pai, que vivia noutro bairro em segundas núpcias. Considerando todos esses dados, Edgar se esforçava para racionalizar a situação e aliviar a própria consciência. Precisava encontrar uma falha de segurança no sistema da sua culpa. E então, repentinamente, atingiu-lhe a memória um fato que lhe foi bastante útil nessa empreitada: talvez essa aparente bondade de dona Berenice tivesse origem na sua incapacidade de olfato! Sim, por mais estranho que isso lhe parecesse à época, fazia agora todo o sentido.  E isto porque, no mesmo dia em que morreu Marie Roget, ocorreu o seguinte diálogo:

“Dona Berenice, fico muito agradecido por tudo o que a senhora fez pela minha cachorrinha.”

“Ora, não precisa agradecer, a gente faz o que pode.”

“Quando a doença dela se agravou”, continuou ele, “juro pra senhora que não consegui parar de pensar nas pessoas que morriam de peste negra na Idade Média.”

“Credo, seu Edgar!”

“Sei lá… O jeitão dela me fez lembrar daquela praga… Uma coisa que vai reduzindo o doente a um zumbi… E o cheiro! Nossa, o cheiro que ficou na caminha dela… Que coisa horrível! E eu deixando ela na sua casa, nessa condição… Com seu gato aí…”

“Eu não deixava os dois juntos, seu Edgar. E o Valdemar, além de velho, é vacinado.”

“Sim, mas só o cheiro já era uma… Nossa! Um cheiro de morte, de doença incurável… Sempre me fazia pensar que a peste negra devia ser bem parecida. Que só o amor pelo doente mantinha os parentes ali com ele…”

“Ah”, replicou ela, “pra mim isso não faria a menor diferença. Eu tive uma doença, uma tal de Calmão, Kallmann, sei lá, e por causa dela não sinto mais cheiro nenhum, de nada…”

Na ocasião, Edgar a encarara com um discreto sorriso, tentando ocultar seu espanto. Ele, que amava o cheiro da noiva, o cheiro da própria casa, que não suportava a presença de alguém com cê-cê, não conseguia imaginar como seria viver sem o olfato. Para ele, o cheiro tinha tudo a ver com amor e aversão. Quem não era capaz de senti-lo talvez fosse também incapaz tanto de amar quanto de odiar. Talvez sua vizinha fosse uma pessoa fria… Talvez até tivesse alguma relação com o fato de ser divorciada… Talvez sua aparente bondade não fosse senão resignação e complacência… Ademais, nunca a vira acarinhando sequer os próprios filhos, que aparentemente passavam mais tempo com o pai. Edgar ia confundindo a esse modo características físicas com princípios determinantes da alma. Portanto, para auxiliar sua extravagante racionalização, rememorava vezes seguidas o referido diálogo: se dona Berenice fosse realmente incapaz de amar e odiar, talvez não tivesse ajudado a cachorrinha dele senão por uma cortesia convencional de vizinha solitária e, portanto, pela mesma razão, ela não sentiria tanta falta assim do gato. O mais provável é que ela fosse totalmente indiferente aos animais. O rapaz, porém, por mais que especulasse atenuantes, continuava sendo espicaçado pelas Fúrias da própria consciência, sentindo-se ora um criminoso, ora um ingrato. E lá vinha então a necessidade de inculpar o felino, esse cretino peludo que iniciara todo o problema.

— Mas que besteira… — resmungou por fim, cansado. — Era só um animal, poxa vida! O coitado seguia o  instinto. E antes ele que o Nevermore…

Edgar, ao contrário do gato preto, era um ser humano, tinha arbítrio, responsabilidades e… — e, por essa razão, foi repentinamente dominado por outra taquicardia, desta vez uma mais forte e paranóica: ao esbarrar em sua própria responsabilidade de gente humana, recordou os recentes linchamentos morais de diversas pessoas envolvidas na morte de animais domésticos! As redes sociais estavam cheias desses casos. A tal injeção letal dada a algum bichano por uma enfermeira… A mãe que matou o cachorro doente na frente da filha… Laboratórios invadidos por utilizarem cães em suas experiências… Enfim, coisas antes tão banais, tão comuns, tão próprias de um ser que decide livremente… Edgar fazia suas elucubrações: sua avó, que para alimentar os peões torcia o pescoço de uma galinha quase todo dia, se viva estivesse, correria o risco de pegar prisão perpétua… Imagine então o que essa gente teria feito ao seu tio avô, o qual, sempre que sua gata paria, separava para si os machos, afogando em seguida todas as fêmeas… Os militantes da internet, prosseguia ele, caso encontrassem Abraão, iriam apedrejá-lo! Um ancião nojento que sacrificou, no lugar do filho Isaac, um inocente cordeiro… “Ah, humanos malvados!”, bradam hoje, com tochas acesas nas mãos, pela internet, pela “aldeia global”, os aldeões rebelados, os caçadores de gente. “Antes Isaac que o pobre cordeirinho!”, clamariam. É claro que ele, Edgar, não escaparia de um linchamento desse tipo… No fundo, é verdade, não se importava tanto com aquela gente distante do Facebook e do Twitter — essas praças digitais do homem moderno. Pior mesmo era saber que até sua noiva poderia se voltar contra ele! Isto, sim, o deixou apavorado. Apesar de suas diferenças, ele realmente a amava, não suportaria ser alvo de seu ódio! Como fazê-la entender que matara o gato por amor a Nevermore? Estava apenas defendendo o que era seu! Mas Virgínia entenderia isso? Se ela se enfezara, certa feita, ao ouvi-lo dizer que seria capaz de matar um criminoso para protegê-la, imagine então o que diria se o visse matar um gato para proteger um sabiá… Para ela um gato deveria valer mais que um humano criminoso… Mas era ele ou o sabiá, Virgínia! “Isso é apego!”, diria ela. “É fúria assassina, não é amor!” Mulheres, pensava ele… Na verdade, a noiva achava cruel até mesmo manter animais numa gaiola, uma discussão recorrente entre os dois. É óbvio que tudo isso tinha um único significado: a temporada de caça aos bruxos que matam gatos pretos estava aberta. Em suma: Edgar precisava livrar-se daquele cadáver i-me-di-a-ta-men-te!

Foi então à cozinha e pegou uma sacola plástica de supermercado. A idéia era ir até o córrego nos fundos da casa e discretamente despejar nele o animal. Voltou então ao quarto e notou que, morto o gato, passara a sentir nojo daquele pelo tão macio e brilhante. E como o animal estava magro! Dona Berenice não devia alimentá-lo muito bem — do contrário Valdemar não teria tentado invadir sua casa tantas vezes —, mas certamente ela o escovava e banhava, pois o pelo reluzia feito uma estola de vison. Com a mesma luva que usava para lavar a louça, depositou o animal na sacola. Desceu novamente as escadas. Ao chegar à cozinha, espiou pelo vitrô que também esquecera entreaberto — outra possível via de entrada do bichano.

— Que saco! — resmungou, ao perceber que além da cerca havia crianças correndo de um lado para o outro, por entre as árvores, de ambos os lados do riacho. Como seu quintal não possuía o muro dos fundos, mesmo se optasse por enterrar o gato, atrairia curiosidades. E atrair curiosidades numa época em que até menininhas de dez anos de idade possuem celulares com câmeras de vídeo… — uma temeridade! O que fazer então?… Sentou-se por um instante e coçou os olhos, a cabeça. Sua noiva iria ter com ele para jantarem juntos, não podia deixar as provas do crime assim à vista. E, olhando para o chão, viu as penas de Nevermore. Resolveu colocá-las na mesma sacola, afinal, eram pistas que poderiam incriminá-lo. Pegou da vassoura e as ajuntou. Subiu as escadas e, tanto no banheiro quanto no quarto, recolheu resquícios de pelos e penas. Ao concluir a tarefa, voltou para a cozinha e percebeu que as crianças já não faziam tanta algazarra lá fora. Tornou a espiar: havia apenas um garoto ocultando o rosto no próprio braço, em pé, debruçado contra o tronco do enorme guapuruvu. Reconheceu nele o filho mais velho de dona Berenice, cujo nome desconhecia, a contar em voz alta — certamente brincavam de esconde-esconde.

— É isso! — sussurrou com energia, quase eufórico.

Sim, esconde-esconde. Numa fração de segundo, Edgar projetou toda a ação: ali, sob a cozinha, onde dias antes iniciara a construção de uma parede rente ao barranco, daria sumiço ao gato preto! Sim, iria emparedá-lo! Tinha visto esse recurso num filme antigo. Quem era mesmo o ator? Peter Lorre? Era possível, afinal Lorre participara de muitos filmes de horror dos mais bizarros. Enfim, a questão é que Edgar emparedaria o cadáver naquele que seria seu futuro quarto de despejo. A parede já iniciada tinha como principal função ocultar uma enorme barriga rochosa, isto é, disfarçar parte do declive do terreno. Para Edgar, apesar de ser uma boa fundação para o restante da casa, a superfície irregular e cheia de saliências daquela rocha não ficaria nada bonita no futuro porão. E essa parede já estava quase concluída, uma vez que lhe faltava meramente a quinta parte do total de sua extensão. Com isso em mente, e sem mais preocupações, abriu a porta da cozinha e, levando a sacola, desceu a estreita escada que conduzia até o quintal. Entrou sob a casa, olhou o monte de areia, os sacos de cimento, os tijolos, e sorriu: ninguém jamais descobriria o ocorrido.

— Mãos à obra! — falou em voz alta, cheio de confiança.

E então dirigiu-se até a abertura que restava, em cujo estreito vão atirou a sacola, a qual desapareceu na escuridão.

— Noventa e nove, cem!! Lá vou eu!!! — gritou do outro lado do riacho o filho de dona Berenice.

Edgar olhou para trás e murmurou para si mesmo: — Pode vir, garoto, pode vir. Esse corpinho aqui você não vai encontrar mais não… — e, sorrindo, o olhar cheio de astúcia, passou a misturar cimento, água e areia.  O rapaz levou pouco mais de duas horas para completar a parede. As crianças, por sua vez, continuaram brincando e gritando até o pôr-do-sol, quando finalmente atenderam aos chamados das mães. Ao anoitecer, Edgar já havia feito até mesmo um reboco mais tosco. E deixou para outro dia a tarefa de passar massa corrida e de caiar a parede. Precisava apenas tomar um banho para aguardar a chegada de Virgínia. Ela não desconfiaria de nada, o gato já descansava em seu silencioso túmulo.

* * *

Horas mais tarde, Edgar, de casa arrumada e banho tomado, recebeu Virgínia à porta. Ela havia passado por um afamado restaurante japonês e trazia três pequenas sacolas com o jantar daquela noite: um combinado vegetariano e mais um amontoado de vegetais que ambos certamente teriam de afogar em shoyu. Ele, por sua vez, pretendia abrir a garrafa de Amontillado Tio Diego que ganhara do chefe na semana anterior.

— Gostou do meu cabelo?

— Gostei. Você fica linda com o cabelo preso.

Ela riu: — Você nem reparou, né? — disse, mostrando-se de perfil. — Meu coque está preso com hashis.

— Hummm — aquiesceu Edgar, arqueando as sobrancelhas. — Espero que não sejam os mesmos que a gente vai usar para comer.

Virgínia fingiu não ouvi-lo — não queria dar corda às boutades dele — e se dirigiu à cozinha, onde depositou as sacolas sobre a mesa.

— Ué, cadê o passarinho? — indagou, notando a gaiola vazia. — Finalmente fugiu?

O rapaz, que já havia ensaiado previamente uma resposta, explicou que o pobre animal amanhecera doente e agora estava deitado numa caixa de sapatos, coberto com um paninho. Ela quis vê-lo.

— Tadinho! — suspirou, observando o sabiá que mantinha apenas a cabecinha à mostra. — Tá vendo no que dá criar o bichinho preso desse jeito?

Contrariado, ele não conseguiu evitar um discreto esgar: — Não foi minha culpa, Vi. E ele não ia sobreviver sozinho longe da gaiola. Já tá acostumado.

— Tá bom, conheço esse papo. Vamos comer? — e ela sorriu.

Sentaram-se à mesa. Os pensamentos de Edgar agitavam-se em busca dum assunto qualquer, o qual, é claro, nunca dava as caras. A verdade é que estava cansado, aquele fora um dia extenuante. A escalada das emoções lhe exaurira as reservas de energia. O passarinho desaparecido, os dentes do invasor, a raiva, a luta, o descontrole, o pescoço quebrado, a culpa, a parede erguida… Tudo aquilo seguia roubando sua vontade de entabular uma conversação.

Notando o estado de espírito do namorado, Virgínia, taça à mão, procurava uma maneira de animá-lo, afinal, segundo sua perspectiva, aquela deveria ser uma noite especial.

— Tudo bem lá no seu trabalho, Ed?

— O mesmo tédio de sempre — replicou ele, um tanto distraído.

Aquela resposta sincera, porém atravessada, a deixou tão pensativa quanto ele. Nos últimos meses, ela vinha sentindo que era necessário dar uma guinada em suas vidas, dar um passo além. Rememorou alguns diálogos em que pescara uma anuência implícita da parte dele. Meditava a respeito. Sim, tinha certeza de que estavam no mesmo barco.

— Hum, gostoso esse vinho — disse ela, rompendo o silêncio.

Ambos comiam lentamente, sorvendo de tempos em tempos o Amontillado, que, na muda opinião de Edgar, teria combinado maravilhosamente bem com um frango xadrez, por exemplo, e não com aquela insossa sabe-se-lá-o-quê de soja.

— Edgar… — tornou ela, adentrando o terreno. — Você não acha que a gente já podia pelo menos morar junto?

Ele caiu das nuvens. Aquele não era de forma alguma o melhor momento para discutir tema tão delicado. Mudo, os lábios entreabertos, vacilou por dois ou três segundos. Precisava alterar o rumo da conversa, não queria correr o risco de iniciar uma discussão difícil. Infelizmente, o ímpeto que o fez abrir a boca não soube escolher assunto menos espinhoso.

— Andei lendo seus posts no Facebook, Vi. Aqueles de defesa dos animais…

Virgínia fez um muxoxo, torceu os lábios, olhou para baixo. Não acreditava que a resposta à sua acalentada indagação seria uma polêmica completamente alheia à matéria abordada. Em seguida, ergueu os olhos e voltou a encará-lo: — O que é que têm os meus posts?

— A cada cinco posts, você me dá três alfinetadas.

Ela arregalou os belos olhos negros: — O quê?! Ce tá viajando, Ed.

— Não é viagem. Você vive me dando umas indiretas muito chatas. Às vezes até estragam o meu dia — contestou ele, já se arrependendo do tom empregado.

A moça, visivelmente desconcertada, se aprumou na cadeira: — Olha, se você veste a carapuça, a culpa não é minha. Talvez seja um recadinho da sua consciência…

Esse último comentário o irritou profundamente. Fez o possível para se conter e não replicar à altura. Odiava essa condescendência tão comum aos militantes. Respirou fundo. Então esboçou um sorriso que, ao contrário da tranqüilidade que esperava transmitir, apenas a deixou alerta e intrigada. Era um sorriso de curinga.

— Vi, nós descendemos de caçadores e pastores.

— E, graças aos deuses, evoluímos muito de lá pra cá. Viva a agricultura!

— Pode dizer “viva a agricultura”, não discordo. É só por causa dela que o Brasil ainda não foi pro brejo. Mas esta comida vegetariana por exemplo… Sashimi de tofu? Pelo amor de Deus… “Viva a agricultura” não quer dizer “morra o paladar”.

Agora foi Virgínia que se irritou: — Eu não tenho postado nada sobre vegetarianismo.

— Você já é praticamente uma vegana. Seu vegetarianismo é subjacente a esse seu amor abstrato pelos animais. E põe abstrato nisso. O engraçado é que você diz amar os animais mas nunca teve sequer um peixe dourado.

— Quando eu amo alguma coisa, quero que essa coisa seja livre. Não vou colocar um passarinho na gaiola e nem um cachorro entre muros.

Por pouco Edgar não lhe atirou uma armadilha venenosa: já que ela respeitava tanto a liberdade dos seres amados, por que então queria lhe impor a prisão de morarem juntos? Mas ele não se atreveu, pois não acreditava mais na existência desse cárcere. Principalmente se uma tal decisão evoluísse para o casamento. Seu conceito relativo ao matrimônio já não era do tipo adolescente, imaturo. Há já algum tempo havia notado que o casamento por amor não é senão a melhor maneira de libertar tanto o homem quanto a mulher da prisão das paixões transitórias. Quem, além de não possuir um cônjuge, tampouco possui um temperamento celibatário, dificilmente ocupa a mente com algo além da busca pelo sexo oposto. E, sendo a vida curta como é, haverá um preço a ser pago: se o sujeito não anda para frente com sua companheira, andará em círculos à procura de uma.

— Olha, Vi — recomeçou ele, procurando uma nova abordagem. — O problema real é que, no fundo, temos visões de mundo completamente diferentes. Como a gente vai conseguir caminhar na mesma direção se você é capaz de dizer que certos animais valem mais que certos seres humanos?

— E vai me dizer que não é verdade? Seu passarinho não é melhor do que Hitler?

— Ai ai… Lá vem o vegetariano nazi. Típico. Isso não passa de Reductio ad Hitlerum

— Hum?

— O ser humano pode se redimir, Virgínia. Um animal apenas segue seus instintos. Você lembra daquele filme Os deuses devem estar loucos? Nele a gente vê o que um caçador bosquímano costuma fazer após flechar uma presa: ele se aproxima, pede perdão ao bicho e explica que precisa alimentar sua família. Uma onça jamais faria isso: ela não é autoconsciente!

— Os humanos civilizados não são assim: compram tudo no açougue. Os humanos não valem nada.

— Os judeus e os muçulmanos, por exemplo, só comem carne quando o animal é morto ritualisticamente. Mutatis mutandis, é a mesma atitude dos bosquímanos.

Ela fez uma careta: — Mutatis mutandis… Ai, só você.

— Animais podem ser muito devotados a seus semelhantes e até a seus donos, mas não são capazes da verdadeira compaixão. Eles não podem conceber um Criador.

— Ah, não, por favor, não começa com religião. O fato aqui é: você diz amar os animais mais do que eu apenas porque gosta de criá-los em cativeiro. E de comê-los! Quem ama não come o ser amado! Não percebe a contradição?

— Um homem quer sempre comer a mulher amada…

Ela não achou a menor graça. E, exasperada, repetiu: — Não percebe a contradição?!

— Seria contradição se eu fosse hindu e adorasse churrasco — e sorriu. — Há animais para toda ocasião, Vi. E, se você não nota que somos superiores a eles, pode pelo menos assumir que a maioria deles, dos próprios animais, nota. Se você tivesse um bicho qualquer, perceberia que os animais nos olham como se fôssemos deuses, com um misto de admiração e devoção, e às vezes de medo também, né, porque afinal a gente tem tantas paixões e falhas quanto um deus grego.

— Vai testar isso na África então, Ed. Aposto que um leão, em vez de te achar divino, vai te achar é comestível…

Edgar estava se cansando daquilo. Sempre se achara um péssimo debatedor. Nunca conseguia ir até o fim sem se deixar envolver emocionalmente. Respirou fundo mais uma vez. Entre outras coisas, precisava evitar ataques pessoais.

— Você diz para eu “não começar com religião”, mas, no final das contas, esse é o cerne da questão. Você não acredita que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Acha que somos simplesmente mais um tipo de animal.

— E somos mesmo. Comer carne é canibalismo, qualquer carne.

Ele tentou seguir com o raciocínio: — Toda liderança implica unidade, Vi. Como iremos liderar juntos uma família se não concordamos com o essencial? Criaremos filhos esquizofrênicos? Já imaginou o que essa lenga-lenga de que humanos não valem nada vai causar na cabeça de uma criança?

— Ai, Ed. Isso é besteira. As crianças são mais espertas do que você imagina. E ninguém aqui falou em filhos. Eu trabalho, lembra? Não tenho tempo. Você exagera tudo!

— Não é uma questão de esperteza, de cabeça. É uma questão de coração. Quando a pessoa se vê metida numa situação drástica, premente, quem manda é coração. E o coração se orienta pela visão de mundo da pessoa.

— Ninguém falou em filhos, Ed!

Eu estou falando! E tô falando porque, se você acha que humanos não prestam, certamente não vai querer ter humanos em miniatura dentro de casa. E quer saber? Eu queria era ter a vida daquele pessoal do seriado Os Pioneiros: uma fazendinha no Meio Oeste, uma esposa, três ou quatro filhos, liberdade para defender minha família, para cultivar minha terra e criar meus animais como bem entender.

— Ai, Ed, a gente vive no mundo real, no presente…

— A família é a única instituição humana atemporal.

Agora foi Virgínia quem respirou fundo: — Olha, Ed, eu perguntei se você queria morar comigo e você começou essa conversa chata sobre polêmicas do Facebook. Se você não quiser dividir o mesmo teto, é só me falar, não precisa inventar desculpas.

— O Graciliano Ramos ainda é seu escritor brasileiro predileto? — insistiu Edgar, encarando-a.

— Caramba, você nem me ouve mais!

— É ou não é?

Virgínia explodiu: — É, sim!! Mas e daí?! Você fica fugindo da minha pergunta, droga!

— Sabia que, num dos relatórios dele como prefeito de Palmeira dos Índios, ele diz que sua principal atividade era recolher os cachorros de rua e matá-los?

Ela cerrou os olhos, refestelou-se na cadeira e emudeceu com uma expressão rancorosa. Em seguida, levou então uma mão à testa, mais atormentada que pensativa. Seus nervos estavam em frangalhos. Ela e Edgar já haviam tido discussões semelhantes, mas, agora, o que realmente a magoava era essa tergiversação sem fim. Não sabia dizer se ele realmente levava a sério tais questões ou se ele simplesmente não tinha coragem de rejeitar sua proposta. Decidiu não dizer mais nada. O melhor a fazer era sair dali o mais rápido que pudesse.

— Vou embora — disse, levantando-se.

— Espera, Vi. Eu preciso te contar uma coisa. Só estou dizendo tudo isso antes porque acho que a sinceridade é importante numa relação. Espera, deixa eu te contar.

Sentindo que chegara a oportunidade de zombar dele tal como ele costumava fazer, ela retirou o celular da bolsa e o apontou para ele: — Fala com meu celular — disse, em tom sarcástico. — Mais tarde, caso eu ainda esteja a fim, vou ouvir sua conversa fiada. Já cansei das suas besteiras por hoje.

— Você perdoaria o Graciliano? — tornou ele, sem se alterar.

Ela manteve-se em silêncio, uma expressão gélida no rosto, olhando na direção da porta que dava para a sala. O braço continuava erguido, apontando o celular para o rosto de Edgar.

— Se não vai responder, tudo bem, vou contar assim mesmo: hoje eu matei o gato da vizinha, o Valdemar.

Sem mover um músculo da face sequer, ela voltou a encará-lo.

— Matei o gato da dona Berenice. Quebrei o pescoço dele.

— Isso é mesmo verdade? — ela finalmente perguntou.

— É.

— O que você fez com ele?

— Com o corpo? Taí atrás da casa.

— Por que você fez isso?

— Não teve outro jeito, ele estava tentando comer o Nevermore.

— Então você matou um gato porque ele estava tentando pegar um passarinho…

— Tentando, nã…

— Você é um idiota, Edgar — disse ela, interrompendo-o. Então abaixou o braço, guardou o celular na bolsa e saiu da cozinha. Segundos depois, ele ouviu a porta da sala bater e, em seguida, o motor do carro dela.

“Alea jacta est”, pensou. “Se ela conseguir me entender, irá voltar.”

Antes de subir para o quarto, ele foi trancar a porta da frente: os hashis que antes prendiam o cabelo da namorada estavam agora no chão da sala formado uma cruz, o que lhe pareceu de mau agouro. Correu, pois, até a caixa de sapatos: Nevermore estava morto.

* * *

Naquela noite, Edgar dormiu muito mal. Sentia-se inquieto, tendo acordado duas ou três vezes durante a madrugada, o corpo dolorido, o rosto suado. Saber que, na manhã seguinte, teria de enterrar Nevermore o enchia de tristeza. Revolvia-se na cama sem parar. A certa altura chegou mesmo a acreditar que ouvia a cantoria noturna do falecido gato preto, o que muito o impressionou. Uma lamúria felina, distante, como o de um macho a disputar, num arremedo de choro humano infantil, a fêmea indiferente. Claro que só podia ser outro bichano qualquer, talvez a um ou dois quarteirões de distância dali.

— Que saco. O filho-da-mãe era só um gato… — resmungou ao acordar pela segunda vez.

Depois de lutar contra a insônia — uma insônia também recheada de remordimentos devido à maneira pela qual tratara Virgínia —, Edgar finalmente caiu em sono profundo. Só foi despertar quando o Sol já estava alto, aí pelas dez da manhã daquele Domingo, pois alguém, provavelmente numa das casas vizinhas, berrava a plenos pulmões:

— Cadê o bandido?! Vamo pegá esse cara, galera!!

Apurando os ouvidos, percebeu que havia um intenso rumor de fundo, como se dezenas de pessoas, talvez centenas, resmungassem todas ao mesmo tempo. Alguém certamente reunira a vizinhança para justiçar um ladrãozinho ou, quem sabe, um traficante. Isso não era tão incomum nesses bairros novos mais afastados. Em geral, a polícia só aparecia muitas horas depois, quando já estava tudo consumado.

— Ele tá aí dentro! Vamo entrar!! — secundou outra voz masculina.

E o rumor intensificou-se, transformando-se numa vozearia confusa, mais próxima. E então Edgar ouviu a janela de vidro da sala da frente se estilhaçando. Assustado, dum único pulo levantou-se da cama: e se o tal bandido estivesse escondido em sua casa?

— Caramba! — murmurou, sentindo o derrame súbito de adrenalina.

Pé ante pé, Edgar foi até a janela do quarto que dava para a rua e a abriu.

— É ele, pessoal! É ele!! — rosnou dona Berenice, que já estava em sua garagem.

Aparvalhado, Edgar arregalou os olhos: uma multidão tomara toda a rua diante de sua casa! Não lograva compreender como um bairro tão desabitado poderia produzir semelhante concentração de pessoas. Talvez fossem estudantes e funcionários do campus universitário vizinho, que possuía inúmeros alojamentos estudantis, o que explicaria o grande número de jovens e toda aquela gente uniformizada. Dentre estes, alguns já haviam pulado o portão da frente e agora acompanhavam a vizinha, rodeando seu carro. Três ou quatro, mais ousados, alternavam-se de pé sobre o capô e o teto do veículo. Ao vê-lo, inúmeras vozes levantaram-se contra ele:

— Assassino!

— É ele! É ele!

— Vamo acabar com esse cabra!

Como um Papa a abençoar da janela o povo reunido na Praça de São Pedro, Edgar acenava: na verdade, pedia silêncio. Incapaz de consegui-lo, alcançou a gritar:

— O que é que tá rolando, gente?!

Uma profusão de invectivas, anátemas e palavras de ordem invadiu o quarto em uníssono, mas Edgar não entendeu absolutamente nada. Entendeu apenas a pedra que passou a um centímetro de sua cabeça indo atingir em cheio o monitor do laptop, que trincou feito o pára-brisa de um carro acidentado. Fechou a janela num átimo e correu a buscar o celular: precisava chamar a polícia.

“As pessoas enlouqueceram de vez”, pensava, enquanto desplugava o celular do carregador.

Quando a tela de bloqueio se iluminou, Edgar notou que havia mais de quatro mil notificações do Facebook: o que estaria acontecendo? Quis abrir o aplicativo da rede social e verificar se havia alguma relação com a situação absurda que ora experimentava, mas, nesse mesmo instante, ouviu um forte estrondo e, para seu horror, percebeu que haviam arrombado a porta da rua. A gritaria e a balbúrdia resultantes subiam pelas escadas como a fumaça por uma chaminé, indicando que sua casa fora realmente invadida pelos bárbaros vizinhos, ou por seja lá quem fossem. No térreo, sons terríveis de objetos sendo derrubados, atirados e quebrados atestavam que o vandalismo e os saques iam de vento em popa. Indeciso entre a idéia de vestir-se — e portanto de não ser pego de cuecas — e a opção mais sábia de correr e trancar-se no banheiro do outro lado do corredor — a porta de seu quarto não tinha chaves —, Edgar viu-se paralisado por segundos assaz valiosos. Eis o seu erro! Quando finalmente decidiu alcançar o banheiro, já era demasiado tarde: um sem número de mãos o agarraram pelo braço, pelas pernas, pelo pescoço, pelo cabelo e até pelas cuecas. Perdeu o chão e de repente já flutuava sobre as cabeças daquela chusma irada.

— Socorro! Socorro!! Me larguem!!! — desesperava-se.

Foi conduzido à força escada abaixo por um aluvião de gente cujos dentes rangiam de frenesi e cujos olhos faiscavam de cólera. Sim, havia também risadas e muitas gritas de triunfo, como se a torcida organizada de algum time de futebol estivesse presente e como se ele, Edgar, fosse o troféu.

— Socorro!!!

Atravessou a casa de ponta a ponta, a bem dizer, por via aérea, sendo despejado do alto da escada dos fundos diretamente no quintal, onde caiu meio de quatro, afundando o rosto, os cotovelos e os joelhos na terra. Ainda com os olhos cerrados e sujos, a expressão amargurada e dolorida, foi agarrado pelos cabelos e forçado a ficar de joelhos.

— É este aqui, dona Berenice? — disse uma voz masculina esganiçada.

— É ele, sim.

— É ele! É ele! — bradaram em coro dezenas, talvez centenas de vozes enfurecidas, entre as quais havia inclusive vozes infantis.

Edgar tentou limpar os olhos para poder encarar a vizinha, mas seus braços eram mantidos presos por mãos invisíveis. Apesar daquela resposta, a voz de dona Berenice lhe trouxe alguma esperança e ele então voltou a procurar uma razão por trás de todo aquele absurdo.

— Dona Berenice! Dona Berenice! Por favor, me ajuda!

— Não me comprometa. Pra mim você não cheira nem fede.

— Por que isso? O que é que tá acontecendo?

— A gente viu seu vídeo no You Tube, Edgar — tornou o homenzinho da voz esquisita. — Todo mundo já sabe que você mata os gatos da vizinhança. Sua confissão tá bombando no Facebook.

—  O quê?! Mas que confissão?

Alguém aproximou um celular de seu ouvido e Edgar pôde ouvir claramente a confissão feita para Virgínia na noite anterior. Não podia acreditar que ela fizera aquilo com ele. Sua própria namorada! Ele, pois, sentiu um intenso vácuo na altura do estômago e, pela primeira vez, realmente temeu por sua vida. Uma agitação pânica o dominou, começou a suar frio. Aquela gente doida certamente o havia pego para bode, ou melhor, para gato-expiatório.

— Serial killer de gatos!! — esbravejou uma voz cavernosa atrás dele.

— Mas isso é mentira! — protestou Edgar, atônito. E então, desesperado, acrescentou com toda a inocência do mundo: — Eu só matei o Valdemar.

A multidão se exaltou: — Ele confessou de novo! Confessou!

— Vamos acabar com ele! — berrou histericamente uma mulher metida num jaleco branco, em cujo crachá podia-se ver um “psi-alguma coisa”: talvez uma psicóloga, talvez uma psiquiatra.

O homenzinho levantou o braço e instou-os a se calar:

— Calma aí, pessoal — disse, cheio de autoridade. — Primeiro a gente precisa encontrar o corpo do gato. A gente precisa de provas, né. No vídeo, nosso amigo diz que escondeu ele aqui atrás da casa. Alguém já encontrou o bichano?

Conforme esse comissário do povo improvisado ia olhando em redor, as pessoas iam se afastando do seu campo de visão, deixando entrever um quintal já todo esburacado, com covas de todos os tamanhos e profundidades. Não, ninguém encontrara nada.

— Posso lavar meu rosto? — solicitou Edgar, humildemente.

O homem fez então um sinal para que levassem o prisioneiro até uma torneira localizada sob a casa. Ali, encheram o mesmo balde utilizado pelo rapaz na preparação do cimento e atiraram água em seu rosto. Sem soltar seus braços, permitiram que usasse as mãos para limpar-se. Sua cueca, enlameada, pendia feito um coador de café usado. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, Edgar viu uma espessa e intransponível muralha de gente a bloquear-lhe a saída. Atrás de si, apenas a parede do futuro porão, recentemente rebocada.

— Vocês estão enganados! Eu não fiz nada! — disse ele, a voz embargada.

— Mas você confessou duas vezes: no vídeo e agora.

— O vídeo foi uma brincadeira de mau gosto.

— E essa confissão que você acaba de fazer? É o quê?

Edgar, opresso tanto pelos ânimos exaltados à sua volta quanto pela visão dos pedaços de pau em riste, estava quase aos prantos: — Falei por falar, para me defender dessa acusação de assassino em série de animais… Eu sempre tive bichos de estimação, sempre, eu…

— Vão deixar ele continuar com essa conversa mole? — berrou alguém por trás da muralha humana. — Tá na cara que ele é culpado!

— Verdade! Tinha um passarinho morto lá na sala dele — comentou outro em voz alta.

— Ele tá com os braços arranhados! Deve ter sido o gato!

O comissário do povo voltou a intervir com sua vozinha estridente:

— Calma, galera. Vamo deixar o homem falar? Se todo mundo ficar quieto a gente logo vai ver se o papo dele é reto ou não.

Restabelecido o silêncio — e isso deixou Edgar bastante apreensivo, pois aquele sujeito diante dele parecia deter um poder real — reiniciou-se o interrogatório. Edgar respondia a tudo da melhor forma que podia, tentando aflitivamente preencher os buracos de uma história na qual Valdemar seria um vilão assassino de passarinhos e ele, um defensor da vida selvagem. Claro, na sua versão Valdemar teria fugido vivo pela mesma janela por onde entrara. O rapaz sabia que, com uma multidão, de nada valeria a pura lógica. Teria era de se ater à retórica, tentando persuadi-los de sua inocência da maneira mais emocional possível. Chegou a falar do tatu que ganhara do avô na fazenda, de como o tratara bem e o soltara ao fim de três dias. É óbvio que não contou que mantivera o bicho amarrado por uma perna para, depois de deixá-lo cavar túneis profundos, poder puxá-lo de volta à superfície. Isso teria transmitido uma imagem demasiado cruel de si. Por isso, preferiu enumerar e nomear todos os cães que tivera desde a infância, sendo Marie Roget a mais recente. Descreveu também os inúmeros gatos criados por sua irmã mais velha ao longo dos anos, tal como Plutão, um gato tão preto quanto Valdemar. Com lágrimas nos olhos, falou ainda do risonho papagaio fêmea, assassinado por um gambá quando ele tinha apenas 11 anos de idade, e também da tartaruga e do mico-de-cheiro. Enquanto descrevia uma infância digna de um filho de Noé, notou que finalmente começara a tocar boa parte daqueles corações empedernidos. Aquele auto-nomeado juiz do seu caso, que descobriu chamar-se João, estava claramente inclinado a liberá-lo e não parecia nem um pouco interessado na opinião de um júri. Isto deixou Edgar ainda mais tranqüilo e ainda mais convicto de sua própria absolvição.

— Alguém arranja uma toalha pra esse homem se cobrir — disse João, a certa altura do depoimento. E arrancando risos da assembléia, acrescentou: — Parece até que o coitado tá cagado.

Foi então, enquanto esperavam pela toalha, que aconteceu: um miado, talvez um gemido de gato, se deixou ouvir distintamente. Só podia ser Valdemar! Um princípio de alvoroço teve de ser contido: — Você ouviu? Você ouviu? — dizia-se aqui e ali.

— Quietos! — disse João, enérgico. — Vamo ouvir.

Era o mesmo miado de gato macho que Edgar ouvira durante a noite. Feito os gemidos de uma criança, o animal parecia cortejar uma fêmea no cio. Uma estranha eletricidade percorreu igualmente a todos os circunstantes. Entre eles, Edgar era o mais pasmado, mal podendo acreditar em seus ouvidos. Esticando as cabeças, todos tentavam detectar a origem do som. A um sinal de João, aquele pelotão de orelhas revirou sacos de cimento, tijolos, carrinho de mão, ferramentas, mangueiras e até mesmo as covas recém abertas e o balde que acabara de ser usado: mas nada de gato.

— Chefe! Escuta só. — disse ao fim de um minuto um sujeito sem camisa. — Vem da parede!

João aproximou-se e colou o ouvido ao reboco ainda fresco. Perdeu instantaneamente a boa vontade e a recém manifestada simpatia. Virou-se e encarou Edgar:

— Tem alguma entrada por dentro da casa? Alguma entrada de porão? Ou é só por aqui mesmo?

Edgar, com olhos esbugalhados e o rosto morbidamente pálido, respondeu com um fio de voz: — Não tem outra entrada…

— Como é?!

— Não tem. Só essa parede.

O próprio João tomou duma marreta encontrada junto às ferramentas e começou a golpear a parede justamente onde notara o cimento fresco. A muralha humana se fechou ainda mais em torno desse extraordinário acontecimento. A expectativa era quase palpável. Edgar, logo atrás de João, e já indiferente ao fato de estar de cueca, ao mesmo tempo em que tentava convencer a si mesmo de que todos compartilhavam duma alucinação auditiva, esticava-se cheio de curiosidade. E assim como os golpes de marreta, os miados prosseguiam. Seria possível que Valdemar fosse agora um morto-vivo?

“Que loucura…”, pensava Edgar.

Logo que João conseguiu abrir um buraco grande o suficiente para introduzir as duas mãos, pôs-se a puxar aquela parte da parede, que, após algum esforço, veio abaixo quase que inteiramente. Uma exclamação de espanto dominou a todos: de pé, arrimada de costas à rocha, lá estava Madeline, a filha albina de dona Berenice! Ainda mais branca que de costume, toda coberta de pó de cimento, a menina estava abraçada ao defunto gato Valdemar. E ela chorava, numa lamúria monótona de quem já havia gasto toda sua reserva de lágrimas.

— Madeline!! — separou-se da multidão dona Berenice. — Você não devia estar com seu pai, menina?

— Não… — a menina soluçava copiosamente, o nariz escorrendo, os cabelos em pé. — Tava brincando… de esconde-esconde…

Em choque, Edgar caiu de joelhos: ele quase matara uma criança! O sentimento de culpa que o invadiu — a menina provavelmente chorara em desespero a noite inteira! — paralisou-o a tal ponto que nem percebeu a indiferença dos demais para aquele fato.

— Sua idiota! — berrou dona Berenice. — Vai já pra casa, toma um banho e liga pro teu pai vir te buscar. Hoje eu vou sair com minhas amigas e não quero saber de carregar você comigo.

— Não falei? — gritou o homem da voz cavernosa. — Olhaí o gato morto.

— Mas, gente, a menina precis… — ainda tentou dizer Edgar.

— Assassino de gatos!! — interrompeu-o uma mulher atarracada, de seios grandes, vestindo uma camiseta de um sindicato qualquer, a qual, aproximando-se, o chutou no estômago.

Foi o estopim para que cada qual pegasse dum tijolo, dum pedaço de pau ou duma ferramenta qualquer e começasse ali mesmo a linchar Edgar, que não moveu sequer um músculo para fugir ou para se defender. Em menos de um minuto já estava desacordado.

— Vamo acabar com esse desgraçado!! — berravam.

— Assassino!!!

Alguém então o arrastou por uma perna e o atirou no meio do quintal, onde seu suplício prosseguiu. Ninguém mais ligava para Madeline, que, a essa altura, devia estar chorando em sua própria casa, para onde se encaminhara vagarosa e amarguradamente com o gato morto no colo. João observava o linchamento à curta distância, com ar circunspecto. Já não tinha o que fazer: uma vez que se perde o controle de uma multidão, já não há volta. Em dado momento, notou que dois adolescentes registravam toda a cena com as câmeras de seus celulares. João chamou o homem sem camisa a um canto e lhe disse:

— Afonso, avise aqueles dois, e quem mais estiver filmando, que, se algum vídeo aparecer na internet amanhã, eles é que vão estar no lugar desse aí. Falô?

— Falô, chefe.

— Vai lá. E toma o celular deles.

Naquele mesmo domingo, ao anoitecer, João convidou diversos vizinhos para um churrasco em sua residência, localizada a dois quarteirões da casa de Edgar. Sentado numa espreguiçadeira, com um gato siamês no colo, estava satisfeito: havia recebido a encomenda feita na semana anterior e suas bocas estavam abastecidas com a mais pura cocaína. Boa parte dos vizinhos que haviam presenciado o linchamento naquela manhã atendeu ao convite e compareceu ao boca-livre, seja por respeito, seja por cumplicidade, seja por medo. Inclusive um vereador ex-sindicalista aparecera, pois precisava recolher uma contribuição de campanha. Curiosamente, nenhum dos convidados estranhou o sabor levemente adocicado daquela carne de porco. Talvez fosse um tempero novo.

— Não quer um pedaço, chefe?

— Não, parei de comer porco — respondeu calmamente o homenzinho da voz esganiçada. — Acho que vou me converter ao Islã — e piscou um olho.

Quanto a Edgar, um mistério permanente cercou seu desaparecimento: para onde havia ido? O que lhe acontecera? Teria ficado com vergonha daquele vídeo que viralizou na internet? Teria fugido com medo das conseqüências? Por que não pedira férias ou demissão? Por que não se despedira de ninguém? Passaram-se mais de dez dias até que Virgínia finalmente convenceu a polícia a entrar na casa dele, a qual permanecera trancada todo aquele tempo. Para surpresa de todos, o local estava completamente vazio, sem móveis, sem chuveiro elétrico, sem torneiras, sem nada: Edgar certamente mudara-se de mala e cuia. A irmã e os pais dele não tinham notícia alguma. Os amigos, baseados na última postagem feita por ele tanto no Facebook quanto no Twitter, acreditavam que ele iria aparecer em algum país estrangeiro, talvez nos Estados Unidos ou no Chile, do qual costumava alardear a beleza e o clima. Dizia seu último post: “Desisto do Brasil. A única saída é mesmo o aeroporto”.

 

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© Yuri Vieira 

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  • Comentário do Giuliano Dini que o Facebook, sei lá por que, engoliu: https://www.facebook.com/plugins/comments.php?fb_comment_id=931667680263379_1050976301612799&href=http%3A%2F%2Fm.textos.yurivieira.com%2Fcontos%2Fa-menina-branca%2F&from_mod_tool=true

    “Yuri você me provocou a
    escrever sobre um livro que li (A Revolução dos Bichos de Orwell) que
    tentarei fazer uma conexão com esse assunto. No final do livro aquele
    sentimento de impotência que Quitéria deve ter sentido, eu também senti.
    Aquela sensação de ter sido enganado, não pela inocência, que tenho
    convicção de que a vaca e todos os bichos da granja tinham. Frutos da
    boa-fé das pessoas de bem. Aquela cena narrada no livro quando viram o
    porco Napoleão naquele estado de embriaguez, deboche e negociatas me deu
    uma tristeza profunda, de dor mesmo, ao ver os bichos escravos
    sentindo-se traídos, mas ao mesmo tempo decepcionados. Não distinguiam o
    que era bicho ou que era homem.
    Quando criança nunca tive coragem de matar uma galinha. Um porco então nem se fale.
    Em
    uma página de Veganismo vi uma moça acariciando a barriga de um porco
    de uns 50 kilos dizendo: – Ai tadinho está espreguiçando, dorme neném…
    E o porco cochilando…
    Nos comentários babavam ódio e desejo de morte para qualquer
    um que questionasse ou brincasse com a cena. Confesso que tive vontade
    de comprar um punhal e preparar a leitoa do próximo Natal.”

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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