O Backbone, a Verdade e a Vida

15/05/2007
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Meus avós paternos são baianos de Maraú, ao sul de Salvador, perto de Valença. Minha avó é católica e vive hoje com minha tia evangélica em Vitória, Espírito Santo. Minha avó sempre me diz que esse negócio de candomblé é coisa do pessoal de Salvador, que no restante da Bahia não dão muita atenção a isso não. Ademais, minha avó só foi tomar conhecimento do candomblé no Rio de Janeiro, quando minha tia, essa mesma com quem ela mora hoje, desapareceu numa praia da Barra da Tijuca, um local então deserto – estamos falando dos anos 1950 – sendo mais tarde encontrada em transe no meio de uma roda de candomblé, as macumbas repercutindo. Ela tinha entre 7 e 10 anos de idade. Sim, minha tia foi médium durante muitos anos. (Ainda é, mas ela trata suas experiências hoje como manifestações e revelações do Espírito Santo). Cresci ouvindo meus parentes do Rio falando a respeito da “Ritinha” (um erê) e da “Vovó Maria Conga” (uma preta velha), entidades que ela recebia. (Na casa da minha avó, no Rio, havia um nicho cheio de brinquedos que eu, minhas irmãs e meus primos não podíamos tocar porque pertenciam à Ritinha. “Quem diabo é essa Ritinha que nunca vi mais gorda?”, matutava então.) Depois do candomblé, minha tia passou pela umbanda, kardecismo, seicho-no-ie, budismo, novamente catolicismo, etc. para só se encontrar na Igreja Cristã Maranata.

A principal atividade da minha tia, hoje, é consolar e confortar moribundos em hospitais, sem tentar convertê-los. Ela sempre indaga a respeito das crenças ou descrenças do doente, partindo daquilo em que eles depositam suas esperanças. Acha uma covardia se aproveitar de sua situação de fraqueza para fazer prosélitos. Os médicos e enfermeiras ficam aliviados quando ela aparece porque sempre levanta o astral dos doentes, mesmo o dos ateus. Enfim, minha tia conheceu a fundo o candomblé e, hoje, acredita que o sem fim de entidades, santos, deuses, ou como queiram chamá-los, apenas dá margem a que pessoas com certos desvios morais permaneçam nesses desvios, afinal, seus orixás de cabeça também são assim. “Se Ogum é assim, por que devo mudar?” Minha tia crê que a religião deve melhorar o ser humano, não justificá-lo. É óbvio que há muita gente honesta e sincera no candomblé, como em qualquer outra religião, mas certos pontos da doutrina podem apenas servir de becos sem saída para seus crentes.

Sim, toda religião tem seus becos (não há culto sem doutrina, como quer o Nizan), mas os maiores becos são esses que afirmam que não é preciso, não direi buscar, mas tender para a perfeição (moral). (Olha o que diz o Nizan: “A religião católica quer que os homens sejam deuses. No candomblé, são os deuses que baixam nos homens”. Isso aí é próprio do Cristianismo, pois Jesus disse: “Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito”. É um norte, uma orientação, não um jugo.) Há outros becos menores como a adoração e culto (ao invés de respeito e gratidão) à natureza e aos antepassados. Como diz a Suprema Personalidade de Deus (Krishna) no Bhagavad Gita: “Ao morrer, aqueles que adoram seus antepassados irão até seus antepassados, aqueles que adoram semideuses irão até eles, mas apenas aqueles que adoram a Suprema Personalidade de Deus virão até mim”. Bem, nem tudo estará perdido, pode-se dizer. Não é preciso acertar o alvo na primeira tentativa. (Não me refiro à reencarnação, por favor.) Mas, mesmo que você imagine que seu antepassado seja um santo, ele pode ter alguns podres muito bem escondidos, estando hoje num local não muito agradável. Melhor respeitá-lo e mandar bons pensamentos, e não apegar-se a ele. Um apego – que é o que resulta da adoração e do culto – é um link. Morrer é dar um salto quântico e acompanhar esse link.

Quanto à adoração da natureza, vide “A Nova Era e a Revolução Cultural“, do Olavo. Resumirei assim: “Incapazes de compreender a capacidade que temos de atingir interiormente a transcendência – aquilo que está além do tempo e do espaço – algumas pessoas (a turma da Nova Era) se apegam a elementos do espaço (à Terra, às águas, aos animais, aos astros, etc.) e outros (a turma da Revolução Cultural) ao tempo (à História, ao destino, ao futuro paraíso terrestre, aos antepassados, etc.)”. Lembre-se do que falei sobre apego e link e estamos conversados.

Eu curto a mitologia dos orixás tanto quanto admiro a astrologia ou a mitologia grega: são arquétipos. E só. Vivo dizendo que sou escorpiano, mas isso é porque sei onde, segundo a astrologia (que bate perfeitamente com minha intuição), estão meus potenciais e meus defeitos. Tento corrigir estes e atualizar aqueles. Se eu for passar a vida me vingando, guardando remorsos e rancores, tal como é típico num escorpiano, apenas porque sou um escorpiano, estarei ignorando o norte dado por Jesus: “Sede perfeitos”. Imagine um cara que se identifique totalmente com um Exú sacana. Pode ser muito bom para inspirar uma tragédia shakespeariana – Iago é bem exuzento, se comunica pelos cotovelos – mas, sem o tal norte da bússola, não há de ser nada bom para a alma dele.

Em suma, a grande questão é: por mais que busquemos a perfeição, somos limitados e estamos constantemente submetidos a tentações e às mares do humor. Se sou um devoto de Cristo, de Deus, por mais que eu não esteja num bom dia, devo saber que apenas as boas intuições, ações e palavras têm origem neles. Se, tal qual minha tia (no passado), fico me linkando toda semana à Vovó Maria Conga ou a um erê (a entidade criança), é preciso saber que nem sempre a entidade que baixa hoje é a mesma que baixou ontem, sendo esse nome – Vovó Maria Conga, por exemplo – mais um arquétipo que uma personalidade fixa sempre idêntica a si mesma. Se esta semana ando meio ressabiado, de mau humor, grilado, devo saber que atrairei uma entidade no mesmo padrão vibratório. E é por isso que minha tia – uma escorpiana que precisou vencer suas tendências negativas (que no escorpiano são terríveis) – precisou superar tantas doenças graves que quase a levaram à morte diversas vezes. É muito fácil ser engambelado por vampiros astrais nesse meio. E ela só se tornou a pessoa vibrante que é hoje – sim, após todas essas experiências – depois que se entregou ao Cristo e somente a Ele. Como diz o Highlander: “Só pode haver um”. Sem esse Um, não há unidade, que NÃO é sinônimo de uniformidade. A unidade é a base da realidade, sem ela não podemos conhecer uns aos outros, não podemos nos conectar aos princípios universais. O politeísmo, se levado a sério, pode por indução nos afastar da idéia de unidade e nos levar ao relativismo absoluto. Eu creio numa hierarquia e acho que Cristo está acima de todos os demais mestres deste universo, simplesmente porque é anterior a todos aqui, nosso backbone a nos comutar com a Primeira Fonte e Centro. É o Caminho, a Verdade e a Vida porque, não importa qual buda, orixá, deus, mestre, amparador ou entidade você siga hoje, quando você estiver se aproximando da Personalidade de Deus – porque o Espírito dele já está em nossos corações – antes desse Encontro você precisará passar pelo “escritório” de Jesus e receber o “carimbo” dele em seu “passaporte cósmico”. Tenho certeza de que essas mães e pais de santo citados pelo cara – esses que são de fato boas almas – compreendem o que estou dizendo e apenas por isso vivem uma vida santa, isto é, tendente à perfeição. Do contrário só atrairiam gente baixo astral…

Bom, that’s all, folks. (Por enquanto.) 

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O Autor

Yuri Vieira é escritor e cineasta. Saiba mais.

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